CAPÍTULO II AS TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS E O
3.1 Comunidade, Lugar e Paisagem: Conceitos Importantes
Uma discussão sobre a comunidade nos remete a uma outra que envolve, diretamente, os conceitos chave da Geografia que, neste trabalho, ganham destaque: lugar e paisagem. Quando pensamos em comunidade, logo imaginamos um aglomerado de pessoas, que vivem em um determinado lugar, com sua paisagem parcialmente ou totalmente modificada, que expressa a história de vida e todo o conjunto de práticas que, através do tempo, foram paulatinamente ali estabelecidas.
Podemos dizer, então, que a comunidade surge a partir de relações sociais estabelecidas em uma dimensão escalar do espaço, onde o trabalho humano se instaurou, imprimindo na paisagem a sua marca, que desperta sentimentos de pertencimentos, criando identidades. Neste sentido o lugar é, segundo Carlos,
[...] produto das relações humanas, entre homens e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade, posto que é ai que o homem se reconhece porque é o lugar da vida. (CARLOS, 1996, p. 29).
A ênfase do conceito de lugar, proposto pela autora, está nas relações que o homem estabelece entre si e com a natureza, construindo nessa relação uma gama de conteúdo simbólico, assimilado por aqueles que vivem em um determinado lugar, o que contribui para criação de identidades. Carlos (1996, p. 20) complementa o conceito quando diz que “o lugar é a porção do espaço apropriável para a vida”.
Há que se considerar o tempo como um aspecto importante na construção desse lugar apropriável para vida, do qual fala Carlos (1996). Todo o conteúdo simbólico, que é construído durante esse processo de apropriação, é fruto da relação que o homem estabelece com os seus e com o meio, através do tempo. Nesse processo de construção da vida, o homem cria laços fortes com o lugar, onde cada símbolo, cada monumento por ele construído passa a ter um significado especial. Tuan (1980, p.107) chama de topofilia “todos os laços afetivos dos seres humanos com o ambiente material, despertando sentimentos que temos para com um lugar, por ser o lar e o lócus de reminiscências e meio de ganhar a vida”. Neste caso, entendemos o lugar como sendo o produto das relações humanas, que pela cotidianidade suscita, nos seres humanos, laços afetivos alimentados, sobretudo, pelo tempo e pela representatividade do sistema simbólico, criado ou herdado, contribuindo assim para a sua reprodução.
A paisagem, quando apreendida pelo trabalho humano, é o resultado das relações que o homem estabelece com o meio. Neste sentido, para Berque (1984 apud CLAVAL, p. 92), “a paisagem é uma das matrizes da cultura, o lugar onde as atividades humanas gravam a sua marca”. A paisagem modificada torna-se, por assim dizer, paisagem cultural e passa a compor o patrimônio cultural do lugar, considerado responsável por despertar no homem o sentimento
topofílico ao qual se refere Tuan (1980, p. 107).
Ainda sobre o conceito de lugar, Santos (1997 apud SUERTEGARAY, 2001) diz que o “lugar constitui a dimensão da existência que se manifesta através de um cotidiano
compartido entre as mais diversas pessoas, firmas, instituições - cooperação e conflito são a base da vida em comum”. A existência de um cotidiano compartilhado pelos homens na produção do lugar, e a afirmação da presença dos conflitos, no convívio social, acrescenta algo novo na forma de pensar o lugar. Até este momento, ele tem sido apontado como pacífico, amistoso, marcado por uma vida comum baseada na solidariedade, mas ignorando a existência dos conflitos. O cotidiano, a vida comum, a solidariedade e os conflitos são situações que se apresentam na produção do lugar e que, ao mesmo tempo, nos dá indicações do que seja comunidade, e, conseqüentemente, parâmetros para analisar a utilização do termo ao lugar estudado.
Se pensarmos no Fundão, que foi descrito nos dois primeiros capítulos, não hesitaremos em afirmar que ele é uma comunidade. Um lugar que foi sendo ocupado por uma população que compartilhava de uma mesma crença religiosa, vivendo, inicialmente, basicamente do cultivo da terra e da criação do gado bovino, e que mais tarde, conviveu com a instalação de outros processos produtivos. Enfim, compartilhavam de interesses e condições de vida semelhantes, caracterizando, assim, a existência de relações sociais marcadas pela solidariedade, ajuda mútua, mas também por conflitos. Seria aquele lugar “cálido, confortável e aconchegante” do qual fala Bauman (2003, p. 7). Podemos dizer que eles compartilhavam de uma vida cotidiana comum, e estabeleciam assim, uma comunidade.
Neste sentido, analisando o Fundão, sobretudo, até a década de 1950, tê-lo-emos, segundo Fichter (1973), como sendo uma comunidade
[...] essencialmente “ligada ao solo”, no sentido de que os indivíduos vivem permanentemente numa dada área, têm consciência de pertencer tanto ao grupo como ao lugar e funcionam conjuntamente nos principais assuntos da vida. A comunidade é considerada sempre em relação ao meio físico. A comunidade é, essencialmente, uma agrupação ou uma rede de pequenos grupos, porém, em sua totalidade, pode-se distinguí-la em muitos aspectos com um grande grupo social. Os membros da comunidade têm consciência das necessidades dos indivíduos dentro e fora de seu imediato e tendem a cooperar estreitamente (FICHTER, 1973, p. 154).
