2.1 Ciberpecado: o inferno da rede
2.1.1 Conceito de pecado
O pecado é um conceito de transgressão de caráter moral e religioso presente em quase todas as tradições religiosas do mundo, de forma especial, no judaísmo e no cristianismo.146 Ele consiste num ato humano consciente e desordenado, o qual recebe uma qualificação moral negativa. Santo Agostinho também o definia como “coisa feita, dita ou desejada contra a lei eterna”147 que gera um “afastamento de Deus e aproximação das criaturas”148. O Antigo
Testamento busca mostrar as diversas maneiras que o ser humano pode se desviar do caminho de Deus. Para a tradição judaica, o pecado consiste no não cumprimento dos mandamentos de Deus e não honrá-lo em suas ações, podendo ser realizado de forma consciente ou inconsciente. Em todos os casos, o pecado sempre precisa de reparação.149
O Novo Testamento utiliza o termo harmatia para designar seja um ato pecaminoso, seja a condição humana, ou ainda, um poder personificado. A principal mensagem neotestamentária relacionada ao pecado é à salvação realizada em Cristo e oferecida a todos, não somente à humanidade, mas à criação como um todo. Este ponto mostra algo importante: as faltas ou acertos, maldades ou bondades, nunca são apenas individuais, elas são sempre sociais. Como Paulo nos demonstra: “[...] assim como pela falta de um só homem resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens a justificação que traz a vida” (Rm 5, 18).
Na teologia paulina, o pecado humano é perdoado pelo sacrifício de Cristo, dando ao ser humano uma vida nova. Os Evangelhos, especialmente em Lucas, enfatizam o batismo, isto é, o ingresso na comunidade dos que creem em Jesus que possibilita aos fiéis receber a herança filial e ser purificados dos pecados. O amor que liga Jesus ao pecador é o sinal e o que torna possível o perdão.150 Na Igreja primitiva percebem-se traços da teologia do Antigo Testamento e da paulina no sentido da dimensão social do pecado: não é somente o indivíduo que peca ou
146 ROSSI, T. Pecado. In: Lexicon, p. 579.
147 AGOSTINHO (Contra Faust., 1, XXII, c. 27) apud ROSSI, T. Pecado. In: Lexicon, p. 580. 148 AGOSTINHO (De lib. Arb.1, I, c. 6) apud Ibidem, p. 580.
149 WILLIAMS, R. Pecado. In: Dicionário Crítico de Teologia, p. 1366. 150 Ibidem, p. 1367.
sofre as consequências do pecado, mas toda a comunidade é manchada pela falta de um de seus membros.151
Os teólogos modernos, influenciados pelo existencialismo, retomam a visão paulina segundo a qual, antes da escolha pessoal de cometer o mal, existe uma atmosfera que nos aprisiona e que perverte nossas escolhas. Na teologia política e nas teologias da libertação usa- se o conceito de pecado estrutural para abordar tanto os atos individuais negativos quanto o contexto humano em que o pecado ocorre como consequência de pecados sociais como a injustiça, o desemprego, a corrupção. Nisso se percebe que o pecado humano é sentido por todas as pessoas em todos os lugares, prejudicando nosso ser integralmente, nas dimensões emocional, física, moral, social e espiritual.152
Na cultura secular, o sentido comum da palavra “pecado” mudou, bem como as variações de seu emprego. O que não muda é sua interpelação na vida humana.153 José-Román Flecha tem a impressão de que o ser humano atual procura ceder suas decisões últimas à “serpente”, a um mundo baseado na tecnocracia, isto é, ditado pela tecnologia, que permite ao homem abandonar sua responsabilidade pessoal sobre a sociedade às determinações mecânicas de um mundo irracional.154 Então, os pecados mais corriqueiros na era digital são a alienação,
a acomodação, a preguiça, a falta de esperança. O pecado conturba as relações com o próximo, com a comunidade de homens e mulheres, seja ela física ou virtual, e com Deus.
