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Comunidades Tradicionais e Áreas Protegidas

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.1. POVOS DO VALE DO RIBEIRA: HISTÓRIA, CULTURA E TRADIÇÃO

5.1.4. Comunidades Tradicionais e Áreas Protegidas

As comunidades tradicionais do Vale do Ribeira são constituídas pelas misturas de etnias indígenas com o negro quilombola. São retratados por Paoliello (2006) como o caipira tradicional e abarcam os costumes de ambos os povos que os originaram, tem seu modo de vida baseado na cultura de subsistência e vê na terra o único meio de sobreviver, porém este direito à terra não lhe é reconhecido pelo Estado que devido a morosidade nos processos de regularização fundiária, aumenta os conflitos com esta população.

Pelo uso e ocupação do solo e o direito à terra foram travados embates ocorridos nas décadas de 1980 e 1990 do século XX, como uma ação “truculenta da Polícia Florestal do Estado” no sentido de impor a situação de ação que caracterizou a fase de implantação da maioria das Unidade de Conservação no Brasil e na região Ferreira (2014), conforme expresso abaixo:

Quanto aos moradores, a falta de informações sobre a nova situação legal de suas antigas posses e sobre as novas normas restritivas ao uso dos recursos, muitos abandonaram as áreas, ou recuaram a uma situação de clandestinidade frente a um contexto renovado de suspensão de direitos. Antes marginalizados das políticas públicas e do mercado, naquele período, pequenos agricultores familiares, pescadores ligados à pesca em pequena escala, extratores de recursos vegetais e animais experimentaram no cotidiano a imposição de uma situação de total suspensão de direitos (FERREIRA, 2014).

Estes conflitos se potencializaram ao longo do tempo por quegrande parte da região se encontrava em áreas de unidades de conservação restritivas, como o Parque Estadual de Jacupiranga, que congregava uma área total de 150.000 hectares:

Criado pelo Decreto-Lei nº 145 em 8 de agosto de 1969 o território do Parque Estadual do Jacupiranga - PEJ localiza-se no sul do Estado de São Paulo, nas regiões do Vale do Ribeira e Litoral Sul, com cerca de 150.000 ha, abrangendo áreas dos municípios de Barra do Turvo, Cajati, Cananéia, Eldorado, Iporanga e Jacupiranga (LINO, 2009).

Outro caso diz respeito a Estação Ecológica Juréia-Itatins (EEJI), criada em 1987 com mais de 79.270 mil hectares, através da Lei nº. 5.649, de 28 de abril de 1987. Esta lei, definiu a área abrangência da EEJI nos municípios de Peruíbe, Iguape,

4 Proprietária de Terras e de escravos que chegou à região vinda das Minas Gerais nos anos coloniais, trazendo consigo muitos

Miracatu e Itarirí, e assegurou como objetivo a integridade dos ecossistemas e da fauna e flora nelas existentes, bem como sua utilização para fins educacionais e científicos. Ainda temos o Parque Estadual do Lagamar de Cananéia que integra ainda o Mosaico de Unidades de Conservação do Lagamar, instituído pela Portaria n° 150/2006 do Ministério do Meio Ambiente, por ser uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, tem como objetivo a preservação dos ecossistemas e da diversidade genética e a pesquisa científica, além das atividades de educação ambiental e ecoturismo (FUNDAÇÃO FLORESTAL, 2019).

Lino (2009) retrata que como consequência desse quadro de restrição ao uso das UC muitas áreas foram invadidas e descaracterizadas, ombreando áreas de floresta-primária de importantíssimo grau estratégico. Alia-se a esse fato, outros eventos como a caça predatória e à exploração ilegal do palmito jussara, motivou a iniciativa na Assembleia Legislativa, que foi a seguir aperfeiçoada pelo Executivo, uma forma de solucionar essa questão, mediante projeto culminou com a edição da Lei Estadual n°. 12.810, de 21 de fevereiro de 2008, que criou o Mosaico de Unidades de Conservação de Jacupiranga (MOJAC), conforme ilustração da Figura 1:

Em 2006, por força da Lei Estadual 12.406/06 foi criado o Mosaico Juréia- Itatins, com mais de 110 mil hectares, composto por quatro unidades de conservação de proteção integral: Estação Ecológica Juréia-Itatins (EEJI), Parque Estadual Itinguaçu (PEIT), Parque Estadual do Prelado (PEP) e Refúgio de Vida Silvestre nas ilhas do Abrigo e Guararitama, além de duas unidades de conservação de uso sustentável: Reservas de Desenvolvimento Sustentável da Barra do Una (RDSBU) e do Despraiado (RDSD), localizado entre a Região Metropolitana da Baixada Santista e o Litoral Sul do Vale do Ribeira, nos municípios de Iguape, Itariri, Miracatu e Peruíbe, tendo como confrontante Pedro de Toledo, conforme Figura 2. (SÃO PAULO, Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 2009).

FIGURA 1: IMAGEM À ESQUERDA DO PARQUE ESTADUAL DO JACUPIRANGA (DECRETO–LEI 145/1969) E À DIREITA DO MOSAICO DO JACUPIRANGA (18210/2008).

FONTE: LINO (2009).

