• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I – ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

4.1 Conceito de Desenvolvimento local

Para entender sobre desenvolvimento local é imprescindível conhecer a pobreza e especificar algumas linhas teóricas, não se posicionando em um horizonte à parte das características de desenvolvimento do país ou da região, pois se faz necessário um entendimento do que acontece em toda a economia, para analisar situações locais.

4.1.1 Definições de pobreza

A pobreza e a desigualdade social acompanham a linha histórica do desenvolvimento da humanidade. Segundo Schwartzman (2007), até o século XIX o entendimento da pobreza se baseava em uma condição natural e inevitável para a maioria da humanidade. Essa situação só seria considerada problema social se a população pobre colocasse em perigo a ordem em vigor. A caracterização de pobreza acena para algum tipo de carência, que pode ser exclusivamente material ou abranger elementos de ordem cultural e social, em face dos recursos disponíveis individualmente ou familiar. Essa exiguidade pode ser de natureza absoluta, relativa ou subjetiva (KAGEYAMA; HOFFMANN, 2016).

Conforme Codes (2008), a pobreza tornou-se tema de pesquisa científica a partir da Revolução Industrial. O assunto ganhou força em países em desenvolvimento, ente o final do século XIX e o final do século XX. Porém, a caracterização de pobreza nessa ocasião estava atrelada à ideia da satisfação das necessidades mínimas para a sobrevivência humana. O bem- estar, inserido neste ponto de vista, seria concebido pelos aspectos monetários. Dessa forma, a pobreza era identificada como carência de renda ou consumo. Rocha (2003) corrobora esse

11

conceito, definindo a pobreza como a ausência de recursos para se manter adequadamente no meio social em que se vive.

Vale ainda salientar que apenas o uso de aspectos financeiros para definir a pobreza é alvo de certas considerações. Codes (2008) defende que os indivíduos não são exclusivamente organismos que necessitam de reposição energética, mas entes sociais, que exercem papéis de trabalhadores, cidadãos, pais, parceiros, vizinhos e amigos. Não são exclusivamente e meros consumidores de bens materiais, mas também produtores daqueles bens e integrantes ativos de complexos ambientes sociais.

Os parâmetros, ainda que não uniformes e fundamentados pelo critério de renda, tendem a definir que são pobres aqueles indivíduos que, temporária ou permanentemente, não têm acesso a um mínimo de bens materiais e recursos financeiros e, consequentemente, são excluídos, em graus distintos, da riqueza social (YAZBEK, 2012).

O entendimento da pobreza como insuficiência de recurso ou o não atendimento às necessidades básicas é muito complexo, partindo do pressuposto de que cada indivíduo tem necessidades específicas.

Assim, existem muitas definições de pobreza na literatura econômica, como também várias maneiras diferentes de rotular as famílias ou pessoas que possam ser consideradas como pobres para cada tipo de análise, ou seja, definir a pobreza é algo muito complexo, embora existam duas correntes teóricas que tratam dessa temática. A primeira corrente analisa a pobreza do ponto de vista apenas monetário (unidimensional), enquanto a segunda corrente busca características não econômicas (multidimensional), para contextualizar a pobreza individual ou coletiva. Essas duas correntes são tratadas nos tópicos subsequentes.

4.1.2 O caráter unidimensional de análise dos índices de pobreza

No diagnóstico da pobreza, o tradicional destaque na renda expressa o conceito de que condições de pobreza ou representam de modo direto a escassez de recursos para a aquisição de bens e serviços básicos ou os recursos são indiretamente alcançados via renda, no critério em que renda e bem-estar estariam profundamente correlacionados. A análise unidimensional da pobreza trata basicamente as questões monetárias para definição e classificação da precariedade do indivíduo. Segundo Barros et al. (2006), uma opção, historicamente predominante, tem sido discutir a pobreza exclusivamente como insuficiência de renda.

