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Comunidade e mobilizações: a prevenção da violência em pauta?

Capítulo I Calabar: cenário de resistências e mobilizações

1.3 Comunidade e mobilizações: a prevenção da violência em pauta?

Este momento, tal como anunciado na abertura do capítulo, busca situar os processos de formação das associações de moradores do Calabar, de modo a evidenciar o papel de tais mobilizações em face do exposto na seção anterior, destacando, em especial, o lugar destes atores coletivos, no que diz respeito à prevenção da violência desde um contexto comunitário e em interação com os serviços e instituições públicas afins. Dito de outro modo, descrevo aqui os processos associativos no Calabar em sua dinâmica, isto é, em suas entradas e saídas de atores, nas ações e nos períodos de aquiescência, burburinhos e silêncios diante das demandas e problemáticas sentidas pela comunidade. Neste último, e por isto a pergunta do título, aqui já procurei mapear o espaço que o agir preventivo sobre as diversas formas de violência e violações ocupam nas pautas das principais associações do bairro.

Antes, todavia, é imprescindível delimitar o que estaremos entendendo aqui por “comunidade”, haja vista a centralidade que esta noção ocupa nos discursos e no agir dos atores, sendo, no limite e ao mesmo tempo, a razão de ser e a condição para muitas das ações em relevo neste trabalho. Assim, ao longo das muitas e longas trocas estabelecidas em campo, chamou atenção o fato de todos os nossos interlocutores recorrerem à ideia de “comunidade”, em intensidades variadas, porém sempre presente em todas as falas concedidas. Diversos também foram os sentidos a ela atribuídos, tal como elenco abaixo alguns destaques:

Eu me sinto mais segura aqui dentro hoje, na comunidade, eu me sinto mais segura dentro do Calabar. (Dora, 2014)

Eu estava pensando assim: imagine estes caras querer não deixar eu ir para um lado que é da minha comunidade onde eu nasci somente porque eu moro lá em cima. (Benedito, 2016)

E a gente sente também o olhar da gente que mora em comunidade quando a gente vai pra algum lugar. (Flora, 2014)

Porque para eles, comunidade é isso: é o lugar onde vende drogas, onde vende estas coisas. (Flora, 2016)

Inclusive, a pessoa era negra e tinha um discurso muito branco. Muito branco, sabe, assim no sentido daqueles brancos que deixar os negros lá nas favelas, nas comunidades, e que não querem que ascendam na vida. (Benedito, 2016)

Aí eu vim pra comunidade, e disse: “é, o que eu posso dar de parcela de contribuição pra comunidade é montar uma companhia de dança que possa representar a comunidade em diversos lugares nestes espaços culturais ou não, e que seja pagando ou não, a gente vai levar a informação. (Luan, 2016)

É difícil hoje manter a participação da comunidade na gestão da biblioteca. (Benedito, 2016)

Eu sinto falta de mais pessoas da comunidade envolvida, sabe?! (Glória, 2014)

Estas falas exibem a diversidade de sentidos e também de situações nas quais a ideia de "comunidade" é acionada pelos atores. Assim, podemos encontrar, por exemplo, na fala de Dora, desde a “comunidade” como o espaço da “segurança”, ou próximo daquela espécie de “círculo aconchegante”, a qual se referiu Göran Rosenberg (2000)23,

23Este autor é citado por Zygmunt Bauman em seu conhecido livro – Comunidade – quando busca definir tal noção, assim colocando: “muitos anos depois que Tönnies identificou o “entendimento comum” que “fluía naturalmente” como a característica que separa a comunidade de um mundo de

ou, ambiguamente, termos processos de segregação interna, ainda que estejamos falando de uma mesma "comunidade", tal como pontua Benedito na sequência.

Também podemos ter a mesma palavra indicando processos de segregação externa, aqueles flagrantes nas dinâmicas centro-periferia, como discuti na subseção anterior. E aqui as duas falas de Flora, em momentos distintos da nossa interação, bem como o adendo de Benedito na sequência podem nos confirmar nesta direção. Neste último, destaco para o componente racial incidente na exclusão mencionada pelo ator.

