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4 ANÁLISE DA POSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO DO DIVÓRCIO

4.3 CONCEITO DE DIVÓRCIO IMPOSITIVO OU UNILATERAL

Destaca-se que as modalidades de divórcio direto, indireto e extrajudicial estão previstas no ordenamento jurídico brasileiro.

Por sua vez, o divórcio impositivo ou unilateral é um tipo que surgiu em abril de 2019, originando muitas discussões acadêmicas e doutrinárias sobre aspectos de sua validade jurídica e utilidade prática. Foi instituído pelo Provimento nº 06/2019, da Corregedoria Geral de Justiça do Estado de Pernambuco, seguido por Provimento semelhante pelo Estado do Maranhão. Desse modo, essa nova forma de referido instituto passou a ser admitido nesses dois Estados brasileiros, mas discute-se sua inserção, de forma definitiva, no ordenamento jurídico brasileiro. Trata-se de uma modalidade de divórcio extrajudicial litigioso que pode ser feita com o requerimento de apenas um dos cônjuges (BRITO, 2019). Para Santos Junior (2009) refere-se a uma forma de divórcio litigioso realizada no cartório, com a presença obrigatório de advogado, que rompe o casamento, mas deixa de lado outras controvérsias, como a partilha de bens, alimentos para o cônjuge e demais questões pendentes.

O divórcio impositivo parece ser uma modalidade criada para auxiliar a redução da sobrecarga do Poder Judiciário, ao mesmo tempo em que cria facilidade para as partes na obtenção de seus direitos, como também traz a possibilidade de conferir aos cônjuges maior autonomia de vontade garantindo o pleno exercício de seu direito potestativo. No entanto, devem ser considerados alguns pontos acerca da juridicidade do instituto e o aperfeiçoamento do modelo proposto para que, caso realmente passe a valer em nosso ordenamento, seja entregue da melhor forma possível (COSTA FILHO; ALBUQUERQUE JUNIOR, 2019).

4.4 PROVIMENTO 06/2019 DA CORREGEDORIA GERAL DE JUSTIÇA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PERNAMBUCO

O Provimento 06/2019, da Corregedoria Geral de Justiça do Tribunal de Justiça do Estado do Pernambuco, assinado pelo Desembargador Jones Figueiredo Alves, constitui o ato normativo que instituiu o divórcio impositivo ou unilateral no ordenamento jurídico brasileiro. Dentre os fatores que o motivaram, destaca-se a necessidade de se estabelecerem medidas desburocratizantes para o instituto do divórcio e de se garantir a autonomia de vontade dos cônjuges. Ademais, considera-se que, a partir da Emenda Constitucional 66/2010, o único requisito para a decretação do divórcio é a manifestação de vontade do requerente, estando extinta a necessidade da previa separação de fato ou judicial para a dissolução do vínculo conjugal, sendo incabível também a discussão de culpa pelo término da relação conjugal. (PERNAMBUCO, 2019). Desse modo, com poucas disposições, referido Provimento (art. 1º. §§ 1º e 2º) dispõe que:

Art. 1°. Indicar que qualquer dos cônjuges poderá requerer, perante o Registro Civil, em cartório onde lançado o assento do seu casamento, a averbação do seu divórcio, à margem do respectivo assento, tomando-se o pedido como simples exercício de um direito potestativo do requerente.

§1°. Esse requerimento, adotando-se o formulário anexo, é facultado somente àqueles que não tenham filhos de menor idade ou incapazes, ou não havendo nascituro e, por ser unilateral, entende-se que o requerente optou em partilhar os bens, se houver, a posteriori.

§2°. O interessado deverá ser assistido por advogado ou defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do pedido e da averbação levada a efeito. (PERNAMBUCO, 2019).

Ante a redação de referido Provimento, entende-se que poderá ser requerida, por qualquer dos cônjuges, perante o Registro Civil, em cartório onde foi lançado o assento do seu casamento, a averbação do divórcio impositivo ou unilateral, à margem do respectivo assento, tomando-se o pedido como simples exercício de um direito potestativo do requerente. Contudo, essa possibilidade é facultada somente àqueles que não tenham nascituros, filhos menores ou incapazes, sendo indispensável a presença de advogado ou defensor público. Registre-se também que, o dispositivo deixa claro que eventual partilha de bens será realizada em momento posterior. Em seguida, o Provimento (art. 2º) trata sobre a formulação do requerimento e a notificação do outro cônjuge:

Art. 2°. O requerimento independe da presença ou da anuência do outro cônjuge, cabendo-lhe unicamente ser notificado, para fins de prévio conhecimento da averbação pretendida, vindo o oficial do registro, após efetivada a notificação pessoal proceder, em cinco dias, com a devida averbação do divórcio impositivo.