A definição unidimensional para caracterizar a carência humana vem de longa data, com destaque para o período migratório dos camponeses para as cidades da Inglaterra. Silva (2012) afirma que, nesse país, durante o reinado de Elizabeth I, passou a existir a ideia de subsistência,

12

proveniente da chamada “Lei dos Pobres”. Durante esse período, decorrente do grande êxodo rural, a população urbana teve aumento considerável, culminando no excesso de oferta de mão de obra não aproveitada pelo mercado de trabalho, o que, consequentemente, levou essa população a viver em situação de mendicância.

Hagenaars e de Vos (1988), em pesquisa direcionada a expor os distintos significados de pobreza, conceituam pobreza em três grandes grupos de definições: o primeiro deles seria da pobreza absoluta, que é ter menos do que é objetivamente determinado, mínimo absoluto; o segundo é da pobreza relativa, caracterizada por ter menos do que os outros na sociedade; e o terceiro seria a pobreza subjetiva, em que a carência seria o sentimento de não se ter o bastante para sobreviver.

A caracterização de pobreza absoluta refere-se às necessidades básicas, ou seja, a carência ou a escassez de renda para a satisfação de aspectos mínimos imprescindíveis à sobrevivência física. Oliveira (2014) afirma que o uso da renda como base para avaliar o nível de vida de uma sociedade se baseia na estreita relação entre o nível de renda e os indicadores de bem-estar físicos, que serviriam de aproximação dos indicadores físicos de qualidade de vida. Uma prerrogativa desse tipo de indicador é auxiliar a comparação internacional.

Fruto da relação entre renda e qualidade de vida, surgiu a linha da pobreza, que é o custo monetário para uma pessoa, em determinada localidade e tempo, atingir o nível de bem-estar. Conforme Kageyama e Hoffmann (2016), o meio mais simples e rotineiramente empregado para avaliar a pobreza é a criação de um nível de renda (linha de pobreza) abaixo do qual os indivíduos são classificados como pobres:

Nas economias modernas e monetizadas, onde a parcela ponderável das necessidades das pessoas é atendida através de trocas mercantis, é natural que a noção de atendimento às necessidades seja operacionalizada de forma indireta, via renda. Trata- se de estabelecer um valor monetário associado ao custo do atendimento das necessidades médias de uma pessoa de uma determinada população (ROCHA, 2003, p. 12).

No início dos anos de 1900, Rowntree (1901) estimou a miséria a partir de uma linha de pobreza concebida por um valor monetário, que possibilita a pessoa ter acesso a uma dieta nutricional apropriada e obter vestuário e moradia. Nesse sentido, esse autor define a pobreza na abordagem da insuficiência de renda. Melhor explicando, nesse momento cria-se a chamada linda da pobreza, que conforme Ravallion (1998) e Hoffmann (2011) é o limite que permite ao indivíduo vida digna e, dessa forma, são consideradas pobres as pessoas que não atingirem esse nível de bem-estar.

13

Mas a definição dessa linha cria alguns questionamentos, a exemplo das diferenças culturais entre as sociedades. Rocha (2008) assegura que a definição de um valor da linha de pobreza adequada para atender às necessidades básicas é cercada de discussões, uma vez que, quanto mais evoluída for uma sociedade, mais proeminente se torna a ideia de que a pobreza se afasta do atendimento das necessidades de sobrevivência.

Como a visão unidimensional se restringe à análise da renda, a partir dela todas as ações e políticas de redução da pobreza são apenas de caráter econômico, não considerando as questões de cunho social, que são essenciais ao ser humano. Sob esse olhar, pobre era a pessoa que não tinha condições financeiras para garantir sua sobrevivência e de quem dele dependia. Assim, a pobreza está atrelada à sobrevivência física e ao não atendimento das necessidades a ela vinculadas (ROCHA, 2003).

Conforme Araújo e Campos (2012), a partir da década de 1970 o enfoque unidimensional passou a ser refutado, obrigando muitos autores a buscarem outros meios de analisar tal fenômeno. Desse modo, a abordagem multidimensional passou a ganhar espaço, principalmente porque a pobreza, expressão direta das relações sociais, “certamente não se reduz às privações materiais” (YAZBEK, 2009, p. 73-74).

