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Os destinos dos filhos de mulheres negras

5.2 Comunidades africanas em Sergipe: ressignificação e resistên cia

“Quem quiser ver o bonito, saia fora e venha ver, venha ver o parafuso

a torcer e a distorcer”. (Grupo Parafusos de Lagarto)

Ainda nos dias de hoje, a estrofe citada pode ser ouvida em Sergipe e em vários cantos do Brasil. Homens travestidos com batas de anáguas, com chapéu, fita vermelha; por baixo das anáguas, blusa branca, com decotes redondos, mangas compridas, com elástico nos punhos, e calça comprida, com elástico no cós e nas pernas. Eles saem às ruas da cidade de Lagarto girando sobre si mesmos e cantando ao som de triângulo, acordeom e bombo tocados por um trio pé de serra. Trata-se da mais original e tradicional manifestação cultural do povo lagartense: o Grupo Parafusos. A sua origem remonta ao século XIX e acredita-se que, quando surgiu o grupo, era formado por escravizados que fugiam e roubavam as anáguas brancas das sinhazinhas deixadas no quaradouro dos varais das casas-grandes. Esses negros fujões, vestidos com esse traje branco, formado de babado desde o pescoço até os pés sobrepondo peça por peça, nas noites de lua cheia, saíam dando pulos e rodopios em uma dança misteriosa e assustadora, na visão da população branca. A vestimenta descrita pode ser visualizada na figura 5.31

A história do grupo Parafusos foi investigada por Adalberto da Fonseca e publicadas em 1968. Ainda na década de 1960, esse pesquisador colheu o depoimento de um ex-escravo da fazenda Piauí, Benedito Puciano, filho de africanos, integrante do grupo original dos Parafusos. As informações que ele deu a Adalberto Fonseca tornaram-se a base do conhecimento que se tem sobre a origem do grupo. Esse autor explica a origem do folguedo lagartense através das memórias de Benedito:

Como é do conhecimento de todos, os Parafusos surgiram da seguinte forma: negros que fugiam e passavam a viver em mocambos, valiam-se das noites de lua para roubarem mantimentos e tudo o que fosse encontrado. Era costume da época as sinhás e sinhazinhas vestirem anáguas de sete côvados, que ficavam bem rodadas e ornadas, com rendas e bicos franceses 30 MATTOS, 2016.

31 SANTOS, Claudefranklin Monteiro. Grupo de Parafusos de Lagarto – Venha ver o Bonito. Revista

196 Capítulo 5. OS SENTIDOS DA ABOLIÇÃO. . .

Figura 7 – Dança do grupo Parafusos em Lagarto, Sergipe 2016

Fonte: foto tirada por SANTOS, Edvan. A dança dos Parafusos. Disponível em: <http: //lounge.obviousmag.org/abismo/2013/01/a-danca-dos-parafusos.html>. Acesso em: 10 mai. 2018.

muito em moda no século passado. Acontece que, para as peças sofrerem o processo de alvejamento, eram colocadas no sereno depois de submetidas a uma série de branqueamento. Ali, durante a noite, o sereno passava a exercer a interferência no tecido, cujo resultado alcançado satisfazia plenamente. Mas, acontecia que o negro fujão, ao passar ali levava aquela peça, com a finalidade única de servir de cobertor. O roubo das anáguas chegou a tal ponto de não serem mais as peças colocadas no quarador – como era conhecido o local de descoloração. Quando se deu a libertação dos escravos, eles saíram as ruas da vila cantando e pulando, rodopiando e dançando. O padre José Saraiva Salomão, então os batizou de Parafusos, a torcer e a destorcer.32

Como citado, as narrativas que abordam a história do grupo Parafusos presente na memória histórica do povo sergipano, faz alusão a dois períodos importantes da história do povo negro em Sergipe: a escravidão e a abolição. Os escravizados, em Lagarto, em resistência ao cativeiro empreendiam fugas pelas matas a fim de viveram nos mocambos que foram surgindo nesse território. O roubo das anáguas com as quais eles se “fantasiavam”

32 As referências que citamos foram acessadas em diferentes sites da internet que versam sobre o tema. O depoimento de Benedito Puciano e a narrativa desse ex-escravo foram publicizadas por MAYARD, Armando. Disponível em: <https://istoesergipe.blogspot.com.br/2015/05/grupo-folclorico- parafusos-da-cidade-de.html>. Acesso em: 10 mai. 2018, em seu Blog.

para tentar fugir dos seus senhores, em busca de novos caminhos à procura da liberdade, também serviam para que se protegeram do frio e para espantar, com vestimentas seme- lhantes a uma “assombração”, os homens que saiam em sua captura. Essa versão também é apresentada por Aglaé Fontes Alencar, pesquisadora da cultura popular sergipana e brasileira, que explica como originou-se a dança:

Assim, as figuras em rodopios andavam pelos canaviais e a imaginação completava o resto. Haviam notícias sobre as “visagens” que apareciam nas estradas, nas matas e nos canaviais. Todo mundo comentava se a noite era de lua. Os claros e escuros das árvores valorizavam ainda as vestes brancas que rodopiavam.33

