4 FORMAÇÃO NA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIEMNTO PROFISSISONAL
5.4 COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM – ALINHAVANDO AS COSTURAS
Inspirados na perspectiva de uma formação pautada numa maior autonomia dos sujeitos, procuramos, desde o início do Pibid, romper com a perspectiva unidirecional de trabalho, em que a academia representa o modelo hegemônico de comunicação pautado na transmissão de informações e a escola de educação básica serve apenas como espaço de aplicação desses conhecimentos.
Tendo em vista esse panorama, os estudos de Fiorentini (2012) evidenciam uma crítica nas relações estabelecidas entre a Comunidade Acadêmica e a Comunidade Escolar. A primeira teria o papel de produzir conhecimentos e logicamente de formar os docentes da escola básica.
Já a comunidade profissional estaria condicionada a aplicar, mesmo utilizando de sua criatividade, a produção dos conhecimentos que foram reproduzidos na formação.
Observamos na crítica realizada pelo autor um distanciamento entre o mundo da profissão e o acadêmico, tornando-se instâncias paralelas que não dialogam a partir das demandas da instituição escolar. Se, por um lado, temos a predominância da academia, com uma perspectiva de prática tecnicista, baseada na prescrição de receitas a serem seguidas pelos docentes, por outro lado temos também a resistência da escola de educação básica em relação aos conhecimentos acadêmicos, e a hegemonia da reprodução dos saberes escolares reproduzidos a partir da tradição escolar.
No texto intitulado Narrativas de práticas de aprendizagem docente em Matemática, Fiorentini, Fernandes e Carvalho (2015) aprofundam o debate entre as relações da comunidade acadêmica e escolar a partir de três perspectivas: a endogenia, a colonização e a colaboração. As comunidades acadêmicas de caráter endógeno não têm a preocupação em estabelecer vínculo ou diálogo com as práticas escolares e são fortemente voltadas para as demandas teóricas e acadêmicas. Nessa mesma linha de pensamento, destaca-se a perspectiva colonizadora, com o objetivo de incluir ou cooptar professores da escola básica para que possam fazer parte de grupos ou projetos de pesquisa ou de extensão universitária, de modo que possam se apropriar dos conhecimentos acadêmicos e, em seguida, aplicá-los na prática escolar ou na formação de outros professores. Por fim, teríamos as comunidades colaborativas abertas a demandas e problemas dos professores escolares, mantendo uma agenda de estudos em sintonia com as demandas da escola.
Entretanto, não só a academia apresenta esse ponto de vista de trabalho quanto às comunidades escolares. As próprias escolas trazem nas suas relações essas características. Assim, a endogenia se caracteriza quando a mesma possui sua agenda de trabalho, estudo e formação continuada com base no seu projeto político e pedagógico, sem a preocupação de adotar ou assumir os conhecimentos e pesquisas oriundos da universidade. Outro aspecto relevante destacado pelo autor são as comunidades fronteiriças situando-se em um espaço de fronteira entre a universidade e a escola, e por não possuírem um território próprio, têm mais liberdade de ação e de definição de uma agenda própria de trabalho e de estudo, sem monitoramento tanto da escola quanto da universidade.
Situamos o Pibid Anos Iniciais do Ensino Fundamental na ótica da fronteira e da colaboração, pois nossa agenda de estudo e de trabalho foi construída a partir dos interesses e demandas da escola de educação básica e das necessidades formativas dos alunos. Ressaltamos que trabalhar nesse sentido não excluiu em nenhum momento a articulação com as bases
teóricas que emergiam a partir das problemáticas advindas da escola, estabelecendo, dessa maneira, a interlocução com os estudos acadêmicos da universidade.
Dentre as várias possibilidades de trabalho na articulação entre a Universidade e a Escola, apresentaremos algumas imagens que retratam esse trabalho colaborativo, como, por exemplo, uma reunião de estudo (Figura 76).
Figura 76 - Reunião de Estudo Pibid
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
A Figura 76 revela alguns dos estudos realizados em nossos encontros, que permearam desde inquietações direcionadas à questão da pesquisa na escola da educação básica até tópicos voltadas para a pauta da alfabetização nos anos iniciais do ensino fundamental. Salientamos que, antes do estudo realizado em conjunto pelo grupo, os alunos realizavam as leituras e sistematizam-nas através de resenhas, quadros conceituais, pequenas sínteses, postando-os no ambiente moodle. Essa estratégia de trabalho contribuiu muito para que todos já chegassem no grupo com suas inquietações e garantiu, também, uma maior contribuição ao debate.
