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SUMÁRIO

1. HUMANISMO, INTERDISCIPLINARIDADE E FORMAÇÃO NOS CURSOS DE DIREITO

1.3 Conceito de Humanismo e de Interdisciplinaridade

Por tudo o que pudemos analisar até este instante, torna-se importante desvelar o que representa, para nós, o sentido de humanismo.

Os assuntos elencados até o presente momento nos permitem uma compreensão de que as ciências, inclusive a ciência do Direito, são campos do saber que não têm finalidade se apreendidas como objetos autônomos, desligados dos fatos do mundo. As ciências, ao mesmo tempo que permitem um conhecimento racional e fundamentado dos mais diversos problemas humanos, também correm o risco de se perderem em sua própria identidade se não forem dotadas de uma conexão com os anseios da sociedade.

A exemplo do que manifestamos quando optamos pela conceituação de Direito e da Ciência do Direito, visualizamos que o ensino das letras frias que compõem o Direito, pode representar uma falsa percepção de devida formação científica, pois o Direito desvinculado da realidade é apto a se tornar capaz de legitimar a desumanidade, a indiferença, o desprezo pela pela multiculturalidade, com minimização de seus benefícios sociais ou, ainda, pode resultar em uma falsa percepção de se ter atingido o seu objetivo quando, verdadeiramente, possa ter se tornado método de controle e de regressão de conquistas sociais.

Assim, na mesma importância das ciências está a necessidade de considerar-se o objetivo de servir ao homem. Assim, as ciências fomentam o progresso humano, mas deve-se ter a cautela de evitar desvirtuamentos para abstrações desnecessárias e incompatíveis com a realidade social.

Essas primeiras observações foram inspiradas nos aspectos renascentistas que tivemos a oportunidade de demonstrar. Talvez o elemento que mais nos influencie seja a busca dos

renascentistas em utilizar a economia, a filosofia, as artes, as músicas e outros campos do saber humano para reconhecer o valor humano e nortear suas condutas em prol de sua evolução.

São os elementos de reconhecimento e fomento do ser humano que permitirão a formulação de uma concepção humanista que se espera ver aplicado às ciências, em particular à ciência do Direito. E, como base nestes ensinamentos, entendemos que humanista (ou humanismo) é toda a conduta que leve em consideração o ser humano, suas necessidades e aspirações, auxiliando-o a tornar-se melhor e mais livre. Por ser humano melhor, entendemos um ser humano mais consciente, mais crítico, mais ligado às questões sociais que rodeiam o seu viver e apto a desenvolver evolutivamente seu projeto de vida.

Em relação à liberdade humana, não utilizamos essa concepção relativamente ao direito de se deslocar para locais outros, mas sim em um duplo aspecto: 1) a liberdade no sentido de ausência de privações, de forma que cada um possa ter sua autonomia, sua independência, sem sofrer limitações em sua saúde, em sua alimentação, em sua moradia, em seu estudo ou em sua constituição familiar. Neste aspecto, assim, significa o libertar-se de condições que não lhe permitam viver com a devida dignidade; 2) a liberdade de se autodeterminar-se, ou seja, obter o conhecimento científico que lhe proporcione condições de definir a melhor forma de direcionar seus desígnios, sua própria vida, seu futuro, com independência, deixando de ser um ser submisso para se tornar um ser capaz de traçar seu próprio destino, com conhecimento suficiente para reconhecer-se não como um ser isolado no mundo, mas um membro de uma cultura e de uma sociedade, sobre as quais pode conceder efetiva parcela de contribuição.

Este estudo, a par do aspecto humanista, também tem seu foco em uma concepção interdisciplinar do ensino do Direito, situações que se mostram complementares. Todavia, para o desenvolvimento do que seja um ensino jurídico interdisciplinar, conveniente analisar preliminarmente o que se entende por interdisciplinaridade.

A formação do conhecimento pela junção de saberes diversos, que é a base da interdisciplinaridade, não é algo novo nas sociedades. Desde a Antiguidade, já era praticada. Apenas o seu maior estudo e a sua nomenclatura são elementos contemporâneos.

Não é linear a busca de uma teoria sobre interdisciplinaridade. Fazenda (2012, p. 17), explanando essa impossibilidade, aponta a necessidade de se analisar o movimento que os estudiosos do tema imprimiram nas décadas de 1970 a 1990 ao assunto e que moldaram a visão que hoje temos. A autora ainda aponta que o grande desafio de todo estudo interdisciplinar, em qualquer de suas épocas, é o que convencionou chamar de “crise das ciências”, assim entendida a dicotomia existente entre ciência/existência, entre a necessidade de a interdisciplinaridade

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efetivamente propiciar a uma ciência que vá ao encontro da existência humana, e isso se agrega ao intuito humanista desenvolvido em todo esse estudo.

A discussão mais incisiva sobre interdisciplinaridade iniciou-se no continente europeu, em meados da década de 1960 e início da década de 1970, movidos sobretudo pelos estudantes franceses e italianos que exigiam um novo papel das universidades. Segundo Fazenda (2012, p. 19):

Esse posicionamento nasceu como oposição [...] à alienação da Academia às questões da cotidianeidade, às organizações curriculares que evidenciavam a excessiva especialização e a toda e qualquer proposta de conhecimento que incitava o olhar do aluno numa única, restrita e ilimitada direção, a uma patologia do saber.

