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PROLEGÔMENOS A UMA TEORIA DA PROVA

2.1 CONCEITO DE PROVA

Objeto, função e resultado da prova. 2.5 Destinatário da prova. 2.6 Procedimento da prova: proposição, admissão e produção. 2.7 Ônus da prova. 2.8 Prova documental, testemunhal e pericial. 2.9 Índicios, presunções e ficções. 2.10 Prova emprestada. 2.11 Provas ilícitas e atípicas. 2.12 Prova informática.

2.1 CONCEITO DE PROVA

Para compreender o conceito de prova na Ciência e na Lógica e sua

relação com a prova judiciária, é preciso distinguir a palavra prova, no campo

do Direito, de outros significados atribuídos à mesma palavra pela Ciência e

pela Lógica.

Examinado em seu sentido etimológico, o substantivo prova é

originário do latim probo, probas, probare, probatum, que significa provar, isto

é, demonstrar ou acreditar na verdade ou na certeza de um fato. Por sua vez, o

verbo probare deriva do adjetivo probus que significa bom, correto, honrado.

Então, em sentido etimológico, podemos dizer que provar é demonstrar a

verdade de uma proposição, independentemente de sua natureza.

Verifica-se que tal noção de prova transcende o campo do Direito,

na medida em que essa atividade ou resultado se encontra presente em inúmeras

manifestações da vida cotidiana e em todas as ciências, artes e técnicas.261

261 Cf. ECHANDÍA, Hernando Devis. Compendio de la prueba judicial. Buenos Aires: Rubinzal, 2000, Tomo I,

O historiador, o arqueólogo, o matemático e o físico, entre outros,

se utilizam da prova para comprovar a verdade de suas respectivas proposições,

mesmo que estas se refiram a fatos incertos. Nessa acepção, provar seria

demonstrar que um fato existiu de um certo modo, e não de outro. Como anota

Casimiro Varela, pode-se dizer, em geral, que “[...] la vida humana no puede

prescindir del pasado en cualquiera de sus manifestaciones. Así, la actividad

reconstructiva es de orden variado y se desarrolla en los diversos quehaceres de

la actividad científica. El investigador en las ramas de cualquiera de las ciencias

necesita probar los hechos, los resultados, analizando el pasado y el presente con

el fin, incluso, de deducir el futuro y desde esta óptica la noción de prueba

transciende el campo del derecho”.262

Em sentido amplo – ensina Antonio Dellepiane –, “prova é

sinônimo de ensaio, experimentação, revisão, realizados com o fim de aquilatar

da bondade, eficácia ou exatidão de algo, seja uma coisa material seja uma

operação mental, traduzida ou não em atos, em resultados”.263

Acrescenta esse autor que toda prova se reduz à confrontação de

uma coisa material (ou de uma operação mental) com outra, a fim de se

certificar a exatidão de uma delas.264

que exista una noción ordinaria o vulgar de la prueba, al lado de una noción técnica, y que esta varíe según la clase de actividad o de ciencia a que se aplique”.

262 VARELA, Casimiro A. Valoración de la prueba. 2.ed. Buenos Aires, Astrea, 2004, p. 59. 263 DELLEPIANE, Antônio. Nova teoria da prova. Rio de Janeiro: Jacintho, 1942, p. 18. 264 Id. Ib. p. 18-19.

Contudo não é bem assim. Nem sempre o “fato provado” vai ser o

resultado da confrontação (ou comparação) entre duas “coisas”. Se a premissa

de Dellepiane estivesse correta, não poderíamos admitir que o juiz pudesse

decidir uma lide em que somente uma das partes (autor ou réu) apresentasse

provas, ou seja, “o juiz deve julgar de acordo com o alegado e provado”.

Por outro lado, não podemos endossar a assertiva de Jorge L.

Kielmanovich de que essa “confrontação” seria sempre uma ação perante

terceiros.265 O destinatário da prova, como veremos adiante, tanto pode ser um terceiro (ou terceiros) quanto o próprio agente da demonstração. Há situações, p.

ex., em que tentamos convencer-nos da verdade sobre alguma coisa: um marido

que queira obter fotos que comprovem para si ou para a esposa a infidelidade

desta.

Assinala a melhor doutrina que, por meio das provas, se busca

construir uma percepção segura dos fatos, vinculante também [e não apenas]

para terceiros.266

Seria mais correto propor, como Bentham, que a prova é “un hecho

supuestamente verdadero que se presume debe servir de motivo de credibilidad

sobre la existencia o inexistencia de otro hecho”.267

265 Cf. KIELMANOVICH, Jorge L. Teoria de la prueba y medios probatorios. Buenos Aires: Abeledo-Perrot,

1996, p. 15-16.

