4 A PROVA PARA O PROCESSO PENAL
4.1 Conceito de prova
Após explicar a importância da prova para a tomada de decisão é necessário definir seu conceito. A palavra ‘prova’ tem origem no latim probatio, que pode ser traduzida como experimentação, verificação, exame, confirmação, reconhecimento, que dá origem ao verbo probare98.
O conceito de prova tem diversos sentidos. Em sentido comum, é tudo o que é capaz de levar ao conhecimento de um fato, de uma qualidade, da existência ou da exatidão de uma coisa99. No sentido jurídico, prova pode ser conceituada como atos e meios usados pelas partes e reconhecidos pelo juiz para buscar a verdade dos fatos imputados100. Em ambas concepções é um meio utilizado para recriar e reconstruir um fato pretérito da melhor forma possível.
96 “Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos necessários sobre um determinado assunto”. DICIONÁRIO Michaelis online. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/>. Acesso em: 11 jan. 2019.
97 O fato a ser julgado deve ser descrito na peça acusatória (denúncia ou queixa) – que “são atos processuais que formalizam a acusação”. “Cabe ao peticionário [...] descrever minuciosamente o fato, quando ocorreu, onde ocorreu, como e até porque ocorreu. O peticionário tem como obrigação a perfeita exposição do fato, cujo fito é propiciar ao denunciado ou querelado exercer amplamente seu direito de defesa, após conhecer os motivos pelos quais é acusado”. (SILVA, Marco Antonio Marques da. Código de Processo Penal comentado. São Paulo: Saraiva, 2012, p.104-105).
98 NUCCI, Guilherme de Souza. Provas no processo penal. 2.ed. São Paulo: RT, 2011, p.15.
99 ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. São Paulo: Saraiva, 1994, p.4. 100 ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. São Paulo: Saraiva, 1994, p.5.
Ou seja, a prova sempre estará vinculada a um fato que precisa ser reconstruído para ser valorado por um julgador.
Adalberto Aranha oferece um bom conceito. Para ele, a prova é o “conjunto de meios idôneos visando a afirmação da existência positiva ou negativa de um fato, destinado a fornecer ao juiz conhecimento da verdade, a fim de gerar sua convicção quanto à existência ou inexistência dos fatos deduzidos em juízo”101.
No processo penal, reconstrói-se o fato criminoso que, uma vez demonstrado, culmina com a aplicação das sanções previstas no direito penal material.
A função da prova é essencialmente demonstrar que um fato existiu e de que forma existiu ou como existe e de que forma existe. É, portanto, uma tarefa reconstrutiva, uma missão histórica do juiz [...] logo, o objetivo da prova é um só: a demonstração em juízo de um fato perturbador ou violador de um direito102.
No entendimento de Adalberto Aranha:
A experiência que nos é dada por mais de um quartel como juiz permite afirmar sem receio: é muito mais penoso e difícil julgar o fato do que o direito. O direito será sempre encontrado numa obra doutrinária ou numa interpretação jurisprudencial, dependendo apenas de um estudo mais amplo ou restrito; porém o fato jamais sairá dos autos, sem que autor algum nos ensine o resultado. Na aplicação do direito o julgador poderá fazê-lo arrimado num douto ou num antecedente jurisprudencial, estando sempre numa boa companhia; no julgamento do fato estará só com a sua consciência e, se porventura errar, o fará sozinho103.
Adalberto Aranha nos revela a dificuldade de avaliar o direito e os fatos. O direito, por ser posto, é de fácil conhecimento. Em regra, já foi estudado e aplicado em casos anteriores. O julgador se depara com farta doutrina e jurisprudência. É mais fácil aplicá-lo ao processo.
O fato, por sua vez, é sempre único. Não há doutrina alguma. Raramente haverá jurisprudência, porque cada fato criminoso apresenta suas peculiaridades. Nenhum crime é idêntico ao outro. Assim, resta ao juiz, sozinho, avaliar. Daí a importância de as partes tomarem todas as cautelas na reconstrução do crime. Cabe a eles dar o cenário para o juiz julgar.
Importante destacar que a reconstrução não se limita ao fato em si, porque, se assim fosse, uma simples filmagem seria prova suficiente para uma imediata
101 ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. São Paulo: Saraiva, 1994, p.5. 102 ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. São Paulo: Saraiva, 1994, p.5. 103 ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. São Paulo: Saraiva, 1994, p.6.
condenação. Outros aspectos devem ser verificados pelas provas. Cabe às partes trazer todos os aspectos ao processo e cabe ao julgador considerá-los104.
Para ser possível reconstruir o fato objeto do processo é necessário que a reconstrução seja realizada por meio de uma linguagem competente que, para o processo penal, é a linguagem jurídica105. Ela será uma representação do fato analisado, com a finalidade de convencer o julgador da sua ocorrência e extensão, para a aplicação da norma correspondente, após o devido processo legal.
Por isso a matéria probatória do processo penal deve ser estudada. A análise objetiva de um fato não viabiliza seu correto julgamento. O julgador deve conhecer e compreender os aspectos que levaram à prática da conduta delitiva, como, por exemplo, a própria realidade social e material do acusado.
Nesse sentido, fará diferença no julgamento, por exemplo, o motivo de um furto. Se provado que o objetivo era comprar drogas, então o julgamento deve ser diverso daquele que comprova ser a finalidade apenas “matar a fome”, pelo fato de a pessoa se encontrar em extremo estado de necessidade. No primeiro caso, o julgamento será condenatório, no segundo, absolutório pela excludente de ilicitude.
O devido processo legal, em matéria penal, deve se fundar na matéria probatória, ponto em que se torna necessário analisar o ônus probatório e a presunção de inocência e seus reflexos na produção da prova.