1. INTRODUÇÃO
2.4 Comunidade de Prática
De acordo com Nicolini (2007) estudiosos observaram que a maneira como as pessoas trabalham difere da maneira como as organizações a descrevem em manuais e em cursos de treinamento. Uma coisa é acreditar como uma tarefa deveria ser feita e outra saber a maneira como ela é efetivamente feita. A inadequação das normas e estrutura da empresa decorre de uma abordagem não-situada, tornando o trabalho difícil e perverso, exigindo maior habilidade de improviso do trabalhador. Reforça-se assim a idéia de que os indivíduos não aprendem apenas pela relação ensino-aprendizagem, mas também por conta de suas experiências. No contexto organizacional a aprendizagem pode ser potencializada pelo contato com a prática através das relações sociais e pelos conflitos decorrentes do aperfeiçoamento destas práticas.
O termo prática deriva do latim “práxis” (maneira de proceder), do grego “praktikós”, de prattein (agir, realizar, fazer), no trabalho o termo indica produzir, fazer, criar alguma coisa. (ARANHA, 2006). Prática e definida por Paulo Freire como “[...] uma combinação libertadora de ação e reflexão realizada pelos homens, sobre o mundo, para transformá-lo.” (SCHOMMER, 2005 apud NICOLINI, 2007, p. 90). Por sua vez Brown e Duguid (2001, p. 86) definem prática “[...] como a atividade envolvida para conseguir que um trabalho seja feito.”
De acordo com Miller (2008) para Polanyi e seus adeptos, práticas expressam a racionalidade da organização, seu conhecimento de uma forma que não pode ser totalmente capturada pelas representações verbais ou simbólicas, vão além do que está codificado dentro das organizações. A prática realizada em comunidades de prática constrói conhecimento de modo informal é reconhecida por diversos autores:
Conhecimento Organizacional como um fenômeno social e coletivo pode ser construído da noção de prática e da idéia de comunidade de prática definida por vários autores como um agregado informal que é definido não só pelos seus membros, mas também pela maneira como eles executam o seu trabalho e interpretam os acontecimentos. (BROWN & DUGUID, 1991; LAVE & WENGER, 1991; WENGER, 1998; ZUCCHERMAGLIO, 1996 apud GHERARDI e NICOLINI, 2000, p 10, tradução livre)
Nicolini (2007) afirma que definir comunidade não é tarefa simples. A palavra comunidade origina-se das palavras Kom (todos) e moin (troca, intercâmbio), significando
compartilhado por todos. Assim, numa perspectiva em que utiliza o termo comunidade de
prática como uma unidade, segundo Nicolini (2007), parece correto interpretar a prática como fonte de coerência de uma comunidade. Destaca que as comunidades de prática não são definidas pela profissão de seus integrantes, em alguns casos há uma coincidência entre os cargos dos membros de uma comunidade de prática, mas principalmente na área da gestão pública, isto normalmente não acontece, a regra é que os gestores públicos trabalhem em lugares que não haja pares, se associando a comunidades de práticas de indivíduos de carreiras diferentes, mas que estejam engajados mutuamente num empreendimento conjunto.
A partir de uma pesquisa etnográfica efetuada ao longo de 14 meses entre 1994 e 1995 num grande conglomerado de indústrias químicas situado em São Paulo, Gropp e Tavares (2007) propuseram-se definir „comunidades de prática‟. As pesquisadoras afirmam que estas são estruturas de formação espontânea responsáveis pela construção do conhecimento aplicado na prática do dia-a-dia. As interpretações e significados assimilados pelos membros de uma comunidade de prática são transformados no conhecimento estratégico e abrem portas para criatividade e inovação. Numa organização grande e complexa como a que pesquisavam estabeleceram a priori que cada fábrica abrigaria no mínimo uma comunidade de prática.
Como elementos de identificação destas comunidades, as pesquisadoras tomaram uma atividade recorrente comum que compartilhava pelo menos alguns dos elementos tais como: espaço físico; divisão de tempo; corpo (formas de cumprimento, vestes, higiene, cheiros); conhecimento especializado (originado de um fazer compartilhado) e vocabulário próprio; situação social e identidade (construção de um “nós” que distingue aquele grupo de outros). Outros elementos como:
[...] atividade comum, seus modos de funcionamento e o repertório de recursos comuns desenvolvidos ao longo do tempo [...], e ainda [...] a maneira como se organiza em torno de uma área específica de conhecimento ou atividade, que desenvolve um senso de identidade entre seus membros”. (GROPP e TAVARES, 2007, p. 52, 54)
Gherardi e Nicolini (2000) dizem que nas comunidades de prática, as relações são criadas em torno de atividades e estas se concretizam através da experiência e das relações sociais daqueles que as executam, de forma que o conhecimento e as habilidades tornam-se parte da identidade individual e pode ser encontrado nas colocações feitas na comunidade.