Parágrafo único. Na hipótese de não encontrado o cônjuge notificando, proceder-se-á com a sua notificação editalícia, após insuficientes a busca de endereço nas bases de dados disponibilizadas ao sistema judiciário (PERNAMBUCO, 2019).

Verifica-se que esse dispositivo reconhece a característica litigiosa do divórcio impositivo, na medida em que é dispensada a anuência do outro cônjuge para formalização do requerimento, motivo pelo qual o divórcio impositivo também é chamado de divórcio unilateral. Ademais, referido Provimento (art. 3º) dispõe sobre a alteração de nome do cônjuge em decorrência do divórcio, como se demonstra:

Art. 3°. Em havendo no pedido de averbação do divórcio impositivo, clausula relativa à alteração do nome do cônjuge requerente em retomada do uso do seu nome de solteiro, o oficial de registro que averbar o ato no assento de casamento, também anotará a alteração no respectivo assento de nascimento, se de sua unidade, ou, se de outra, comunicara ao oficial competente para a necessária anotação; em consonância com o art. 41 da Resolução n. 35 do Conselho Nacional de Justiça (PERNAMBUCO, 2019).

Portanto, através da leitura do dispositivo infere-se a possibilidade de o cônjuge requerente pedir, juntamente com a averbação do divórcio, a alteração do seu nome. Contudo, o Provimento não faz menção a possibilidade ou ao momento dessa alteração em relação ao nome do cônjuge requerido, eis que pode ser essa a realidade fática a ser encontrada. Por fim, citado Provimento (art. 4º) dispõe sobre os pedidos acessórios, que normalmente, seguem ao pedido de divórcio, como segue:

Art. 4°. Qualquer questão relevante de direito a se decidir no atinente a tutelas especificas, alimentos, arrolamento e partilha de bens, medidas protetivas e de outros exercícios de direito, deverá ser tratada em juízo competente, com a situação jurídica das partes já estabilizada e reconhecida como pessoas divorciadas.

Parágrafo único. As referidas questões ulteriores poderão ser objeto de escritura pública, nos termos da Lei n. 11.441, de 04.01.2007, em havendo consenso das partes divorciadas, evitando-se a judicialização das eventuais questões pendentes. (PERNAMBUCO, 2019).

Desse modo, verifica-se que o citado artigo complementa o disposto no § 1°, do artigo 1°, do Provimento em estudo, que já sinalizava que o requerente optava em eventual partilha de bens a posteriori. O artigo 4° amplia essa disposição para qualquer questão relevante que normalmente acompanha o pedido de divórcio, como alimentos entre os cônjuges, medidas protetivas e o arrolamento e partilha de bens, sem, no entanto, estabelecer um rol exaustivo das eventuais tutelas necessárias. Por sua vez, o parágrafo único, do artigo 4º, estabelece que essas decisões poderão ser objeto de escritura pública, caso haja consenso entre as partes, reafirmando, mais uma vez, a intenção de se evitar a sobrecarga do Poder Judiciário.

No entanto, o Provimento 06/2019 foi alvo de processo perante o Conselho Nacional de Justiça, que iniciou a análise e o debate jurídico sobre o tema. Na decisão prolatada nos autos, o relator Ministro Humberto Martins identificou aspectos de natureza formal e material. Assim, justificou o relator que o ponto central do Provimento tratava de matérias de Direito Civil, de Direito Processual Civil e sobre os registros públicos, matérias que possuem competência

privativa para legislar, conforme estabelece a Constituição Federal (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2019).

De fato, é o que se extrai da leitura do artigo 22, I e XXV da Constituição Federal/1988, como segue: “Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; [...] XXV - registros públicos [...]” (BRASIL, 1988). Ante o exposto, destaca-se que referido Provimento não observou a competência privativa da União para tratar da matéria, conforme entendimento do Conselho Nacional de Justiça, como segue:

Nesse ponto, a uma consequência gravíssima para a higidez do direito ordinário federal, cuja uniformidade é um pressuposto da Federação e da igualdade dos brasileiros. A Constituição de 1988 optou pela centralização legislativa dos mencionados campos do direito. Ao assim proceder, o constituinte objetivou que o mesmo artigo do código civil ou do código de processo civil fosse aplicado aos nacionais no Acre, em Goiás, em Natal, em São Paulo, no Rio grande do Sul e nos demais Estados (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2019).

