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Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA)

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CAPÍTULO III – Estratégias em segurança alimentar e nutricional via fomento de mercados locais na agricultura familiar

3.3. Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA)

No Brasil a maioria dos produtores de base ecológica com bons resultados de comercialização em circuitos alternativos tem utilizado principalmente três canais de vendas (feiras do produtor, cestas em domicílio e, mais recentemente, os programas de governo – PAA e PNAE), mas há uma gama de alternativas que se desenvolvem junto com o crescimento da demanda. Entre elas existe a opção de vendas nas propriedades associadas em circuitos de turismo rural, restaurantes, lojas especializadas, cooperativas de consumidores, vendas em rede via circuitos de circulação e comercialização, além de vendas em lojas virtuais pela internet (DAROLT et al., 2013).

Um dos canais de venda que vem se desenvolvendo no Brasil mais recentemente, além das compras públicas é conhecido como CSA (Community Supported Agriculture) ou em português Comunidade que Sustenta a Agricultura.

O CSA é um formato de trabalho em rede em que o agricultor deixa de vender unicamente seus produtos no mercado competitivo (muitas vezes por meio de intermediários) para vender os produtos agroecológicos diretamente aos consumidores conscientes e, com isso, passa a contar com uma rede de apoio que viabiliza a organização e o financiamento de sua produção, colaborando para o desenvolvimento sustentável da região e estimulando um comércio justo, solidário e direto.

Ao vender os seus produtos localmente, produtores esperam melhorar a renda e diminuir o poder dos intermediários, mantendo a sua autonomia para decidir sobre o que produzir, como produzir e para quem vender. Ao comprar diretamente, os consumidores expressam seu desejo de apoiar a economia local, bem como estreitar o relacionamento com os produtores (DAROLT, 2008).

O sistema de agricultura apoiada pelo comunidade (CSA) é um contrato de parceria que se baseia no pré-financiamento total da produção pelos consumidores. Esse pré-financiamento permite fornecer um crédito antecipado para os agricultores no fomento à produção. No sistema convencional habitualmente o agricultor arca com todo o risco da produção. Esse sistema permite que os riscos dos agricultores sejam diminuídos e compartilhados com os consumidores, com vantagens para os dois lados (DAROLT, 2008).

O funcionamento depende da forma como o orçamento agrícola é apoiado pelos consumidores e como os produtores, em seguida, entregam os alimentos. Existem casos que vão desde a participação dos consumidores nos trabalhos de campo até a colheita pelos consumidores, passando por uma grande diversidade de práticas: coleta de cestas na propriedade pelos consumidores, fornecimento de ingredientes das cestas a granel pelo produtor e, em seguida, preparação das cestas por um grupo de consumidores para os outros membros, pontos de entrega centralizados, e até entrega individual de cestas no domicílio dos consumidores.

Todos os custos de marketing são eliminados. Assim, os consumidores e os produtores podem juntos criar uma “agri-cultura” alimentar baseada nas culturas da época e nas características socioculturais da região, compartilhando tanto as suas responsabilidades pela produção dos alimentos, quanto pela conservação da paisagem e do solo.

O valor pago mensalmente por cada família consumidora baseia-se não apenas no custo de produção de cada item, mas também num valor adicional que corresponde a um “custo de vida” do produtor, ou seja, um valor para que o produtor tenha uma qualidade de vida em igualdade de condições com os consumidores, envolvendo seus custos com a manutenção e investimentos na propriedade, além da sua moradia, vestuário, educação, saúde e cultura.

Segundo ADAM (2006) as perspectivas para os sistemas alimentares locais integrados, incluindo os modelos CSA, são muito promissores para melhorar a segurança alimentar local.

possibilitando um incremento na variedade de alimentos ofertados localmente. Por consequência fortalece a Segurança Alimentar e Nutricional e se mostra uma excelente estratégia complementar as compras públicas.

SHARP et al. (2002), em entrevistas com consumidores, registrou que a escolha destes pelo CSA se dava principalmente pela intenção de fortalecer o sistema local agroalimentar e consumir alimentos de qualidade, aspectos fundamentais da Segurança Alimentar e Nutricional.

Segundo CASTELO BRANCO et al. (2011) alguns consumidores das cidades brasileiras pesquisadas em relação ao sistema CSA se mostraram dispostos a participar deste tipo de projeto principalmente pela possibilidade de receberem alimentos frescos e produzidos organicamente no meio rural, reforçando a escolha por qualidade do alimento.

CASTELO BRANCO et al. (2011) ainda aponta como vantagens: garantir o capital inicial para a produção, aumentar a produção local de alimentos de boa qualidade com baixo impacto ambiental, melhorar as relações sociais e na comunidade e incrementar a economia local. E como dificuldades: pressão para produzir variedade por um longo período de tempo, necessidade de planejar bem a produção para evitar falta ou excesso de produtos e satisfazer o desejo dos consumidores em alguns itens.

Do lado do produtor, o pré-financiamento garante boa parte do escoamento da produção e uma renda antecipada. Além disso, o produtor também ganha tempo na venda e diminui as perdas, pois não precisa selecionar nem embalar os produtos entregues pelas cestas, etapas que são obrigatórias em outros canais de comercialização. Outro ponto positivo para o agricultor é a aproximação e a fidelização da clientela, o que permite agregar outras funções à propriedade, como um restaurante rústico, uma pousada ou passeios e lazer (DAROLT, 2008).

Esses sistemas alternativos podem contribuir para uma transformação das relações de poder no âmbito dos sistemas alimentares, incluindo um maior peso e participação de consumidores e produtores na definição dos modos de produção, transformação e consumo. A evolução de mercados baseados em circuitos alternativos pode contribuir para mudança de hábitos de consumo dos consumidores em relação à alimentação saudável ao mesmo tempo em que cria novos mercados para a produção de base ecológica. Não se trata de um ganho em escala (quantidade), mas em qualidade, criando novas relações sociais, novos valores e resgate da autonomia dos agricultores (DAROLT et al., 2013).

Portanto, o CSA apresenta-se como uma alternativa de mercado local complementar aos programas de compras públicas (PAA e PNAE). Por um lado permite certa independência em relação as políticas governamentais, mas exige maior conscientização do consumidor para seu pleno desenvolvimento. Na realidade estes canais de comercialização apresentam um enorme potencial de sinergia: as compras públicas com seu fundamental papel de estimulador inicial da produção de alimentos e do desenvolvimento dos mercados locais e a agricultura sustentada pelo consumidor estreitando cada vez mais a relação produtor-consumidor.

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