Em outro giro, os três derradeiros relatos podem nos sugerir “comunidade” enquanto “pertença” e “retorno”, quando Luan nos fala em “contribuir” e em “representa- la”; também como instância de participação política, no sentido da reivindicação de direitos da coletividade, tal como assinalado por Glória, ou na expectativa de maior adesão e partilha na condução de projetos em vigência no bairro – aí apontando, mais uma vez, as dificuldades e desafios da manutenção da coesão de grupos e ações coletivas. A estes dois últimos sentidos recorro mais à frente, dada a sua relação com os processos associativos aqui em relevo.

Por ora, olhemos desde um ponto de vista teórico para a “comunidade”. Esta remete-nos às noções mais evasivas, controversas ou, até mesmo, utópicas, como pensam alguns, conforme buscarei evidenciar. Alguns pesquisadores contemporâneos apontam que, desde um olhar sociológico, um dos pensadores pioneiros disto que conhecemos por “comunidade” – gemeinschaft – foi Ferdinand Tönnies (1855 – 1936), quem, como Émile Durkheim, Max Weber e George Simmel, “pertenceu a uma geração de acadêmicos que chegaram a ser os pais da sociologia moderna” (SCHLUCHTER, 2011; p. 43). De acordo com este autor, “quem reflete sobre o conceito de comunidade e sobre sua importância científica é remetido atualmente aos estudos de Tönnies”, em Comunidade e Sociedade (1887).

Nesta obra, fica claro que Tönnies constrói um entendimento acerca de “comunidade” de modo opositivo, isto é, enquanto uma espécie de contraponto à ideia de “sociedade”. Ou, como bem colocou Brancaleone (2008; p. 98), quando revisitou aquele autor: encontramos aí um “modelo de caracterização, análise e descrição dos arranjos de sociabilidade consolidado como construto conceitual norteador do jargão sociológico

amargos desentendimentos, violenta competição, trocas e conchavos, Göran Rosenberg, o sagaz estudioso sueco, cunhou o conceito do “círculo aconchegante” para captar o mesmo tipo de imersão ingênua na união humana – outrora, quem sabe, uma condição humana comum, mas hoje somente possível, e cada vez mais, em sonhos”. (BAUMAN, 2003: 15 - 6)

através da oposição binária comunidade-sociedade”. Assim, é nesta lógica que aquele primeiro autor desenvolve a sua tese:

La teoria de la sociedad construye un círculo de hombres que, como en la comunidade, conviven pacificamente, pero no están esencialmente unidos sino esencialmente separados, y mientras en la comunidad permanecen unidos a pesar de todas las separaciones, en la sociedad permanecen separados a pesar de todas las uniones. Por consiguiente, no tienen lugar en ella actividades que puedan deducirse a priori y de modo necesario de una unidad existente, y que, en consecuencia, también en cuanto se operan por medio del individuo, expresen en él la voluntad y espíritu de esta unidad, o sea que tanto se llevan a cabo para él mismo como para los que con él están unidos. Todo lo contrario: en ella cada cual está para sí solo y en estado de tensión contra todos los demás. (TÖNNIES; 1947, p. 65)

Desta breve passagem é possível depreender que, para a reflexão sobre “comunidade”, este autor mobiliza construtos que despontam de debates filosóficos e mesmo sociológicos de outrora – como a noção de “vontade, espírito e de unidade” – inclusive, com inspirações aristotélicas e em Thomas Hobbes e Karl Marx. Por ora, e longe de pretender tocar em profundidades de tal construção, é suficiente extrair certos atributos que conformam este conceber “comunidade”, tais como: “hombres que se sienten y saben como perteneciéndose unos a otros, fundados en la proximidad natural de sus espíritus” (TÖNNIES; 1947, p. 45).

A propósito, foram a partir destes pressupostos que Zygmunt Bauman, mais recentemente, vai nos reafirmar a comunidade enquanto o “entendimento comum”: ou seja, “o tipo de entendimento em que a comunidade se baseia precede todos os acordos e desacordos”. E complementa ele: “tal entendimento não é uma linha de chegada, mas o

ponto de partida de toda a união” (BAUMAN, 2003; p. 15 – grifos do autor).

