2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
2.2 CONCEITO DE CONSTRUCIONALIDADE
Em perspectiva construcionista, Rosário e Lopes (2019) propõem uma abordagem sincrônica para o estudo da mudança linguística chamada de Construcionalidade. Pautados nos pressupostos teóricos da Construcionalização e das Mudanças Construcionais, de Traugott e Trousdale (2013), que orientam a perspectiva diacrônica, Rosário e Lopes (2019, p. 92) definem a construcionalidade como:
a relação sincrônica estabelecida entre construções, de tal sorte que (i) duas construções A e B apresentam horizontalmente algum grau de parentesco, ou (ii) uma construção menos esquemática pode ser associada verticalmente a uma ou mais construções de natureza mais esquemática. (ROSÁRIO E LOPES, 2019, p. 92)
Rosário e Lopes (2019) consideram que nessa nova abordagem não há criação de um novo pareamento de forma nova com significado novo, conforme os estudos diacrônicos em construcionalização apontam, mas há convivência de duas ou mais construções em uma mesma sincronia. Assim, eles afirmam que as relações horizontais ou verticais entre essas construções configuram as relações de construcionalidade. Para a sustentação teórica do conceito, os autores exploram os conceitos de variação, gradiência e gramaticalidade.
Com base nos estudos de Trousdale e Traugott (2010), os autores concluem que a variação diz respeito “aos diferentes níveis de associação a um exemplar” (ROSÁRIO E LOPES, 2019, p. 89); a gradiência, a manifestação da variação em pequena escala; e a gramaticalidade, com base em Pietrandrea (2005, p. 54), é vista como um continua em que formas linguísticas são ordenadas pelos graus em escala.
Rosário e Lopes (2019) defendem o novo conceito com base no modelo de Construcionalização desenvolvido por Traugott e Trousdale (2013) para a mudança linguística. Nessa esteira de estudo, Rosário e Lopes (2019) apontam que indícios de investigação linguística sincrônica já haviam aparecido em Trousdale e Traugott (2010) antes mesmo de o modelo de Construcionalização se concretizar, vejamos:
Segundo Trousdale e Traugott (2010, p.39), “a variação, ao longo do tempo, envolve a emergência de construções gramaticais: um processo gradual e global, que envolve uma série de microrreanálises locais discretas”. Logo, a associação entre construcionalização gramatical e variação sincrônica já havia sido ensaiada pelos autores citados antes mesmo da consolidação do modelo da Construcionalização, mas não desenvolvida nas obras mais recentes. (ROSÁRIO E LOPES, 2019, p. 89)
A perspectiva adotada pelos autores revela a importância de se observar, em determinada sincronia, as construções gramaticais que emergem ao longo do tempo. Sendo assim, alguns fatores caros aos estudos diacrônicos foram sendo adaptados e moldados de modo a contribuírem para as pesquisas sincrônicas. Rosário e Lopes (2019) propõem, nesse sentido, que os estudos em construcionalidade adotem os mesmos fatores de análise da Construcionalização, a saber: esquematicidade, produtividade e composicionalidade.
A esquematicidade origina-se do conceito de esquema, o qual diz respeito aos graus de abstratização inconscientemente percebidos pelos falantes a partir da experiência de padrões rotinizados. Sob esse viés, entende-se o nível de esquematicidade a partir de um continuum. Tal
continuum refere-se ao grau de generalidade ou especificidade da construção. Assim, há
construções bastante esquemáticas e abstratas, bem como construções pouco ou medianamente esquemáticas, como é o caso da construção em análise, que pode ser descrita da seguinte maneira: [(como) (se) não bastasse]. Essa gradiência envolve os slots a serem ou não preenchidos por palavras ou sintagmas.
A produtividade, fenômeno também gradiente, refere-se à frequência, a qual é de extrema importância para os estudos linguísticos, uma vez que ela pode ser responsável pela rotinização e cristalização de novos usos da língua. Sendo assim, ela diz respeito à (i)
extensibilidade, o grau em que outras construções são sancionadas no esquema; e ao (ii) grau em que os esquemas restringem elementos preenchedores de slots. A produtividade pode ser, conforme Bybee (2003), de frequência type, cuja análise se dá em relação aos diferentes padrões de uma construção específica, e de frequência token, que é feita com base no número de vezes em que uma unidade ocorre nos dados concretos de uso.
A composicionalidade faz referência ao grau de transparência entre forma e significado no nível da construção. Assim, se o significado geral de determinada construção é recuperado a partir de cada subparte, essa é uma construção mais composicional. Mas, se os itens composicionais não recuperam o seu significado no todo, a construção é menos composicional. Este fator divide-se em composicionalidade semântica e composicionalidade sintática. A composicionalidade semântica diz respeito ao significado das partes, se é ou não recuperado no significado do todo. Já a composicionalidade sintática diz respeito ao nível de integridade morfossintática das subpartes. (ROSÁRIO; OLIVEIRA, 2016, p. 246).
A microconstrução “[(Como) (se) não bastasse + Ø]” apresenta os seus componentes vinculados de tal maneira que acreditamos ter comprometido a composicionalidade sintática, já que os termos estão sempre justapostos, sem termos intervenientes, sem flexão de tempo, modo e pessoa. Essa interpretação leva-nos ao conceito de chunk, que, segundo Bybee (2010) é uma unidade de organização da memória oriunda da repetição do uso de sequências de palavras.
No modelo de Construcionalização (TRAUGOTT E TROUSDALE, 2013), há aumento de esquematicidade e de produtividade e diminuição de composicionalidade. De fato, isso ocorre porque, ao longo do tempo, o significado das partes vai se tornando cada vez mais opaco e o significado da construção passa a ser recuperado a partir da soma do todo. Rosário e Lopes (2019, p. 98) atestaram que esses mesmos resultados “podem ser mensurados sincronicamente, desde que as construções em nível mais alto e em nível mais baixo ainda sejam empregadas na sincronia em estudo.”. Logo, ratificamos a relevância do conceito de Construcionalidade para este estudo de base sincrônica.
Na próxima seção, apresentamos outros dois conceitos caros à esta pesquisa: o de Intersubjetividade e o de Postura epistêmica.
Na próxima seção, apresentamos outros dois conceitos caros à esta pesquisa: o de Intersubjetividade e o de Postura epistêmica.