266 Cf. DÖHRING, Erich. La prueba. Buenos Aires: Valletta, 2003, p. 21-22. No original: “Mediante el

procedimiento probatorio se busca crear una concepción del estado de los hechos que sea segura, vinculante también para terceros...”

Em sentido processual, o vocábulo prova pode ser compreendido

de várias formas, entre as quais: (i) a atividade das partes com o objetivo de

demonstrar a certeza de suas alegações ou defesas; por isso é que muitas vezes

se diz “carga da prova”, “promoção da prova”, ou até “oposição à prova”; (ii) os

meios admissíveis ou autorizados por lei para se convencer o juiz sobre os fatos

controvertidos; o que vale dizer “meios de prova”, “prova legal”, prova livre” e

“prova impertinente”; (iii) o resultado ou mérito dos diversos meios empregados

para verificar os fatos de uma lide; etc.268

Certifica Hernando Devis Echandía que “La prueba tiene, pues, una

función social, al lado de su función juridica, y, como una espécie de ésta, tiene

una función procesal específica. De ahí que junto al fin procesal de la prueba …,

ésta tiene un fin extraprocesal muy importante: dar seguridad a las relaciones

sociales y comerciales, prevenir y evitar los litigios y delitos, servir de garantia a

los derechos subjetivos y a los diversos status jurídicos.” 269

Segundo Mario Conte, “con il termine prova si indica,

comunemente, quello strumento processuale che ogni parte deve fornire per

sostenere la fondatezza della propria posizione processuale in un giudizio”.270

268 Deve-se creditar essa classificação a Fernando Villasmil Briceño. (BRISCEÑO, Fernando Villasmil. La

Teoria de la Prueba. 2.ed. Caracas: Paredes, 1992, p. 12.) Palacio afirma que a expressão provas judiciais tem três acepções distintas: “Una de ellas denota la actividad que se despliega durante el transcurso del proceso por obra de las partes y del órgano judicial, y que tiene genéricamente al logro de la certeza psicológica sobre la existencia o inexistencia de los hechos afirmados. Otra se refiere al conjunto o modos de operaciones (medios de prueba) del cual se extraen, por conducto de la fuente que proporcionan, las razones generadoras de la convicción judicial. La tercera significa el hecho mismo de la convicción judicial, es decir, el resultado de aquella actividad”. (PALACIO, Lino E. Derecho procesal civil. Buenos Aires: Abeledo-Perrot, 1977, Tomo IV, p. 330.)

269 ECHANDÍA, H. D. Compendio de la prueba judicial, Tomo I, p. 14. 270 CONTE, Mario. Le prove nel processo civile. Milano: Giuffrè, 2002, p. 9.

É mediante a prova judiciária, trazida ao processo com o auxílio

das partes, que se cria um mecanismo direcionado à comprovação da suposta

existência dos fatos contemplados como pressupostos da norma jurídica de que

se pretende a aplicação.

Embora poucos autores tenham escrito sobre a distinção entre

prova judiciária e direito probatório, o assunto merece alguns comentários. Em

primeiro lugar, deve-se ter em mente que tal diferenciação surgiu da discussão

entre civilistas e processualistas.

Assim sendo, por prova judiciária se deve entender o conjunto de

regras judiciais que regulam a admissão, produção e valoração dos diversos

meios suficientes e capazes de convencer o juiz sobre a certeza dos fatos.

Por outro lado, o direito probatório surge como uma matéria mais

ampla, integrada às provas judiciais, como capítulo próprio, compreendendo a

verificação social dos fatos, ou melhor, a prova em suas múltiplas manifestações

no campo do direito processual e extraprocessual.271

Mas quem deve provar, e o quê? Essas são questões que

esclareceremos ao longo deste capítulo. Imagine-se a seguinte situação: Duas

pessoas discutem sobre determinado ponto controvertido. Interroga-se qual dos

dois deve provar a verdade de sua pretensão. Embora pareça desinteressante, a

pergunta é bastante relevante, já que, de fato, é muito mais cômodo combater as

alegações do adversário do que ter que justificar as nossas.272

Resumidamente, a conclusão a que se chega é que o vocábulo

prova tem duas acepções: (i) no sentido material significa a demonstração da

verdade de uma proposição; (ii) no sentido jurídico exprime a demonstração da

veracidade de um fato por meios legítimos.