Já aqui, e é importante destacar, seja em Tönnies ou em Bauman, encontro alguns aspectos consoantes com a abordagem teórica acolhida neste estudo, tais como a proposição de que “comunidade” não se apresenta necessariamente de modo pronto, dado e consolidado, como bem expresso por aquele primeiro: sociedade e comunidade “não têm lugar nas atividades que podem deduzir-se a priori e de modo necessário de uma unidade existente” (TÖNNIES; 1947, p. 65 – minha tradução).Mas sim algo como um movimento em direção à coesão; ou como expectativa de “unidade”; ou como “ponto de partida” para a união, o que incide sobre as ações voltadas à coletividade, tal como nos sinaliza um dos atores:

A gente trabalha com um dos pilares de metodologia que a gente atua é o “enraizamento comunitário”. É uma metodologia que tem cinco eixos, e esse é um dos eixos; e esse “enraizamento comunitário” é envolver a comunidade, de forma geral, nas atividades que a gente elabora, né? Tanto na gestão como em opinar, criticar. Então, a gente tem de criar mecanismos em que a comunidade participe. (Benedito, 2016)

Por outro lado, as mesmas noções propostas por aqueles dois autores podem se afastar bastante se, de repente, admitem a comunidade como “homogêneos”, e o campo também apontou-me isto: lá podemos tanto perceber atores imbuídos daquela “sensação” do pertencimento ou do “entendimento comum” que os levam a agir, muitas vezes, em nome de um coletivo do qual se sentem parte, tal como previsto naquela noção de “comunidade”; quanto podemos encontrar, no mesmo espaço, atores absolutamente distanciados destas sensações e deste modo de agir. Ou seja, não há necessariamente consensos e homogêneos, mas controvérsias e movimentos, tal como pontuei acima, e podemos notar também na fala de uma de nossas atrizes quando interrogada sobre a qualidade de vida no bairro, desde o seu olhar:

Olhe, hoje inclusive vai estar tendo um lançamento de umas obras que serão feitas dentro da comunidade pela Conder, pelo Estado, e que aí eu acho que tende a melhorar. Está melhorando sim; está melhorando sim! Agora, esse melhorar é uma construção de todos, e eu sinto falta de

mais pessoas da comunidade envolvida, sabe?! De estar discutindo

com outros órgãos, com o próprio Estado. Eu acho que o que facilita, o que traz pra gente também a qualidade de vida é a busca que a gente tem, as coisas que a gente tem. A gente também tem que buscar, né?

Tem que participar e eu sempre sinto falta dessa participação de jovens, de mulheres. Eu não acredito que seja só aqui. Os movimentos

sociais de comunidades e associações é uma coisa que as pessoas estão muito, muito imediatistas. (Glória, 2014 – grifos meus)

Neste relato é possível observar a recorrência àquela noção calcada na expectativa da “união” e do “entendimento comum. Todavia é notória também a ideia de processo e de movimento expressa na necessidade de “participação” permanente dos demais moradores, então, membros de uma “comunidade”. No caso, a participação atualmente reivindicada se coloca em termos da plena efetivação daqueles direitos sociais sinalizados na subseção anterior, tais como moradia, saneamento básico, educação, etc. Entretanto, historicamente, fora esta mesma disposição participativa vista no bairro, como pontuado antes, que esteve na base da conformação das associações.

Já aqui, todavia, tais aspectos se desdobram em possíveis controvérsias, tal como previsto desde a perspectiva teórica adotada. A primeira delas, e a que me parece mais evidente, está no contraste entre aquele histórico associativo de mobilizações o qual, inclusive, fora fundamental para manter a comunidade no território e uma mais recente aquiescência desta postura, tal como a fala acima sinalizou e as observações do campo reforçaram nesta direção. Disto também se torna controversa a imagem vinculada ao Calabar enquanto uma “comunidade mobilizada”, uma vez que, ao que tudo indica, podemos falar mais seguramente em movimentos oscilantes de associações e mobilizações do que em um continuum fortemente consolidado.

Outra controvérsia, talvez, menos aparente do que aquelas estaria nos “dramas sociais” (Holston, 2013) enfrentados pelas comunidades residentes das chamadas “periferias urbanas” do século XX para cá. E aqui explico: a constante necessidade de mobilizações é diretamente proporcional à negação de direitos previstos, de modo a criar uma espécie de cultura de barganhas ou de “moeda de trocas”, isto é, a provisão de direitos essenciais, e já sem mais espaço para a contestação de externos, como o da propriedade, estaria na estrita dependência daquele atributo – o da postura associativa e reivindicatória – sendo então, como podemos ver, mais ou menos forte ao longo do tempo ou, ao que parece, em função de circunstancias mais drásticas e extremas, como a ameaça de expropriação e deslocamento da comunidade vista na década de 1970.

