2. COMUNIDADES IMAGINADAS NA BLOGOSFERA
2.2 COMUNIDADE COMO ESPAÇO DE CONEXÃO E AFETO
Outro autor que trabalha a questão das comunidades, utilizando o termo “tribos”, é
Michel Maffesoli. Mais que um fenômeno político, econômico ou social, o tribalismo
apresentado por Maffesoli é um fenômeno cultural. Ele tem caráter sentimental e espiritual,
fazendo oposição aos valores do universalismo e racionalismo. E pode ser considerado como
um reencantamento pós “desencantamento do mundo”. O autor reforça a importância da
dimensão comunitária da socialidade ao mostrar que a sociedade individualista, considerada
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por alguns como “a marca essencial de nosso tempo” está em declínio. O que se percebe com
clareza é a presença da camaradagem e a importância das redes de influência como resposta à
saturação do individualismo.
O indivíduo é apresentado pela multiplicidade do eu e pela ambiência comunitária
representada na ideia da persona, das máscaras que se adaptam e se reconfiguram de acordo
com o momento ou cena vivida, e que são possíveis apenas pelo fato de serem representadas
em conjunto. “Com efeito, enquanto a lógica individualista se apoia numa identidade separada
e fechada sobre si mesma, a pessoa (persona) só existe na relação com o outro” (MAFESOLLI,
2014, p. 17).
O neotribalismo proposto por Mafesolli seria um sujeito coletivo, indo além do
princípio da individuação, da separação. Enquanto esses últimos são dominados pela
“indiferenciação” e pelo medo de se perder frente ao coletivo, o primeiro tem a característica
de inserir novos membros, mesmo que não haja progressão entre eles. Como explica o autor,
seus participantes têm pouca ou nenhuma preocupação com questões políticas e econômicas,
sendo atraídos pelo “prazer de estar junto, entrar na intensidade do momento, entrar no gozo
deste mundo tal como ele é (p. XXIV). Em outras palavras, como define o autor, “o tribalismo
é a expressão de um enraizamento dinâmico”.
A metáfora da tribo, por sua vez, permite dar conta do processo de
desindividualização, da saturação da função que lhe é inerente, e da valorização
do papel que cada pessoa (persona) é chamada a representar dentro dela. Está
claro que, como as massas em permanente agitação, as tribos que nelas se
cristalizam tampouco são estáveis. As pessoas que compõem essas tribos
podem evoluir de uma para outra (MAFESOLLI, 2014, p. 10).
As tribos urbanas aparecem como alterativa de uma sociedade cada vez mais líquida e
individualista. É o resgate de uma sociedade empática, onde há um compartilhamento de
emoções e de afetos. Mesmo em um mundo sem limites geográficos advindo especialmente da
globalização, o tribalismo resgata a importância do pertencer, de se sentir parte de um lugar ou
de um grupo como base para a vivência em sociedade.
Essa sensação de comunidade, de coletivo, vem depois de um período de constante
separação e particularização, após a compreensão de que o indivíduo não existe sozinho,
estando conectado com outros, a uma comunidade, por meio da cultura, da comunicação, do
lazer e até pela moda. Maffesoli (2014) ressalta a importância de considerar a sincronia das
forças que atuam na vida social e que essa comunidade, mesmo não tendo as mesmas
características das comunidades e tribos da Idade Média, continua sendo um exemplo claro de
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comunidade. Trata-se, de algum modo, de um laço em que o entrecruzamento das ações, das
situações e dos afetos formam um todo. Daí a metáfora: dinâmica da tecelagem e estática do
tecido social” (MAFESOLLI, 2014, p. 147).
Essa comunidade não pode ser resumida como uma mecanicidade racional, resgatando
as características apresentadas por Ferdinand Tonnies e sua oposição binária entre comunidade
(Gemeinschaft) e sociedade (Gesellschaft). Uma das principais diferenças entre elas é a
essência de suas interações, onde as comunidades são criadas por conexões voluntárias,
enquanto as sociedades se manifestam como vontade arbitrária, de caráter deliberativo e
racional.
Ao se conectar com outras pessoas por vontade natural, as relações criadas não
dependem de propósitos exteriores, tendo valor por si mesmas e criam conexões genuínas, por
afinidade. Já as relações motivadas por fins e por necessidade seriam desenvolvidas
racionalmente (TONNIES, 1947). Para Mafesolli (2014), uma sociedade se organiza e se
estrutura por meio de encontros, reencontros e vivências de diversos grupos e cada indivíduo
pertence a alguns deles. O caráter massificado, mas com uma riqueza de diversidades dessas
sociedades é possível porque esses grupos se entrecruzam uns com os outros, adaptando e
ressignificando afetos e valores.
As representações coletivas do grupo, como explica Tonnies (1947), tem sua construção
no papel simbólico e imaginário da vontade do pertencimento e de querer fazer parte. Quando
temos uma união por vontade, esse grupo tem caráter natural e durável, de domínio interior e
exclusiva. Já a construção por necessidade, da vida em sociedade, é ressaltada como entidade
artificial e mutável, sendo baseada em interesses individuais e constituída no domínio público,
no mundo exterior.
Para criar uma comunidade, existe uma consciência da dependência mútua,
possibilitada por vivências, espaços e conexões em comum, “mobilizada pela energia liberada
por sentimentos envolvidos com afeto, amor e devoção (TONNIES, 1947, p. 39). Comunidades
são formadas por laços de sangue e afinidade, que podem ser representados por relações
verticais, como mães e filhos, e horizontais, entre irmãos e vizinhos. Suas leis principais eram
resumidas em “a) parentes, cônjuges, vizinhos e amigos se gostam reciprocamente; b) entre os
que se gostam, há consenso; c) os que se gostam, se entendem, convivem e permanecem juntos,
ordenam sua vida em comum (TÖNNIES, 1947, p. 41).
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Em resumo, comunidade é o espaço onde as pessoas permanecem unidas, apesar de
todas as circunstâncias que podem as separar, enquanto a sociedade, mesmo com suas regras
de convívio mútuo e unificações, permanecem separados como indivíduos e não como parte
de um todo.
No documento
A construção de comunidades imaginadas virtuais
(páginas 42-45)