CAPÍTULO III QUALIDADE DE VIDA
3. CONCEITO DE QUALIDADE DE VIDA
Qualidade de vida é uma ideia amplamente difundida nos diversos espaços sociais, com o risco de ser banalizada devido ao uso indiscriminado e, muitas vezes, ambíguo. O termo qualidade de vida normalmente é utilizado em duas vertentes: (1) na linguagem cotidiana, pela população em geral, jornalistas, políticos, profissionais de diversas áreas e gestores ligados às políticas públicas; (2) no contexto da pesquisa científica, em diferentes campos do saber, como economia, sociologia, educação, medicina, enfermagem, psicologia, nutrição e demais especialidades da saúde (BOWLING & BRAZIER, 1995; ROGERSON, 1995).
O termo qualidade, numa análise semântica, remete ao caráter de um objeto. Definir a qualidade de algo implica atribuir valores, estabelecer um nível bom ou ruim. Contudo, essa compreensão é subjetiva, depende do referencial e critérios considerados na avaliação. Por isso, o que é considerado como boa qualidade para um indivíduo pode não ser necessariamente para outro (ALMEIDA et al, 2012).
Há inúmeras definições de qualidade de vida, pois este é um conceito submetido a múltiplos pontos de vista e que tem variado nas diferentes épocas, países, culturas, classes sociais e até para um mesmo indivíduo, conforme seu estado emocional e em decorrência de eventos cotidianos, socio-históricos e ecológicos (PASCHOAL, 2001).
A falta de consenso sobre o conceito de qualidade de vida reflete-se nos diferentes significados assumidos pelos pesquisadores. Para Minayo et al (2000) a causa de tamanha variabilidade de conceitos deve-se a relatividade da noção de qualidade de vida, influenciada por valores culturais e subjetivos. Para esta autora, a relatividade da noção de qualidade de vida pode ser compreendida de acordo com três referências: A histórica, na qual em um determinado tempo de uma sociedade, existe um parâmetro de qualidade de vida, que pode ser diferente de outra época, na mesma sociedade. A cultural, na qual os valores e necessidades são diferentes nos diferentes povos. E padrões de bem-estar estratificados entre as classes sociais, com fortes desigualdades, onde a noção de qualidade de vida predominante relacionasse ao bem-estar das camadas superiores. Desse modo, para cada fase de seu
desenvolvimento, em cada etapa histórica, uma sociedade constrói o significado do construto qualidade de vida (MINAYO et al, 2000).
Qualidade de vida é considerada um construto por se tratar de uma criação mental cujo significado é estabelecido intencionalmente e definido de forma que possa ser delimitado, traduzido em proposições particulares, observáveis e mensuráveis. Isso permite elaborar, em nível empírico, os testes subjetivos que a ciência necessita (PASCHOAL, 2001).
Com o advento das investigações sobre qualidade de vida, houve a necessidade de criar instrumentos científicos de avaliação desse construto. Diante dessa demanda, no início da década de 90, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reuniu estudiosos de diversas culturas para construir um conceito e então criar um instrumento. Este grupo chegou ao consenso de que o termo qualidade de vida engloba três aspectos essenciais: 1) subjetividade (a definição depende da perspectiva do próprio indivíduo), 2) multidimensionalidade (a definição deve ter em conta diferentes aspectos ou dimensões) e 3) bipolaridade (presença de dimensões positivas e negativas) (FLECK et al, 1999).
A este consenso seguiu-se a definição do termo qualidade de vida como: "a percepção do indivíduo da sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações" (THE WHOQOL GROUP, 1995).
De acordo com essa concepção, é possível pensar em qualidade de vida enquanto fruto de indicadores objetivos e subjetivos. Vilarta e Gonçalves (2004) reforçando o conceito do grupo WHOQOL, caracteriza esses indicadores de acordo com:
Objetividade das condições materiais: relacionado à posição do sujeito na vida e as relações sociais construídas;
Subjetividade: relacionada à percepção do indivíduo das condições físicas, emocionais e sociais referentes aos aspectos temporais, culturais e sociais.
Nesse sentido, a análise da qualidade de vida consiste na busca de parâmetros quantitativos e qualitativos de avaliação (VILARTA & GONÇALVES, 2004; ALMEIDA et al, 2012).
Indicadores objetivos avaliam a qualidade de vida com base nos elementos quantificáveis e concretos da realidade do sujeito. A análise desses fatores considera itens como alimentação, moradia, acesso à saúde, emprego, saneamento básico, educação, transporte, ou seja, necessidades básicas para uma vida com dignidade (ALMEIDA et al, 2012). Para Minayo et al (2000), essas são necessidades humanas elementares, recursos
materiais mínimos e universais, sem os quais não é possível pensar em boa qualidade de vida. São, portanto, elementos passíveis de mensuração e comparação, mesmo considerando a necessidade de relativizá-los culturalmente no tempo e no espaço.
No âmbito subjetivo, a análise de qualidade de vida também considera elementos concretos, porém, incorpora fatores subjetivos, emocionais e a percepção que os indivíduos têm de suas próprias vidas, inclusive do seu estado de saúde. Desse modo, analisa como o sujeito avalia a sua situação pessoal e o valor atribuído à qualidade de sua vida (ALMEIDA et al, 2012). Assim, se por um lado, a análise da qualidade de vida incorpora elementos subjetivos, por outro, relacionasse também com variáveis materiais (MINAYO et al, 2000).
Por isso, se o estudo da qualidade de vida ficar restrito a questões de ordem biológica, ligadas exclusivamente à saúde clínica, corre o risco de ser incompleta e equivocada, pois desconsideraria as variáveis histórico-culturais, influentes inclusive no processo saúde- doença.
Essa é uma preocupação que faz parte de um movimento dentro das ciências humanas e biológicas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, a diminuição da mortalidade ou o aumento da expectativa de vida (FLECK et al, 1999).