Isto posto, retomo um pouco mais a noção de comunidade porque também contribui à análise daquelas controvérsias. Para tanto, as reflexões de Frúgoli Jr. (2003: 108) podem ser bastante interessantes quando este autor parte da afirmação de que o “conceito de comunidade envolve múltiplos sentidos e as críticas quanto ao seu uso em pesquisa já são de longa data”, afirmando ainda que, pelo menos desde o século XIX, e no contexto da “emergência da sociedade moderna, urbana e industrial, o tema da comunidade constitui uma espécie de contraponto societário à modernização”.

[...] Já na reflexão sociológica dessa fase, vários autores analisavam a comunidade sob uma tipologia social marcada em geral por grupos de pequena escala, que estabeleciam relações solidárias, coesas, pessoais, espontâneas, cotidianas e permanentes, propícias à prática da ‘vida em comum’ e do associativismo” (FRÚGOLI JR., 2003; p. 108).

Em contraposição a esta configuração comunitária, e o que vão chamar de uma espécie de “narrativa da perda”, estariam então as percepções de uma conformação de

mundo moderno pautado em “relações formais e de interesse, em acordos contratuais, desde uma lógica de mercado, de competição individual, em multidões urbanas e anônimas” (FRÚGOLI JR., 2003: 108). Ainda este autor constata que a noção de “comunidade se revestiu de aspectos idealizados de um passado de certa forma inexistente”, todavia “persistente como uma espécie de referência simbólica – desejada ou imaginada”. E em assim sendo, teríamos:

[...] A tensão entre comunidade – como reconstrução simbólica de um suposto passado perdido – e sociedade moderna tem se mantido recorrente até o presente sob distintas sínteses e ressignificações, tanto no campo das representações sociais, como nas formas concretas com que certos grupos sociais buscam se situar e se organizar dentro da cidade. (FRÚGOLI JR., 2003; p. 108).

Brancaleone (2008: 102 – grifos meus) também comunga com estas constatações ao afirmar que, em que pesem as transformações vistas na modernidade, podemos compreender que “padrões de sociabilidade comunitária” continuam a existir na sociedade urbana e capitalista, marginal e residualmente, na maioria dos casos, segundo a perspectiva de Tönnies, e possibilitando a articulação até mesmo de outras sociabilidades “híbridas”. E é justo a partir deste hibridismo que se torna notória a existência de “padrões de sociabilidade comunitária” no Calabar – como em outros tantos bairros das cidades brasileiras – a despeito da vigência de padrões societários concorrentes no mesmo espaço e, especialmente, em função das pressões externas, a exemplo das nebulosas questões fundiárias antes discutidas, bem como as ranhuras do seu entorno imediato, a tal vizinhança elitizada e não rara incomodada com a sua existência e permanência ali.

Sobre este hibridismo, os estudos etnográficos desenvolvidos por Frúgoli Jr. (2003: 108) o ratificam através da observação da convivência entre os padrões de sociabilidade comunitária e societários em um dado espaço; e também quando afirma que a noção de comunidade pode ser mobilizada enquanto estratégia discursiva articulada a determinadas práticas concretas, e vinculadas, muitas das vezes, a objetivos políticos difusos ou bem definidos. Ademais, antes que tal noção seja atrelada apenas a contextos de maior desvantagem socioeconômica, no caso, como “estratégia discursiva, articulada” e reivindicatória, aquele autor também nos sinaliza a sua amplitude a despeito de um viés de classe, assim posta:

Isso se dá por razões distintas e muitas vezes envolve grupos marginalizados e de menor poder aquisitivo – como, por exemplo, migrantes que tentam recriar comunidades marcadas pela origem comum, ou favelados que tentam se organizar comunitariamente, na luta pela obtenção de equipamentos urbanos coletivos (cf. Durham, 1973; Kowarick, 2000; Banck, 1998). Mas isso também tem norteado, com dinâmicas peculiares e distintas, a busca, por parte de grupos de maior poder aquisitivo, de espécies de comunidades em torno de moradias nas “bordas” das cidades modernas, ou mesmo em espaços seletivos e auto- segregados no interior da própria cidade. (FRÚGOLI JR.; 2003: 108)