FIGURA 2 – CROQUI ILUSTRATIVO DO MOSAICO JURÉIA-ITATINS

Em 2009, foi julgada uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que suspendeu as atividades do mosaico e retorno da administração da área apenas como Estação Ecológica (79.240 ha) (Fundação Florestal do Estado de São Paulo, 2019). A elaboração dos planos de manejo foi interrompida em 2009, em razão de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, que extinguiu temporariamente o MUCJI. Mas em abril de 2013, o Mosaico foi restabelecido pela Lei nº 14.982, uma vez que a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) foi considerada improcedente, possibilitando a retomada dos Planos de Manejo (Fundação Florestal do Estado de São Paulo, 2019). Essa confusão jurídica que parecia não ter fim, foi apenas intensificando os conflitos, e a população carente de entendimento, foi criando um ranço do “meio ambiente”, como chamam os profissionais que trabalham nos órgãos ambientais da região.

A proposição dos Mosaicos (MOJAC e o MUCJ) foi uma estratégia para minimizar estes debates.

Nos mosaicos de Juréia – Itatins e Jacupiranga, houve a prevalência de um critério segundo o qual, para a conservação, é essencial que na reclassificação de áreas de proteção integral de uma Unidade de Conservação para áreas de uso sustentável, não se abra mão da compensação daquelas, mediante a incorporação de novas áreas ainda intocadas, de modo a que se mantenha ou seja aumentada a área sob proteção integral do futuro mosaico (LINO, 2009).

Essa reclassificação das áreas de Proteção Integral para Unidades de Conservação de Uso Sustentável, minimizou um pouco os conflitos entre a população tradicional e o atores da política ambiental na região.

Sobre estes ganhos Cara (2017) destaca:

Entre as principais conquistas ao longo desses nove anos, destacam-se os projetos de recuperação ambiental, a elaboração dos Planos de Manejo Espeleológicos, a instalação de viveiros comunitários para produção de espécies nativas, formação e capacitação de monitores ambientais das comunidades para as atividades de turismo, redução significativa de registros de crimes ambientais e também a redução de conflitos socioambientais e o fortalecimento da participação comunitária na gestão, por meio dos conselhos gestores, entre outras.

Atualmente, parte da população já se beneficia da cadeia produtiva de mudas de espécies florestal, utilizadas para a recomposição florestal no MOJAC do Jacupiranga e as suas Unidades de Conservação. Parque Estadual Caverna do Diabo, Parque Estadual do Rio Turvo, Parque Estadual Lagamar de Cananéia; Área de Proteção Ambiental (APA) dos Quilombos do Médio Ribeira, APA de Cajati, APA

do Rio Vermelho e Rio Pardinho, APA do Planalto do Turvo, Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) de Lavras, RDS dos Quilombos de Barra do Turvo, RDS dos Pinheirinhos, RDS Barreiro/ Anhemas e RDS Itapanhapima; além das Reserva Extrativista (RESEX) Taquari e Ilha do Tumba, segundo informações da Secretaria da Infraestrutura e Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo (2018), apontadas na Tabela 2.

TABELA 2 – DISTRIBUIÇÃO DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO MOSAICO DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO JACUPIRANGA – MOJAC.

TIPO DA UC NOME EXTENSÃO EM

HECTARES

MUNICÍPIOS ABRANGENTES

Parque

Caverna do Diabo 40219,66 Barra do Turvo, Eldorado e Iporanga Rio Turvo 73.893,87 Barra do Turvo, Cajati e

Jacupiranga Lagamar de Cananéia 40.758,64 Cananéia e Jacupiranga Quilombos do Médio Ribeira 64.625,04 Eldorado e Iporanga Rio Vermelho e Rio Pardinho 3.235,47 Barra do Turvo

APA

Planalto do Turvo 2.721,87 Barra do Turvo e Cajati

Cajati 2.975,71 Cajati

Barreiro-Anhemas 3.175,07 Barra do Turvo Quilombos de Barra do Turvo 5.826,46 Barra do Turvo

RDS

RDS Pinheirinhos 1.531,09 Barra do Turvo

Lavras 889,74 Cajati

Itapanhapima 1.242,70 Cananéia

RESEX Taquari 1.662,20 Cananéia

Ilha do Tumba 1.128,26 Cananéia

RPPN Quilombo Sapatu 170 Eldorado

Quilombo André Lopes 664 Eldorado

FONTE: Secretaria da Infraestrutura e Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo (2018).

Aos poucos a região começou a entender o seu legado ambiental e alguns estratégias para geração de renda vão se consolidando, alicercado por apoio trazidos por Organizações Não-Governamentais (ONG), Universidades e poder público. E a questão ambiental tratada por França (2005) como um variável responsável pela dificuldade para a ocorrência do crescimento e desenvolvimento econômico na região, começa a ser visto como aliada.

O ecoturismo passa a ser entendido como uma importante ferramenta de desenvolvimento local e sustável, pois como defende Magro et al. 2010, citado por (IVANAUSKAS et al., 2012), diante das limitações socioeconômicas e das restrições ambientais, o turismo representa importante papel para o Vale do Ribeira e Alto

Paranapanema, desde que sejam compatibilizadas as ações de conservação e o desenvolvimento regional.

Antigos moradores tradiciocionais, caçadores e os que praticavam agricutura em Áreas de Preservação Permantes (APP) iniciam a organização em associações e a promover cultivos mais sustentáveis em sistema agroflorestais que hoje são reconhecidos nacionalmente, agricultura orgânica, coleta e despolpamento de sementes, como é o caso do palmito jussara, organização e implantação de viveiros de mudas comunitários, e a cadeira produtiva do reflorestamento abre vagas de emprego.

5.2. Os ciclos econômicos do arroz, chá, ouro e banana no Vale do

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