Existem várias distinções e classificações de pecado conforme a gravidade, a origem, a forma, entre outros aspectos, que foram elaboradas no decorrer dos séculos. Aqui se abordará apenas o pecado pessoal ou individual e o pecado estrutural, que alguns autores associam ao pecado social. O pecado pessoal consistiria numa disposição contínua da liberdade, exercida como rejeição da comunhão entre o ser humano e Cristo e como encerramento do indivíduo em si mesmo tendo por consequência a perda do sentido.155
Quando o homem olha para dentro do próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal [...]. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu princípio, perturbou também a devida orientação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a sua ordenação quer para si mesmo, quer para os demais homens e para toda a criação.156
151 WILLIAMS, R. Pecado. In: Dicionário Crítico de Teologia, p. 1368. 152 Ibidem, p. 1370.
153 FLECHA, J-R. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 333. 154 Ibidem, p. 336.
155 Ibidem, p. 354.
Através do pecado, o ser humano encontra-se dividido em si mesmo. Dessa forma, toda a vida humana, seja individual ou coletiva, mostra-se como um duelo dramático entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Pois o pecado diminui a pessoa humana, impedindo-a de alcançar a sua realização integral.157
A incorporação do contexto como fator fundamental para a compreensão do pecado original acentua o efeito social de cada escolha humana para o desenvolvimento da história e para a cristificação do universo.158 Pecado estrutural, em sentido analógico, qualifica uma situação contrária à vontade de Deus. Este conceito tem relevância antropológica por explicitar tanto a essência comunitária do ser humano quanto sua identidade pessoal.159
[...] ao falar de “pecado estrutural”, queremos dizer que a maldade pessoal que o homem comete acaba também se condensando nesses fios que sustentam o fato comunitário; e não se condensa exclusivamente na história pessoal de cada um. [Todo pecador é pecador pessoal e também social]. Vale, neste sentido, a expressão agostiniana: “Todo homem é Adão”, enquanto diz que todo pecado pessoal se converte em um “pecado original originante” para o próximo.160
Em comparação com a estrutura da rede, é possível intuir que esses mesmos fios que sustentam o aspecto comunitário da rede estão sendo “encorpados” por maldades e pecados pessoais, formando o pecado estrutural da rede. Assim como as gorduras nas veias vão obstruindo o fluxo no coração que mantém o corpo vivo, as ações iníquas na rede vão impedindo a rede de ser e de exercer seu dom, causando rompimentos em vários pontos.
Faus percebe uma proximidade de sentido entre o conceito de pecado estrutural e de “pecado do mundo” que abarca todo o Evangelho de João. Outras expressões correspondentes podem ser encontradas nas Assembleias do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968, e de Puebla, em 1979, tais como “estruturas injustas”, “estruturas opressoras”, “situação de pecado” ou estruturas em que o pecado imprimiu sua marca. A Igreja da América Latina afirma que tais formas de pecado impedem as pessoas de crescer no amor e na comunhão.161
A Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia de João Paulo II considera pecado social o pecado contra o amor ao próximo, contra a justiça, contra os direitos da pessoa humana, contra a liberdade do outro, contra a dignidade e a honra do próximo, contra o bem comum e contra as suas exigências, além da cumplicidade e da omissão de todos que podem fazer algo para melhorar a sociedade e não fazem, principalmente da parte dos dirigentes políticos,
157 IGREJA CATÓLICA. Gaudium et Spes, n. 13.
158 FLECHA, J-R. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org.). Ética Teológica, p. 347. 159 FAUS, J. I. G. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org.). Ética Teológica, p. 365. 160 Ibidem, p. 366.
econômicos e sociais.162 João Paulo II acreditava que tais pecados sociais são fruto do acúmulo de muitos pecados pessoais.
Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, ou eliminar, ou pelo menos limitar certos males sociais, deixa de o fazer por preguiça, por medo e temerosa conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura escusas na pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem pretende esquivar- se ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de ordem superior. As verdadeiras responsabilidades, portanto, são das pessoas.163
Esse pensamento mostra que a crueldade das estruturas se constitui como um legítimo pecado, pois sua edificação está sob a responsabilidade pessoal de cada indivíduo, criando uma verdadeira solidariedade no pecado.164 O Concílio Vaticano II já refletia sobre os efeitos das más ações pessoais para o corpo social: “Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”.165 A Gaudium et Spes explicita bem essa via de mão dupla: a vida do indivíduo afeta
toda a sociedade e a estrutura social causa efeitos sobre as escolhas pessoais.
[...] os homens são muitas vezes afastados do bem ou impelidos ao mal pelas condições em que vivem e estão mergulhados desde a infância. É certo que as perturbações tão frequentes da ordem social vêm, em grande parte, das tensões existentes no seio das formas econômicas, políticas e sociais. Mas, mais profundamente, nascem do egoísmo e do orgulho dos homens, os quais também pervertem o ambiente social. Onde a ordem das coisas se encontra viciada pelas consequências do pecado, o homem, nascido com uma inclinação para o mal, encontra novos incitamentos para o pecado, que não pode superar sem grandes esforços e ajudado pela graça.166
A partir disso, pode ser entendido o pecado pessoal como a ponta do iceberg que fica para fora da água, enquanto o pecado estrutural, construído pela sobreposição de inúmeros pecados pessoais, está por baixo sustentando e condicionando as más ações e novos pecados individuais. Dessa forma, pecado pessoal e estrutural formam uma única e mesma realidade.
Embora João Paulo II e outros teólogos encarem pecado social e pecado estrutural como conceitos sinônimos, Marciano Vidal faz uma leve distinção entre eles. Para ele, o canal estrutural do pecado é mais profundo que a via social, pois a estrutura está na própria raiz da vida humana, constituindo-se raiz das outras formas de pecado, enquanto que o canal social se
162 JOÃO PAULO II. Reconciliatio et Paenitentia, n. 16. 163 Ibidem.
164 VIDAL, M. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 377. 165 IGREJA CATÓLICA. Gaudium et Spes, n. 10.
consolida nas mediações sociais.167 Assim, a teologia atual procura explicar o dogma do pecado original dentro de uma orientação de solidariedade e, ao mesmo tempo, dá uma ênfase toda especial à categoria bíblica do pecado do mundo.168
Neste estudo sobre o pecado na rede, se quer mostrar que existe tanto um pecado estrutural ou “pecado original” na internet, que seria o padrão da rede escolhido e desenvolvido com características desumanizantes, quanto pecados sociais, que consistiriam nessas dinâmicas de divulgação, interação, promoção e compartilhamento de ações ou pensamentos pecaminosos. Juntos, formam um tecido de pecado, uma ‘anti-rede’, a degeneração de seus vínculos e a desvirtuação do sentido último da rede que é a união fraterna de todo o gênero humano.
Faus conta que houve dificuldade na aceitação do conceito de pecado estrutural pelos teólogos do Primeiro Mundo, sob o argumento de que só pode ser chamado de pecado aquilo que procede da plena liberdade responsável do homem. No entanto, eles não se davam conta de que essa argumentação não admitia usar a noção de “pecado original” que eles acolhiam como válida.169 Analogamente, negar o pecado estrutural é negar o pecado original.
Sendo assim, a reflexão teológica elaborou uma interpretação progressiva dos dados da Revelação sobre a essência do pecado, a relação entre pecado e pessoa e suas diferentes formas ao longo da história humana.170 Neste próximo tópico pretende-se diagnosticar o pecado e suas consequências na era da cultura digital. Esse estudo harmatiológico deve ser feito para identificar os principais tipos de pecado da pós-modernidade e suas consequências no mundo, tendo sempre em vista o plano da salvação. Dessa maneira, se reconhece o ‘ciberpecado’ para conhecer e fazer transbordar a ‘cibergraça’.