No caso do Calabar, como visto, temos movimentos vívidos de atores buscando afirmar e reafirmar a sua “comunidade”, muitas vezes, como atos políticos que constituíram a resistência àquelas pressões ou seguiram à guisa de direitos sociais positivados. Neste sentido, e de acordo com Santos et al. (2010: 36), foi a partir da década de 1970 que os processos associativos se consolidaram progressivamente, e cujo protagonismo foi vital à permanência dos moradores neste espaço: desde aquela época, o lema era “a essência do ser é existir, a nossa é persistir no Calabar”, de modo a contar com a atuação de “homens, mulheres, jovens e adultos” que permaneceram em luta, especialmente, contra a especulação imobiliária para “não sumir do mapa”, tal como assinalaram aqueles autores.

Giudice e Souza (2000: 89) também confirmaram tais movimentos, afirmando que “a expansão do Calabar se deu através de muita luta de seus moradores, primeiro com o chamado JUC (Jovens Unidos do Calabar), e depois com a Associação de Moradores, que pode ser considerada originária daquele grupo”. Nesta etnografia, os atores confirmaram a importância e o protagonismo conferidos àquelas associações mais tradicionais, e também as mais recentes, todavia enfatizando o rol de dificuldades que incidem sobre as mesmas, incluindo aí, as transitoriedades acima sinalizadas.

Tem o grupo de mulheres, né? O grupo de mulheres, dos jovens, né? Tem uns jovens que são o pessoal da biblioteca. É, o promotor legal popular. É basicamente isso. Eu diria, na Associação, quando eu estava, eram três pessoas. Três pessoas pra dar conta disso tudo, né? E a gente estava sempre [interrompe]. A dificuldade era pra trazer pessoas, né? Mais vozes, mais pessoas para fortalecer até o que a gente estava falando. Às vezes, a gente estava falando por uma rua, e não tinha ninguém da rua pra dizer o problema daquela rua. Então é mais, digamos assim: do grupo de mulheres, tem duas mulheres que sobressaem, do grupo de jovens, tem dois jovens, da Associação tem mais dois. Então a

gente tem um grupo de pessoas que está sempre em movimento, sempre pensando. [...] Cada um a gente vai tentando envolver e; pra que tenha um grupo que represente. Um grupo grande que represente as reinvindicações da comunidade, entendeu? Mas é assim: um trabalho bem árduo da gente conseguir juntar porque, às vezes, você não consegue. As agendas não se batem. Então são trabalhos voluntários. Ninguém aqui [interrompe]. Não tem uma ONG que as pessoas recebam pra isso, se organize pra isso. Todo mundo é voluntário. É um tempinho do seu trabalho que você deixa pra poder ir em uma reunião; aí o outro também deixa seu tempinho do seu. Um trabalha de manhã, outro trabalha de tarde, não pega folga. A gente vai, vai muito assim no improviso também, né?! Tenta se organizar, mas dificulta a gente não ter uma instituição, uma organização que esteja essas várias representantes, e que essas pessoas, como outras ONGs que atuam aqui, recebam por isso, entendeu? Como ONGs que vem aqui, é, aplicam os cursos, recebem o financiamento do governo pra fazer as políticas públicas. A gente não tem aqui dentro uma ONG assim, que tenha um coordenador da comunidade. A gente pensa, a gente mostra, a gente sabe fazer levantamento, faz tudo, mas a gente não recebe por isso. É tudo voluntário, então acho que isso também, esse voluntariado não se sustenta não, porque as pessoas precisam de sobreviver, precisam de dinheiro para garantir, né? É muito assim, tem essa questão do: ‘ah, você vai amanhã?’; ‘ah, amanhã eu não posso porque [interrompe]’; ‘hoje eu estou com a folga da vacina, então eu posso’. Então, às vezes, nem tem pessoas participando de tudo que é necessário participar por falta de gente porque as pessoas estão, a maioria, trabalhando. (Glória, 2014)

Esta fala expressa claramente os desafios postos às associações comunitárias, a começar pelo próprio movimento da agregação, isto é, do “associar-se” que, como nos diz Latour (2012: 50), está longe de algo que se assenta em solidez, certeza e estabilidade, mas sim em “um processo sem fim constituído por laços incertos, frágeis, controvertidos e mutáveis”. Contrastado isto com o que coloquei acima em termos de uma “cultura de barganhas” como pré-requisito para a efetivação de direitos, podemos flagrar os grandes

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