Ademais, citado Provimento vai de encontro a legislação hierarquicamente superior, como o Código Civil (art. 1.572) e o Código de Processo Civil (art. 733), pois referidos diplomas estabelecem a impossibilidade de realização do divórcio litigioso, pela via extrajudicial (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2019). Assim, a legislação processual civil (art. 733, §§ 1º e 2º, CPC), determina que somente o divórcio ou a separação, quando realizados de modo consensual, podem ocorrer por escritura pública, desde que não haja nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, constituindo-se título hábil para registro, independendo de homologação judicial:

Art. 733. O divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável, não havendo nascituro ou filhos incapazes e observados os requisitos legais, poderão ser realizados por escritura pública, da qual constarão as disposições de que trata o art. 731 (BRASIL, 2015).

§ 1º A escritura não depende de homologação judicial e constitui título hábil para qualquer ato de registro, bem como para levantamento de importância depositada em instituições financeiras.

§ 2º O tabelião somente lavrará a escritura se os interessados estiverem assistidos por advogado ou por defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial. (BRASIL, 2015)

Considerando tais argumentos, o Conselho Nacional de Justiça determinou a revogação do Provimento n° 06/2019 e ao mesmo tempo emitiu recomendação a todos os Tribunais de Justiça e Corregedorias Estaduais, para que estes não editassem atos semelhantes que visassem a regulamentar o divórcio impositivo ou unilateral. E, no caso de haver sido editado tal norma, deveria ser procedida sua imediata revogação (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2019). Por isso, o legislativo passou a se preocupar com o assunto, buscando uma solução a ser

aplicada em nível nacional, elaborando o Projeto de Lei nº 3.457/2019, com o objetivo de regulamentar o divórcio impositivo ou unilateral.

4.5 PROJETO DE LEI Nº 3.457/2019 QUE TRATA DO DIVÓRCIO IMPOSITIVO E A NECESSIDADE DE ALTERAÇÃO DAS LEIS NºS 8.935/1994 E 6.015/1973

O Senador Rodrigo Pacheco, do Estado de Minas Gerais, apresentou o Projeto de Lei n° 3.457/2019, sugerindo a inserção do artigo 733-A, ao Código de Processo Civil, buscando positivar o divórcio impositivo ou unilateral do ordenamento jurídico brasileiro (SENADO FEDERAL, 2019). Referido projeto, que ainda está em tramitação, na Comissão de Constituição e Justiça, traz a seguinte redação:

Art. 1º. Acrescente-se o art. 733-A à Lei nº. 13.105, de 16 de março de 2015 - Código de Processo Civil, passando a vigorar com a seguinte redação:

Art. 733-A. Na falta de anuência de um dos cônjuges, poderá o outro requerer a averbação do divórcio no Cartório do Registro Civil em que foi lançado o assento de casamento, quando não houver nascituro ou filhos incapazes e observados os demais requisitos legais.

§ 1º. O pedido de averbação será subscrito pelo interessado e por advogado ou defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do ato notarial.

§ 2º. O cônjuge não anuente será notificado pessoalmente, para fins de prévio conhecimento da averbação pretendida. Na hipótese de não encontrado o cônjuge notificando, proceder-se-á com a sua notificação editalícia, após insuficientes as buscas de endereço nas bases de dados disponibilizadas ao sistema judiciário. § 3º. Após efetivada a notificação pessoal ou por edital, o Oficial do Registro Civil procederá, em cinco dias, à averbação do divórcio.

§ 4º. Em havendo no pedido de averbação do divórcio, cláusula relativa à alteração do nome do cônjuge requerente, em retomada do uso do seu nome de solteiro, o Oficial de Registro que averbar o ato, também anotará a alteração no respectivo assento de nascimento, se de sua unidade; ou, se de outra, comunicará ao Oficial competente para a necessária anotação.

§ 5º. Com exceção do disposto no parágrafo anterior, nenhuma outra pretensão poderá ser cumulada ao pedido de divórcio, especialmente alimentos, arrolamento e partilha de bens ou medidas protetivas, as quais serão tratadas no juízo competente, sem prejuízo da averbação do divórcio. (NR)

Art. 2º. Esta lei entra em vigor no prazo de sessenta dias a contar de sua publicação. (SENADO FEDERAL, 2019).

