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3 Quadro teórico-conceitual

3.3 Conceito de lugar

O conceito de lugar expressa significâncias variadas de acordo com o enfoque teórico a ser utilizado, visto que, onde for estabelecida relação de significado, existe um lugar e, onde ocorrem vestígios da ação humana, há lugares intencionalmente marcados mais facilmente percebidos por nós, mas também aparecem outros lugares não marcados concretamente. Dessa forma, os lugares não são apenas uma superfície onde ocorrem ações, ou pontos demarcados no espaço, ou seja, eles são a “conjunção de uma série de elementos, tanto internos quanto externos ao sujeito, ao mesmo tempo um local físico e um centro de significados” (TILLEY 1994, apud CABRAL, 2005, p. 88-9) e esse espaço é transformado em lugar quando é envolvido pela ação humana, não precisando ser necessariamente fisicamente transformado, em outras palavras, um espaço se transforma em lugar a partir do momento em que é envolvido, direta ou indiretamente, pelas ações humanas:

O produto da interação do homem com o meio é o que faz o lugar porque, na sua ausência, o lugar é sítio de características físicas, às quais o homem não criou relação emotiva e simbólica. Assim, o simbolismo do lugar representa não só as características físicas do mesmo como também uma transformação no interior do homem que permite a atribuição de um significado mítico, transformando-o num lugar significante (FERRO, 2004, p. 15).

Um desses conceitos de lugar significante relacionados ao uso da paisagem menciona os chamados “lugares persistentes”, que seriam locais com ocupações espaciais prolongadas de forma repetitiva, diacrônica, em função de certas peculiaridades (históricas, econômicas, políticas, sociais, religiosas ou culturais) que se refletiriam na distribuição e formação do registro arqueológico (SCHALANGER, 1992). São lugares dotados de significâncias e intencionalidades, onde o seu significado pode, em princípio, residir onde estiver a paisagem e sua intencionalidade “é fixada nela através da ação humana, mas ambos são investidos em lugares específicos” (TILLEY, 2004, p. 78).

Os “lugares persistentes”, segundo Schalanger (1992), teriam uma classificação preliminar a partir de determinadas características observadas, tais como: a) certas particularidades do local que o fazem singular e requisitado para certas atividades,

práticas ou comportamentos; b) existências de certas características que os tornam focos de seguidas reocupações; c) existência de matéria-prima, cultura material ou estruturas (de qualquer tipo) de outras ocupações que podem ser reutilizadas.

Especificamente com relação ao último tópico, uma oferta abundante de matéria- prima aliada à existência de estruturas (depósitos naturais de água) que facilitassem determinadas atividades culturais, como atividades de lascamentos, poderiam perfeitamente criar as condições adequadas em termos de repertório tecnológico para as locações intensivas e prolongadas desses espaços ambientais (lugares persistentes), pelos grupos pré-históricos.

Além disso, outras características também podem ser consideradas para conceituação desses lugares de uso continuado (lugares persistentes), tais como: feições geomorfológicas adequadas que permitam assentamentos de grupos ou com potencial topográfico de acesso de um local para outro, feições paisagísticas peculiares que potencializem a economia do grupo ou que estejam associadas ao comportamento simbólico grupal, tais quais cachoeiras ou cavernas (SILVA-MÉNDES, 2007).

Dessa forma, ao ser priorizado o conceito de lugar, deve-se observar a união entre sítios, não sítios e espaços topográficos para a compreensão da paisagem, agregando aspectos biológicos, minerais e arqueológicos em um determinado espaço, através de estudos sobre geologia, geomorfologia, microclima, dos processos e índices de erosão e deposição sedimentar, numa dimensão geoecológica ou biogeográfica e como o homem teria ocupado esse espaço por períodos cronológicos sucessivos, suas estratégias de mobilidades e relações espaciais; enfim, como esses grupos se apropriavam ativamente da paisagem em função de suas necessidades socioculturais.

Portanto, a definição do termo lugar é intrínseca a uma releitura de variadas definições “processual ou sistêmica”, quanto “pós-processuais”, através de uma ampliação da noção de sítios arqueológicos e suas relações inter e intrassítios, abrangendo pesquisas multidisciplinares nos campos da geologia, geomorfologia, paleoambiente, pedologia, fauna e flora.

A partir do conceito de lugar de Binford e de lugares persistentes de Schalanger e partindo do pressuposto de que grupos pré-históricos percorriam diferentes espaços no meio físico-biótico motivados por uma série de questões, mas dentro de marcos

paisagísticos que, mesmo que fluidos, demarcavam seus espaços sociais, é possível

observar a paisagem arqueológica como uma construção social (FAGUNDES; PIUZANA, 2010).