Na citação é possível fazer uma relação entre lugar e comunidade. O lugar é uma dimensão do espaço apropriada por determinado grupo social. A comunidade só será constituída se esse grupo social, além de compartilhar de um lugar comum, compartilhar de outras práticas e interesses comuns, seja no campo religioso ou do trabalho. Neste sentido, um complementa o outro. A constituição de uma comunidade não nega a existência de conflitos; os conflitos existem, mas, na sua essência, as relações sociais estabelecidas em seu seio são marcadas pela solidariedade.
Neste tipo de comunidade, descrita por Fichter (1973), o grau de integração da comunidade tende a ser elevado, já que as distâncias são reduzidas e os contatos entre eles constantes. Isso facilita a participação e o conhecimento das necessidades uns dos outros, aumentando, assim, a cooperação entre eles.
A comunidade rural do Fundão, após a década de 1950, com a intensificação da urbanização, passou por um processo de saída de população que provocou uma mudança no ritmo da comunidade. Com esse processo de “esvaziamento populacional”, a vida cotidiana, as práticas produtivas e religiosas, que faziam do Fundão uma comunidade, na acepção total da palavra, começa a se restringir, praticamente, apenas ao aspecto religioso e aos laços de pertencimentos que foram construídos com o lugar, através do tempo. Ainda que muitas propriedades não tenham sido negociadas, elas começaram a funcionar apenas como segunda residência. Isso é dito porque os vínculos das pessoas com o lugar, a cada dia, foram-se reduzindo, basicamente, aos eventos religiosos e às visitas esporádicas daqueles que ainda mantinham suas propriedades no lugar.
Com o declínio das atividades produtivas, cai a movimentação de pessoas na comunidade. Algumas sedes de fazendas e olarias foram abandonadas. A comunidade, que era fixa, passa a se encontrar ciclicamente. Mas podemos falar da existência de uma comunidade, mesmo que seja cíclica? A este respeito, Fichter diz que:
[...] aplica-se ainda o termo “comunidade” às “velhas” vizinhanças ou bairros da cidade nos quais os habitantes têm ainda análoga ascendência étnica e nível econômico e de instrução similar, e viveram juntos durante longo tempo”. (FICHTER, 1973, p. 155).
Apesar de o autor fazer referência às comunidades presentes no urbano, é possível interpretá-la para a realidade estudada, partindo do ponto de vista de que “viveram juntos”, na mesma comunidade, “durante longo tempo”. Aqui, é interessante pensar a comunidade, pois, no caso do Fundão, mesmo as pessoas não vivendo mais lá, os mais antigos se sentem membros da comunidade, ainda que, dificilmente, participem dos eventos religiosos realizados. Portanto, o termo comunidade ainda se aplica ao Fundão, não só pelo fato de continuar realizando as celebrações e festas religiosas, mas, também, por despertar o sentimento de pertencimento nas pessoas, onde cada fato histórico, cada construção arquitetônica, que ainda se mantém, e a própria paisagem natural fazem com que as pessoas que nasceram, foram criadas, trabalharam ou que no lugar se estabeleceram, por um longo período de tempo, ainda se sintam membros da comunidade. Diante disso, podemos dizer que, se levarmos em consideração apenas o aumento do fluxo de pessoas, para participar dos eventos religiosos, o Fundão é uma comunidade cíclica, para a Igreja e para os que participam da festa; mas, se considerarmos os laços de pertencimento das pessoas com o lugar, ela é fixa, porque mesmo não vivendo mais no lugar, os laços ainda permanecem.
Podemos afirmar que o Fundão ainda é uma comunidade. No entanto, a maioria das pessoas que têm uma grande identificação com o lugar já não participam mais dos eventos religiosos, e não possuem mais fazendas no Fundão. Partindo do princípio de que os valores culturais podem ser transmitidos de geração para geração, corre-se o risco que esses vínculos familiares com o Fundão sejam rompidos, pois muitas vezes os mais jovens não se interessam a dar continuidade àquilo que é transmitido pelos pais. Se assim ocorrer, o Fundão poderá perder até mesmo esse caráter de comunidade cíclica, que tem a freqüência de seus membros apenas nos períodos festivos. Diante disso, a preocupação dos pais em envolverem os filhos
nos preparativos das festas é constante. Para o Sr. Mauri Rodrigues, “é importante levar os netos e os filhos, porque na minha falta alguém tem que levar isso tudo pra frente29”.
Neste momento, outra questão é levantada. Se as pessoas mais antigas da comunidade, em sua grande maioria, não participam mais dos eventos religiosos que se realizam no Fundão, quem é que está reproduzindo as festas da comunidade? Mas, antes de abordarmos a reprodução do Fundão, através das festas religiosas, faz-se necessário entender a importância da religiosidade das pessoas, para a manutenção da comunidade. Para isso, faremos uma viagem no tempo, com a finalidade de entender como se deu a construção do conjunto da capela, que envolve o salão de festa e o coreto, hoje, ponto de referência; mais especificamente, o local do reencontro para os membros da comunidade do Fundão. Importa- nos, ainda, conhecer como eram as procissões e as primeiras festas realizadas.