Para Lave e Wenger (1991) a aquisição de conhecimento via relação do novo com os antigos é denominada de Participação Periférica Legítima (PPL), ou seja, inicialmente o aprendiz participa de forma periférica, a legitimidade do processo é garantida com o comprometimento, por parte do mestre e aprendiz, com a aprendizagem. “[...] A aprendizagem periférica legítima coloca a aprendizagem como o movimento do aprendiz ao participar da prática social de uma comunidade, de forma crescente, não isolada no contexto, não separada de si ou do mundo.” “[...] Aprender em comunidade, dentro de uma prática, atribuindo significado aos saberes.” (NICOLINI, 2007, p. 87). Assim, um trabalhador novato é impelido a aprender quando participa de uma comunidade com outros profissionais experientes.
Segundo Nonaka e Takeuchi (2008) por meio da experiência o indivíduo adquire conhecimento tácito, e através do diálogo e da reflexão coletiva o conhecimento é externalizado. Os indivíduos interagem o conhecimento tácito, aprendem fazendo através da experiência e assim podem explicitá-lo e criar conhecimento organizacional numa espiral de conhecimento coletivamente alcançado representada na figura 4, a seguir:
Figura 4: Espiral do conhecimento
Segundo Tsoukas (2002) a partilha de conhecimento e experiências pode ocorrer tanto por mecanismos informais como os usados espontaneamente em comunidades de práticas, como por mecanismos formais como reuniões, intranets, documentos. O autor destaca que os estudos de Wenger (1998) concluem que o importante é saber como as experiências são processadas e partilhadas.
“O trabalho de Wenger nos faz refletir que embora o processo seja importante para a coesão total de uma organização, no final é a prática das pessoas que trabalham nela que trazem o processo para a vida, e ainda, a vida para o processo [...]” (BROWN e DUGUID, 2001, p. 86). Brown e Duguid (2001) citam o trabalho etnográfico de Julian Orr14 junto aos representantes de manutenção de copiadoras, para ajudar a entender o que falta na perspectiva centrada no processo estruturado. Conforme os autores, o estudo de Julian Orr revelou que apesar de existir um processo a ser seguido, ou seja, um relatório de códigos de erros que indicasse o problema das máquinas, os representantes faziam uso de práticas de colaboração, narração e improvisação. Através de seus próprios vínculos laterais, apoiando-se em seus companheiros na própria comunidade deles, desenvolveram meios de colaboração, como „banco‟ coletivo de peças e „banco‟ coletivo de conhecimento. Nos horários de café, almoço, narrando suas histórias os „reps‟ trocavam dificuldades e experiências. O estudo revelou que mesmo recebendo procedimentos de rotinas e informações, eles dependiam bastante de improvisações para fechar a lacunas que situavam-se entre a realidade e o processo.
No relato de Orr, a conversa e o trabalho, e a comunicação e a prática, são inseparáveis. A conversa deixou o trabalho inteligível, e o trabalho fez o mesmo com a conversa. Como parte deste processo comum de trabalho-e-conversa, os atos de criar, aprender, compartilhar e utilizar o conhecimento parecem ser quase indivisíveis. (BROWN e DUGUID, 2001, p. 111)
A literatura parece apontar para a importância da interação e da troca de experiência em comunidades de prática. Zanelli (1998) destaca a importância do desenvolvimento de equipes bem entrosadas no ambiente organizacional a fim de proporcionar a partilha de conhecimentos e habilidades e o estabelecimento de relações de confiança. Para Brown e Duguid (2001) o aprendizado é um processo notavelmente social.
Seguindo a perspectiva social, ou seja, de aprendizagem organizacional baseada no coletivo, na experiência e vivência, na interação entre os indivíduos, entre os gestores de uma instituição pública e seus pares e as contribuições para o desenvolvimento de competências gerencias é que se busca desenvolver este estudo.
Buscando entender a prática gerencial, a seguir, apresentan-se os argumentos de Mintzberg (2010) acerca da gestão e seus contextos, e ainda as propostas de Frost (2003) no que tange as formas de gestão que provocam dor e impedem o aprendizado assim como as saídas que os gestores podem utilizar para minimizar as dores e propiciar o crescimento organizacional.
2.5 A prática Gerencial: A busca da eficácia do gerente que se torna repositório do