Essa paisagem é socialmente construída, não é passiva e não pode ser vista simplesmente como uma fonte de busca de recursos e locais para estabelecimento de sociedades (BOAST, 2005) e é a partir da relação entre coisas, pessoas e paisagens que contextos diferenciados são criados, permitindo novas alternativas de interpretação:

(...) podemos considerar que os lugares, entendidos como subconjuntos da paisagem, fazem parte da rede de significação cultural e, por isso, as repetições do uso destes permitem a enumeração de recorrências (e variabilidade), que cooperaram para o estabelecimento de uma série de hipóteses à formulação de modelos de ocupação no passado (...). Logo, compreender os “lugares” significa ampliar nossas análises de forma a inferirmos sobre os meios pelos quais os grupos pré-históricos estruturavam suas estratégias de mobilidade, utilizavam diferentes espaços para a realização das tarefas cotidianas, enfim se apropriavam ativamente da paisagem em função de suas necessidades socioculturais e econômicas que foram sendo delineadas em meio à dinâmica cultural (FAGUNDES, 2008, p. 7).

Nesse aspecto, a arqueologia da paisagem tem como um dos objetivos principais a análise do quadro de interação desses grupos humanos com o meio ambiente enquanto uma “totalidade social”, buscando por meio do fator geográfico “uma pormenorização dos elementos que integram a paisagem com vistas à compreensão das inter-relações com as sociedades” (MORAIS, 1999a, 2000b apud PÓVOA, 2007, p. 61).

A paisagem passa então a ser percebida como um produto cultural e histórico de um dado grupo sobre a qual existe uma rede de interações e todo um universo de elementos que são transmitidos de geração a geração (MORALES, 2005), pois “é a atividade cultural e de conhecimento cultural que dá sentido a determinados espaços na paisagem e que os torna ‘lugares’” (RODNING, 2010, p. 182).

Com essa abordagem de visão da paisagem como uma construção social, aliado ao conceito de estabelecimento ou assentamento17 de Mauss (1974), e um processo

17 Conforme o estudo de Marceu Mauss sobre a morfologia social, esquimó seria “(...) a ciência que estuda, não apenas para descrevê-lo, mas também para explicá-lo, o substrato material das sociedades, isto é, a forma que elas ostentam ao se estabelecerem no solo, o volume e a densidade da população, a

reflexivo através de cruzamento de dados, métodos e paradigmas, foi possível elaborar uma perspectiva de análise de um modelo de uso da paisagem na dinâmica de um sistema regional de assentamento (Quadro 3:1), que aparentemente tem um formato linear seguindo conceitos como artefatos – concentrações/associações e estruturas – fatores relacionais – sítios arqueológicos – estabelecimentos – lugares persistentes – sistema de assentamento – paisagem, mas deve ser analisada em sentido holístico, sem graus de hierarquização entre eles (FAGUNDES, 2010).

Quadro 3:1 – Fenômenos observados e constituição do pensamento reflexivo em arqueologia

Fenômeno Níveis Categorias interpretativas Categorias interpretativas

Conjuntos artefatuais Forma/função

Técnica Estatístico-Comparativo Dimensões: sociológica, histórica e fisiopsicológica. Método Cadeia operatória

Teoria Organização social e tecnológica como integrante do fato social total Sítios

arqueológicos (estrutura)

Técnica Decapagens níveis artificiais Análises intrassítios Processos formativos Método Superfícies amplas

Teoria Dinâmica cultural baseada no princípio de mudança em termos espaço-temporais

Paisagem (processo)

Técnica Observação e levantamentos sistemáticos Forma, função Estrutura e processo Conceito de estabelecimento (assentamento) Conceito de lugares persistentes/geoindicadores Método Geoindicadores (direto)

Etnoarqueologia (indireto)

Teoria Paisagem como construção social (fenômeno a ser analisado e interpretado)

Fonte: Fagundes (2010, p. 218)

A partir dessa forma de pensar a paisagem arqueológica e da definição de lugar, é possível tentar compreender as inter-relações entre grupos humanos e paisagem, visando levantar hipóteses acerca do uso social dos espaços, função dos sítios, mobilidade e sistema regional de assentamentos que permitam a investigação e a interpretação de causas processuais da estabilidade e mudanças dos sistemas culturais (BINFORD, 1982, 1992; SCHLANGER, 1992).

maneira como esta se distribui, bem como o conjunto das coisas que servem de base para a vida coletiva”

A paisagem passa a ser então um “produto socializado e o termo “paisagem arqueológica” é, em grande parte, uma criação da arqueologia” (BERTRAND, 2007, p. 43), onde essa visão da paisagem é cultural e compartilhada pelos grupos sociais que a utilizam, pois está composta por locais que estão relacionados no tempo e no espaço por um sistema de atividades, cuja utilização vai além das necessidades de sobrevivência, como área de assentamento, captação de recursos e expressão simbólica, exibindo múltiplas possibilidades de utilização e interpretação (HODDER, 1986).

Para efetivação desse modelo de uso da paisagem será necessário seguir algumas etapas metodológicas que permitam extrair dados do geossistema a partir dos componentes abióticos (litosfera, atmosfera e hidrosfera que formam o geoma), componentes bióticos (fitomassa e zoomassa) e componentes antrópicos que evidenciem a ocupação desses espaços e lugares persistentes pelos grupos pré- históricos. Daí a necessidade de utilizar parâmetros da geoarqueologia18 no trabalho arqueológico.