Verifica-se que o projeto apresentado guarda estreita semelhança com o Provimento editado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, não realizando grandes alterações ou consequências práticas. A única exceção seria que o projeto apresentado não faz previsão expressa à possibilidade de as pretensões acessórias ao divórcio serem pactuadas por escritura pública. No entanto, como ainda está em fase de tramitação, poderá vir a passar por mudanças que incluam expressamente esta possibilidade.

Na exposição de motivos do Projeto de Lei, o Senador afirma que o objetivo da proposta é simplificar os procedimentos para o divórcio administrativo, adicionando a modalidade litigiosa que independe de escritura pública, podendo ser requerida diretamente no Cartório de

Registro Civil das pessoas naturais, por um só dos cônjuges, ainda que com a oposição do outro. Considera, ainda, que se trata de objetivo a ser alcançado a luz do que se espera do atual ordenamento jurídico, em momento de sobrecarga do Judiciário e de busca por medidas que desburocratizem os processos e procedimentos (SENADO FEDERAL, 2019).

Destaca-se que em 10/03/2020, o Senador Marcos Rogério, designado relator do Projeto na Comissão de Constituição e Justiça, apresentou parecer recomendando duas emendas ao Projeto, realizando uma alteração nos parágrafos 1° e 4° e retificando a ementa do Projeto conforme se demonstra:

Dê-se a seguinte redação aos §§ 1º e 4º do art. 733-A proposto para a Lei no 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), na forma do art. 1o do Projeto de Lei no 3.457, de 2019:

Art. 1º. [...] Art. 733-A. [..]

§ 1º O pedido de averbação será subscrito pelo interessado e por advogado ou defensor público, cuja qualificação e assinatura constarão do requerimento. [..]

§ 4º Se houver, no pedido de averbação do divórcio, clausula relativa à alteração do nome do cônjuge requerente, em retomada do uso do seu nome de solteiro, o oficial do Cartório de Registro Civil que averbar o ato também anotará a alteração no respectivo assento de nascimento, se de sua unidade, ou, se de outra, comunicará ao oficial competente para a necessária anotação. [..] (SENADO FEDERAL, 2020). Dê-se à ementa do Projeto de Lei nº 3.457, de 2019, a seguinte redação: Acrescenta o art. 733-A à Lei no 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), para dispor sobre o divórcio impositivo por via administrativa (SENADO FEDERAL, 2020).

Observa-se que as alterações foram no sentido de modificar a expressão “do ato notarial” por “do requerimento” no final do parágrafo 1°, do artigo que se pretende inserir no Código de Processo Civil. Quanto a esta mudança, entende-se correta pois de acordo com o próprio projeto, para a obtenção do divórcio impositivo será formulado um requerimento diretamente ao Oficial de Registro Civil. Outra alteração é a substituição da expressão “Oficial de Registro” por “Oficial do Cartório de Registro Civil”, presente no parágrafo 4°, do mesmo artigo, por motivos de correção da técnica legislativa. Por fim, modificou-se a ementa do Projeto para que ela exponha de modo claro e conciso o objeto da lei (SENADO FEDERAL, 2020)

Ademais, destaca-se a necessidade de se alterar a Lei dos Registros Públicos (Lei 6015/1973) e a Lei dos Cartórios (Lei 8935/1994) para que se inclua a expressa previsão de competência aos Registros Civis das Pessoas Naturais para proceder a essa nova modalidade de divórcio que se busca inserir no ordenamento jurídico brasileiro, visto que como é uma inovação jurídica, mencionadas leis que regulam a atividade cartorária brasileira não contem disposições acerca deste procedimento (LIMA, OLIVEIRA, 2019).

No entanto, o parecer do relator ainda não foi apreciado pelos demais membros da Comissão e após a tramitação do Projeto nesta, ainda poderá passar por outras Comissões até

chegar ao Plenário para ter votação final, antes de ser encaminhado à Câmara dos Deputados, onde passará por tramitação parecida, sendo que em cada uma dessas etapas de discussão o projeto poderá sofrer modificações até o final do processo legislativo.