4.1.3 O caráter multidimensional da análise da pobreza

A partir de colaborações críticas de pesquisadores que vêm contestando a teoria convencional, a utilização de renda para definição da pobreza tem perdido espaço para novos enfoques, destacando-se a multidimensionalidade como indispensável à caracterização do fenômeno pobreza.

A análise contemporânea multidimensional da pobreza baseia-se, principalmente, no estudo das capacidades e funções de Amartya Sen (SEN, 1999). Segundo esse autor, as informações de renda devem ser complementadas com outros dados que estão presentes na vida humana, uma vez que nem todos os indivíduos têm a mesma capacidade de utilizar os recursos monetários para suas realizações e sobrevivência. Conforme Amartya Sen (1999), a pobreza pode ser determinada como uma carência das capacidades básicas de uma pessoa e não exclusivamente como uma renda inferior a um nível preestabelecido. Portanto, foi desenvolvida, especialmente por Sen (1999), Sen, Motta e Mendes (2000) e Sen e Foster (2001), a definição de um índice de pobreza multidimensional que abrange a análise das "capacitações" dos sujeitos, através do conjunto de características da sociedade onde estes vivem.

14

Os estudos da pobreza multidimensional defendem a tese de que só é admissível entender realmente a pobreza se ela for analisada em suas várias dimensões, o que envolve tratar o assunto a partir de suas múltiplas hipóteses e seus diferentes aspectos, avaliando-os em determinado contexto histórico e social.

Sen (2000) apresenta cinco tipos de liberdade que são ferramentas indispensáveis do desenvolvimento: oportunidades sociais, facilidades econômicas, liberdades políticas, segurança protetora e garantias de transparência. Elas se conectam de forma complementar, ao mesmo tempo que se estimulam mutuamente, adquirindo robustecimento e apoiando-se umas nas outras.

A presença de diversos sentidos a respeito do significado da pobreza tem se refletido em diferentes indicadores que possibilitem determinar quais aspectos necessitam ser priorizados para avaliar o nível de bem-estar das pessoas. A análise multidimensional não se caracteriza exclusivamente pela carência material, entretanto é categoria política que se explica pela ausência de direitos, de oportunidades, de informações, de possibilidades e de esperanças (MARTINS, 1991).

A correlação entre renda e capacidade é excessivamente afetada pela idade da pessoa, pelas questões de gênero e sociais, pela localização, pelas condições epidemiológicas e por outras diferenças sobre as quais um indivíduo pode não ter controle ou ter um controle somente limitado (CRESPO; GUROVITZ, 2002). Algumas diferenciações, como idade, deficiência física ou doença, diminuem a capacidade pessoal para conseguir renda. Do mesmo modo que é mais complexo transformar renda em bem-estar, uma vez que idosos, pessoas com necessidades específicas ou com algum tipo de enfermidade podem precisar de mais renda para conseguir o mesmo padrão de vida de pessoas que não passam por essas dificuldades. Crespo e Gurovitz (2002) afirmam que, quanto maiores forem as capacidades individuais, maior o potencial produtivo de uma pessoa e, portanto, maior a chance de conseguir uma renda mais alta.

O conceito central, segundo Kageyama e Hoffmann (2016), é de que a pobreza apresenta duas naturezas. A primeira delas está relacionada ao subdesenvolvimento regional e local, que culmina em carências de condições básicas para o bem-estar, como luz elétrica, água encanada e instalações sanitárias e dificuldade de acesso aos serviços de saúde e educação. Entretanto, a pobreza está fundamentada nas características demográficas e nas limitações do capital humano e financeiro das famílias, o que afeta a capacidade de elevar a renda familiar. Dessa forma, o entendimento científico da pobreza multidimensional, através dos avanços nas pesquisas,

15

amplia o pensamento sobre o desenvolvimento socioeconômico, a partir de um ponto de vista humanista (SILVA; NEDER, 2010).

É importante destacar que aqueles que estudam a pobreza como fenômeno multidimensional concordam com a importância de utilizar uma medida agregada da pobreza, especialmente com o objetivo de auxiliar na elaboração de políticas públicas. Isso porque ações de combate à pobreza são mais eficazes quando atendem às necessidades corretas.

Documentos relacionados