Podemos considerar, portanto, que a busca da interdisciplinaridade pelos estudantes europeus incluía a busca de um ensino humanista, que fugisse da ciência multipartida e alienada para uma ciência inclusiva, convergente e atenta aos anseios e realidades sociais. O intuito, portanto, era que as disciplinas universitárias passassem a conversar entre si, aprender umas com as outras, engrandecendo-se e, com isso, reconhecer e debater os problemas sociais, apresentando sugestões de soluções aos anseios coletivos.

Apesar desta luta universitária, segundo Fazenda (2012, p. 22) a década de 1970 foi o período em que a interdisciplinaridade se encontrava ainda incipiente, em período de descoberta de seu conceito, de sua explicitação terminológica. E, ainda conforme a autora, o que se teve claro foi o objetivo deste novo método de visualizar o ensino científico:

A interdisciplinaridade não seria apenas uma panaceia para assegurar a evolução das universidades, mas, um ponto de vista capaz de exercer uma reflexão aprofundada, crítica e salutar sobre o funcionamento da instituição universitária, permitindo a consolidação da autocrítica, o desenvolvimento da pesquisa e da inovação.

As contribuições que esta década deixou para o ensino interdisciplinar não se limitaram aos pontos destacados, mas incluíram a observação pertinente de que a interdisciplinaridade não se resume a um ponto de vista de ensino e pesquisa, pois modifica a própria forma de formarem-se os professores e pesquisadores, bem como resulta em um método diferenciado de trabalho em prol da sociedade, perante as atitudes interdisciplinares.

Retornando a Fazenda (2012), os anos 80 foram marcados pela necessidade de delimitar a conceituação de interdisciplinaridade, haja vista a multiplicidade de conceitos surgidas na

década anterior, muito em virtude do modismo criado na utilização indevida da terminologia e sua utilização, inclusive, como forma de minar direitos dos alunos, dos cidadãos e da autonomia dos professores.

E, por fim, a década de 1990 foi marcada, também segundo a autora, pelo ápice da contrariedade na proliferação indiscriminada das práticas intuitivas envolvendo equivocadamente a interdisciplinaridade. O próprio conceito de ciência restou modificado para englobar a consciência interdisciplinar, com adoção de projetos educacionais interdisciplinares sem o devido critério científico.

Em contribuição à compreensão da necessidade do estudo interdisciplinar em toda ciência, Azevedo (1967) nos informa que é a interdisciplinaridade o caminho para demonstrar que a ciência, seja ela qual for, possui unidade. Ainda segundo o autor, ao se deparar com uma única ciência que contenha disciplinas de ampla disparidade, senão contraditórias, é o caminho da interdisciplinaridade que propicia conhecer a unidade, ou, em uma expressão por ele utilizada, a unidade na diversidade. É pelo estudo interdisciplinar que as diversas disciplinas, ou mesmo diversas ciências, vêm mitigar seus pontos de conflito, estabelecendo entre si seus meios de comunicação e aperfeiçoamento. Essa unidade na diversidade permite mostrar, ainda segundo Azevedo (1967, p. 115), que:

[...] no ensino e na pesquisa, as influências mútuas que exerceram umas sobre as outras, a evolução de conjunto que dominou todas as evoluções especiais, as conexões íntimas entre as partes em que se decompõe pedagogicamente todo o conhecimento humano [...]

E, analisando o que lhe parece ser o objetivo maior da interdisciplinaridade, afirma Azevedo (1967, p. 115) que seria ele o: “[...] esforço criador e unificador, que tende a reduzir a multiplicidade desconcertante de conhecimentos à bela unidade de uma ideia de conjunto”.

Desta forma, por interdisciplinaridade podemos compreender um comportamento capaz de permitir a compreensão mútua, ininterrupta e integradora entre diversos ramos de um conhecimento, ou de conhecimentos diversos, visando obter conhecimentos novos que engrandecerão o conhecimento científico humano até então desenvolvido. É um comportamento ativo que não se limita ao estudo de disciplinas isoladas, mas que obriga à integração entre todas elas, sem o desrespeito a autonomia de cada uma. Não se pretende a unificação disciplinar ou o próprio surgimento de disciplinas novas. Estas podem até vir a ocorrer, mas não é o intuito principal de uma pesquisa interdisciplinar. O que ensina, enfim, a interdisciplinaridade é que devemos buscar aos pontos de sincronia e de assincronia entre as

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disciplinas, no intuito não de eliminá-las, mas de engrandecê-las, de fornecer-lhes informações advindas de outras disciplinas que possam ajudá-las em seu desenvolvimento. Agindo com este método interdisciplinar, a formação de um conhecimento se torna arejado, dinâmico e renovado, bem como não se limita a facetas monocromáticas de uma única esfera do saber. É a inquietação do espírito do cientista que deve propiciar a busca interdisciplinar, pois esta conduta inspirará a renovação científica.