Utilizamos também diferentes metodologias de trabalho, a fim de incentivar uma maior participação e sistematização dos textos trabalhados, a exemplo do circuito de ideias (Figura 77) sobre o texto de Ruy Canário A Escola tem futuro?. Na metodologia, os alunos, com base nos subtítulos dos textos, organizavam as ideias principais a partir da leitura feita antecipadamente e debatida com os colegas.
Figura 77 - Circuito de Ideias
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
Na Figura 78, expressamos o trabalho com as narrativas cinematográficas, tendo como objetivo ampliar os repertórios culturais dos nossos alunos, além de disparar debates sobre as temáticas que estávamos investigando. Concordamos com Santos (2014a) sobre a importância das narrativas cinematográficas na formação docente, pois as mesmas articulam saberes e conhecimentos fundamentais do mundo das ciências, das artes, da filosofia e dos saberes cotidianos. Dessa forma, prossegue a autora no debate, mostrando o potencial do cinema, pois este, além de nos apresentar diferentes configurações estéticas organizadas em gêneros diversificados, consegue articular três linguagens fundamentais: as imagens, os sons e os textos. Assim, toda essa mixagem de linguagem amplia a nossa visão de mundo, possibilitando-nos dialogar com outras leituras sobre a nossa realidade.
Implicada a possibilidade de novas educações, sentimo-nos à vontade para agregar o cinema a nossa pesquisa-formação na cibercultura. Assim, a partir da leitura das imagens cinematográficas, e posteriormente do debate travado após a seção de cinema, lançávamos mão de mais discussões sobre a temática em nosso blog, ampliando a rede de debates de nossos leitores, como retratado nas Figuras 78 e 79.
Figura 78 - Cine Pibid
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
Figura 79 - Debate do filme Mentes Perigosas no Blog
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
A construção de situações didáticas em parceria com os professores-supervisores, os bolsistas do Pibid e a coordenação aconteciam, também, na Escola de Educação Básica, conforme a Figura 80, a seguir. Buscamos, dessa maneira, uma formação que dialogasse com todos os espaços multirreferenciais de aprendizagem, em especial a escola parceira do Pibid.
Nossos encontros tinham como pauta principal o trabalho voltado para as necessidades dos alunos da escola de educação básica, a partir de diagnósticos realizados pelos nossos bolsistas ID, sem nunca deixar de articular essas demandas com as leituras acadêmicas, além de traçar investigações sobre a prática.
Figura 80 - Reunião de Planejamento na Escola Vilma Brito Sarmento
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
Utilizamos, ainda, o espaço de nossas reuniões para a realização de diversas oficinas didáticas, como ilustra a Figura 81, adiante. Dentre elas, destacamos a oficina sobre o ambiente moodle, com a finalidade inicial de oportunizarmos aos Bolsistas ID uma reflexão sobre as mudanças sociopolíticas e culturais mais gerais ocorridas no cenário contemporâneo, com ênfase nas tecnologias da comunicação e informação. Vale ressaltar que, além da discussão teórica sobre a temática, mostramos e experienciamos as interfaces do ambiente moodle, tais como: os fóruns, chats, diários, tarefas etc.
Figura 81 - Oficina Moodle
Fonte: Facebook Pibid Anos Iniciais.
Tendo em vista esse panorama por nós relatado, acreditamos que os educandos não se posicionam como consumidores de informações, mas sim como membros que participaram ativamente do programa, aprendendo, a cada dia, a problematizar sobre sua prática e a utilizar, de forma crítica, os resultados analisados no contexto da docência nos anos iniciais.
Sendo assim, é na participação de práticas reflexivas, interativas, colaborativas e investigativas do grupo que os professores tornam-se membros legítimos da comunidade profissional, potencializando sua formação para o desenvolvimento profissional e a melhoria da sua prática docente.
Destarte, discutiremos com mais acuidade sobre a Formação para o Desenvolvimento profissional em contextos online, a fim de compreendermos a potência das ações realizadas em Educação online durante os dois anos no Pibid. À discussão dessas temáticas é que nos dedicaremos na sexta seção.
