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3.2 – A COMUNIDADE PETRINA RECORDA JESUS O TORTURADO

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O primeiro passo da comunidade petrina foi dar sentido ao sofrimento e opressão que estavam vivendo, agora, conforme nos mostra o versículo 21 (1Pd

85 2,21), era preciso buscar em Jesus o exemplo de resistência no sofrimento. Era importante relembrar Jesus o torturado, esse foi o segundo passo.

Jesus não era avesso às realidades sociais de sua época, pelo contrário, um dos motivos que levaram Jesus a ser torturado e morto na cruz foi, justamente, a sua denúncia ao contexto de opressão:

A comunidade petrina enxergou que, quando Jesus anunciava o reinado de Deus, ele o fazia olhando o contexto histórico e sociocultural, ou seja, voltava o seu olhar para os marginalizados. A missão de Jesus, como Servo Sofredor, era realizar o desejo de Deus de bondade e justiça. Jesus anunciava a certeza que esse desejo se estabeleceria no mundo, que, em breve, ele ajudaria os fracos e oprimidos na defesa de seus direitos, daria poder aos pobres, saciaria os famintos e, aos pecadores, apresentava a oportunidade de conversão. (IZIDORO, 2008, p. 26).

A comunidade vai enxergar Jesus torturado como o Servo Sofredor. No exílio da Babilônia a comunidade israelita era Servo Sofredor, agora a comunidade petrina (juntamente com os cristãos marginalizados) se enxergava como Servo Sofredor. Jesus, no ápice do seu sofrimento, também foi Servo Sofredor.

Possivelmente a comunidade petrina se apoiou nas palavras de Segundo Isaías para melhor enxergar Jesus o Servo Sofredor. A comunidade petrina, ao reler Isaías, entende o Quarto Canto do Servo Sofredor (Is 52,13-53-12) evidenciando o caminho do Servo: horror no início e assombro no fim, sofrimento avassalador causado por crimes de outros, processo totalmente injusto, uma morte que somente seria reservada para os perversos. Ao reler, a comunidade petrina usa Is 53 para entender o pavor e o sofrimento vivenciados pelas comunidades diante da injustiça na morte de Jesus. Relembrar esse acontecimento é fundamental para o futuro do Servo Sofredor. A comunidade petrina vai evidenciar, por meio dessa releitura, que desde os primórdios do cristianismo havia uma explicação de Jesus como Servo de Iahweh. Ao comparar o sofrimento de Jesus ao do Servo Sofredor, a comunidade, no século I d.C., explicitamente identificou o Servo em Jesus afirmando e conservando a lembrança que o próprio Jesus de Nazaré tinha entendido sua missão divina. (IZIDORO, 2008, p. 25-26).

Assim descreve Izidoro (2008):

Para D. F. Payne, a Igreja Cristã deu um evidente significado da passagem da morte do servo; isto é, os cristãos leram Isaías 53 através das expectativas neo-testamentárias. A narrativa apresenta um exemplo peculiar e pertinente ao exercício de releitura efetuado pelos cristãos do período do cristianismo primitivo. Talvez esse texto fosse muito conhecido nas comunidades cristãs primitivas. Parece ter desempenhado um papel importante na compreensão e na pregação primitiva da Paixão (1Pd 2,21-24). O Servo Sofredor de Isaías é relido desde o juízo injusto e morte de Jesus de Nazaré. (p. 25).

86 A comunidade petrina passava a enxergar o Jesus teológico que, no auge do seu sofrimento, tornou-se o Messias Sofredor. Essa foi a grande releitura do redator final diante do sofrimento de Jesus. O Jesus histórico e historial se tornava o Jesus da fé.

Sobre isso é importante destacar:

‘Isto é, podemos reunir conhecimentos históricos descritivos sobre um indivíduo do passado remoto chamado Jesus de Nazaré; este é o nível do histórico. Podemos prosseguir, destacando e reservando os aspectos desse conhecimento histórico que seriam significativos para nós no presente; este é o nível historial (que poderá ser feito por judeus, budistas ou agnósticos). E o conhecimento de Jesus pela fé, como Senhor e Cristo. Este nível, aos olhos dos que crêem, é o único e exclusivo território de Jesus e, ao contrário do primeiro e do segundo, não pode ser aplicado a outras figuras da história antiga. Não podemos separar o Jesus histórico do Jesus historial. Um está profundamente entranhado no outro. (IZIDORO, 2008, p. 29).

A comunidade petrina trouxe um novo sentido ao sofrimento de Jesus:

O cristianismo, desde o seu início, empreendeu grandes esforços individuais e coletivos para estabelecer, talvez, um possível perfil de Jesus que catalisasse as diversidades e as expectativas messiânicas. Para Philipp Vielhauer, “o cristianismo primitivo produziu um grande cabedal de literatura própria que serviu para propagar por diversas vias a fé cristã”. São experiências primitivas consideradas como células de um cristianismo germinal que, passado pela oralidade, farão parte da vasta literatura de cunho cristão. (IZIDORO, 2008, p. 24).

O segundo passo da comunidade petrina, então, foi relembrar Jesus torturado, Servo Sofredor oprimido e morto por ter sido profeta defensor dos oprimidos. Olhava-se para vida de Jesus e começava a enxergar a conexão com o sofrimento:

Esta é a hora dos profetas. Lutam pelo resgate da terra em prol do povo. Denunciam a exploração promovida pelos reis através dos templos e da idolatria. Anunciam o afastamento dos opressores, para que os lavradores possam voltar a respirar. Passaram-se outras tantas gerações. Muitos destes profetas foram assassinados. Mas suas esperanças permaneciam qual estrela guia. E Jesus de Nazaré as retomou naquela situação de extrema opressão da terra pelo Império Romano e pelas autoridades judaicas. Voltou a promulgar “o ano aceitável de Javé”. Era o ano da libertação da terra, para que os pobres, quebrantados, exilados, cativos reconquistassem seus direitos e sua dignidade. (SCHWANTES, 1987, p. 16).

Nesse segundo passo da descoberta messiânica, a comunidade petrina percebeu que Jesus havia aceitado propositalmente suas dores e seu sofrimento em

87 detrimento de um propósito maior, o sofrimento injusto levaria todos à uma reflexão de conduta e, mediante essa reflexão, converteria os opressores.

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