4.6 ENTENDIMENTOS DOUTRINÁRIOS ACERCA DO RECONHECIMENTO DO DIVÓRCIO IMPOSITIVO OU UNILATERAL E SEUS EFEITOS PRÁTICOS

Por ser um assunto novo no ordenamento jurídico brasileiro, visto que sua discussão se iniciou a partir do Provimento editado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, em meados de 2019, ainda não há grande produção acadêmica e doutrinária sobre o tema. Por isso, destacam-se os principais posicionamentos dos juristas em artigos publicados nos principais periódicos e portais jurídicos do país. Verifica-se que não há consenso entre as opiniões destacadas sobre a viabilidade e a possibilidade de inserção do divórcio impositivo no ordenamento jurídico brasileiro.

Na corrente favorável, Simão e Delgado (2019) ensinam que assim a constituição do vínculo conjugal e seu desfazimento são atos de autonomia privada, devendo ser respeitados; assim como não se exige intervenção judicial para o casamento, não se deve exigir no caso de sua dissolução, como segue:

Se não se exige prévia intervenção judicial para o casamento, por que razão haver-se- ia de exigir tal intervenção para dissolução do vínculo conjugal. Tanto a constituição do vínculo como o seu desfazimento são atos de autonomia privada e como tal devem ser respeitados, reservando-se a tutela estatal apenas para hipóteses excepcionais. Entretanto para que os cônjuges possam lavrar a escritura de divórcio, precisam entrar ‘em acordo’. O artigo 733 do CPC atual prevê que somente o ‘divórcio consensual, a separação consensual e a extinção consensual de união estável poderão ser realizados por escritura pública’. Portanto, as regras legais atuais exigem que a escritura seja subscrita obrigatoriamente por ambos os cônjuges, e isso nem sempre é possível. Um dos cônjuges pode se negar a concordar com o pedido de divórcio até mesmo por capricho ou por receio de uma atividade violenta do outro. Também são comuns as situações em que um dos cônjuges se encontre em local incerto e não sabido.

No mesmo sentido, Santos Junior (2019) afirma que a instituição do divórcio impositivo no ordenamento jurídico cria um mecanismo que desburocratiza a dissolução do casamento trazendo um rito mais célere e simples. Caberia ao judiciário apenas a apreciação de questões acessórias ao próprio divórcio, caso os cônjuges não obtenham acordo e determinem outras pretensões por escritura pública, o que certamente reduziria o número de demandas e traria mais dinamismo às varas de famílias.

Por sua vez, Brito (2019) entende que a construção deste novo instituto se alinha à corrente que admite ser o divórcio, após Emenda Constitucional nº 66/2010, direito potestativo de qualquer das partes, não sendo necessário a concordância expressa do outro cônjuge, quanto

a questão do divórcio em si. No atual panorama do Direito de Família, não se admite mais a famosa expressão de que “não vai se dar o divórcio”, ou seja, as pessoas são livres e não podem submeter-se a vontade de outra nas construções das relações de afeto.

Tartuce (2019), um dos idealizadores do Projeto de Lei apresentado pelo Senador Rodrigo Pacheco, afirma que: “Espera-se que o Projeto de Lei siga adiante, e com especial atenção do Congresso Nacional quanto à sua imperiosa agilidade e pertinência, diminuindo formalidades que ainda persistem no sistema jurídico brasileiro e facilitando a vida das pessoas.”

Em linha contrária, encontra-se posicionamentos adotando críticas negativas ao divórcio impositivo. Nessa perspectiva, Oliveira (2019) entende que o divórcio impositivo viola a regra contida nos arts. 733 e 731, do Código de Processo Civil, uma vez que permite a disposição unilateral no sentido de deixar a partilha de bens para momento posterior. Ora, o outro consorte poderá ter interesse na imediata partilha de alimentos. Ainda, por ser um ato unilateral, o divórcio impositivo de certa forma pode cercear o cônjuge requerido na medida de que o impede de formular pretensões que podem ser a ele prejudiciais, caso não reconhecidas antes da decretação do fim do vínculo conjugal.

Por sua vez, Costa Filho e Albuquerque Junior (2019) afirmam que o divórcio unilateral extrajudicial impossibilita que o outro cônjuge venha a formular pretensões que têm de ser conhecidas anteriormente à decisão de dissolução do casamento, podendo prejudicá-lo, conforme explicação:

É preciso observar, ainda, que o divórcio unilateral desjudicializado, por ser exercido sem a presença do outro cônjuge interessado, impossibilita que este venha a formular

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