6 FORMAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL EM CONTEXTOS ONLINE: AS NOÇÕES SUBSUNÇORAS
Nesta seção, abordarei a temática do desenvolvimento profissional na iniciação à docência, buscando entender, a partir da pesquisa-formação desenvolvida no PIBID, algumas práticas catalizadoras de DPD, compreendendo a itinerância dos Bolsistas ID em propostas formativas na educação online e em outros espaços. Assim, articulo as discussões dos autores que pesquisam sobre a temática do desenvolvimento profissional com os pressupostos da educação online, além de mencionar as experiências e reflexões dos sujeitos da pesquisa relativas à narração de suas itinerâncias formativas.
Mapeei, também, algumas práticas catalizadoras de DPD no contexto da Educação online, a partir da imersão no campo de pesquisa e da literatura disponível na área. Por fim, discutirei os principais dilemas e etnométodos dos Bolsistas ID no contexto da formação do PIBID Anos Iniciais do Ensino Fundamental, vivenciados nos diferentes ambientes de aprendizagem.
Assim, na busca de compreensões, interpretações e achados, retornei ao Ciber Ateliê Formativo e encontrei imagens, narrativas, diálogos que me possibilitaram algumas costuras sobre a temática pesquisada. Nessa perspectiva, como professora pesquisadora que se inspira na multirreferencialidade, dialoguei com a pluralidade encontrada no campo de pesquisa, fazendo aflorar algumas noções subsunçoras. Entendemos por noções subsunçoras os sentidos e significados que exteriorizam-se da minha competência de análise imersa no campo da pesquisa e as teorias estudadas.
Macedo (2006) nos esclarece que as noções subsunçoras, compreendidas também como categorias analíticas, têm como objetivo abrigar de forma sistemática as informações que emergem do campo de pesquisa, apresentando-as de forma clara. De acordo com o autor, destaca-se a importância de algumas operações cognitivas no processo de pesquisa-formação: a distinção do fenômeno em elementos significativos; o exame minucioso desses elementos; a codificação dos elementos examinados; reagrupamento dos elementos por noções subsunçoras; a sistematização textual do conjunto e a produção de uma metanálise ou de uma nova intrepretação do fenômeno em estudo.
A itinerância, para que eu pudesse construir a análise, não foi realizada a partir da percepção sobre os ambientes de aprendizagem de forma fragmentada. As noções foram emergindo a partir do olhar multirreferencial do campo da pesquisa, a partir da leitura do meu diário no blog, das narrativas construídas pelos bolsistas ID, das mediações realizadas em todo
o processo de trabalho, das reuniões na comunidade de aprendizagem, das interações no ambiente moodle, Facebook e blog, além das relações travadas com a problemática da investigação, suas questões, quadro metodológico e epistemológico e os objetivos de pesquisa, ou seja, compreender como acontece a formação para o desenvolvimento profissional na iniciação à docência quando o bolsista do Pibid vivencia práticas de educação online na sua formação.
Conforme panorâmica anterior, emergiram as seguintes noções subsunçoras na reflexão sobre a itinerância da pesquisa-formação na Educação online: narrativas de si e processos de alteridade; que se desdobraram em: narrativas das fontes pré-profissionais; narrativas da iniciação à docência; e narrativas sobre o processo de mudança. O trabalho colaborativo potencializado em rede, a saber: reflexões coletivas; processos interativos; compartilhamento de conteúdos; Dilemas e Etnométodos na Iniciação à Docência, a saber: complexidade da sala de aula X gestão da classe; diagnósticos realizados X práticas de alfabetização (Figura 82). Por meio das mesmas, temos algumas pistas para compreender o processo de ID potencializada pela Educação online.
Figura 82 - Noções Subsunçoras da Pesquisa-formação na Educação online
Fonte: Elaborada pela autora (2018)
6.1 NARRATIVAS DE SI E PROCESSOS DE ALTERIDADE
As narrativas de si e processos de alteridade foi a noção subsunçora que emergiu com mais potencialidade na análise do Ciber Ateliê Formativo, a partir da escrita das narrativas dos
Narrativas de si e processos de alteridade O trabalho colaborativo potencializado em rede Dilemas e Etnométodos na Iniciação à Docência F.D.P na Educação online: Noções Subsunçoras