O segundo momento presente nessas narrativas é o período da Abolição, em 13 de Maio de 1888. Após a libertação, os negros, em comemoração à Lei Áurea, saíram pelas ruas da cidade de Lagarto vestidos do mesmo jeito de como faziam para fugir dos seus donos no tempo da escravidão. Com o fim do cativeiro, essa população ressignificou essa prática cultural e saíram às ruas com as vestimentas rodopiando em tom de total zombaria com os seus antigos senhores de engenho. Segundo Fontes, nas comemorações da abolição esse grupo ganhou notoriedade: “após a abolição da escravatura, a saída dos negros vestidos com as anáguas não era mais para fazer a pilhagem para levar ao Quilombo, era pura distração mesmo. Era um desabafo em cima dos seus Senhores”.34 Essas práticas

que nasceram de ações isoladas dos escravizados no tempo da escravidão, no pós-abolição, passaram a ser caracterizadas por um folguedo de resistência do povo negro. Em outras palavras, esse grupo reapresentava um cortejo da liberdade.

Essa prática cultural que nasceu das estratégias de resistência dos escravizados é manifestação que pode ser considerada contínua e mostra-se como abertura de caminhos e possibilidades de reconstrução de rituais que valorizam essa cultura e o conhecimento transmitido pelas gerações. As práticas culturais ajustam-se por um processo de ressignifi- cação de seus próprios conteúdos socioculturais e permanecem vivas até as gerações atuais na memória e história do povo sergipano.

A importância histórica desse grupo na memória coletiva do povo sergipano pode ser traduzida nas palavras de um dos organizadores e mestre do grupo dos Parafusos, Gerson Santos Silva, que em uma entrevista disse: “não existe em lugar nenhum; o único grupo que existe só é em Lagarto, é só no estado de Sergipe (. . . ) não apresenta outro grupo em lugar nenhum do mundo a não ser Lagarto”.35 O que talvez o mestre Gerson não

tenha chegado a saber é que a singularidade desse grupo é um traço marcante dos legados dos povos africanos adeptos ao islã que chegaram no Brasil. Esse tipo de dança existe desde o século XIII, praticada por monges muçulmanos. Dervixe significa literalmente

33 ALENCAR, Aglaé D. Fontes. Danças e folguedos: iniciação ao folclore sergipano. Aracaju: [s.n.], 1998. 34 Ibid.

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porta ou passagem. Era praticada pelos Malês como uma forma de conectar-se com Allah. Observar figura 8

Os acontecimentos descritos na memória dos sergipanos sobre o grupo fazem referência à intensificação da resistência escrava no Brasil na primeira metade do século XIX. Esse período ficou marcado por diversos levantes dos escravizados em toda a América. A principal delas, que marcou o século XVIII como única e bem-sucedida revolta escrava no Mundo Atlântico, foi a Revolução Haitiana de 1791. Liderada por jacobinos negros em São Domingos. Escravizados e libertos tomaram o poder da colônia francesa mais lucrativa das Américas. E continuavam a defender, de armas na mão, o ideal Jacobino de liberdade e igualdade de todos os homens.36 No Brasil, essa revolução mobilizou as senzalas que

organizaram levantes em diversas regiões do país, causando temor e medo entre as elites brasileiras e os senhores de Engenho.

Em 1835, um grupo de africanos, das mais diferentes etnias, ocupou as ruas da capital da Bahia em um dos maiores levantes do Brasil, a Revolta dos Malês. Segundo João José Reis, os negros que pertenciam a um dos grupos étnicos mais islamizados da África Ocidental eram conhecidos como malês, “o termo malê deriva de imale, que significa muçulmano, na língua iorubá”.37 É um episódio que evidencia a importância política que

os africanos de religião muçulmana tiveram na história do Brasil.

A insurreição dos escravizados em São Domingos e a Revolta dos Malês no Brasil causou grande temor entre os escravocratas. Na obra Onda Negra, Medo Branco, a historiadora Célia Marinho de Azevedo diz que se espalhou pelo Brasil várias notícias e suspeitas da possibilidade de levantes de escravos pelo país. Essa onda negra perturbou o imaginário da população branca no século XIX.38 Nesse contexto, o clima de desconfiança

e a perseguição contra os africanos escravizados se intensificou no Brasil.

Paralelo ao que estava acontecendo em outras partes do Brasil, principalmente, na Bahia, as revoltas escravas também agitaram as senzalas em Sergipe. Segundo Luiz Mott, na primeira metade do século XIX, ocorreram dezessete ameças de revoltas.39Igor Fonsêca

estudou as insurreições escravas no Vale do Cotinguiba. Segundo esse pesquisador, Sergipe foi palco de várias revoltas entre os anos de 1809 e 1828. Nestas revoltas destaca-se a participação de africanos nagôs entre os insubordinados, especialmente, nas sublevações que ocorreram no ano de 1824, nos distritos de Rosário do Catete e Laranjeiras, sendo o distrito de Rosário novamente palco de um levante de escravizados em 1827. Sendo esse

36 GORENDER, Jacob. O épico e o trágico na história do Haiti. Revista Estudos Avançados, 2004. ano 18.

37 REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

38 AZEVEDO, Célia Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século

XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.