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CONCEITO DE RECONHECIMENTO Alexandre Cotovio Martins

Ponto prévio: responsabilidade moral e capacitação individual

De acordo com Danilo Martuccelli (2002), aquela que talvez seja a fi guração dominante do indivíduo humano no Ocidente, é aquela que o representa como mestre e senhor de si mesmo. A ideia de um indivíduo autónomo, independente, capaz de autocontrolo e uma expressividade própria indica, segundo Martuccelli, a presença de uma fi gura que, sendo identifi cável noutras épocas e contex- tos, assume preponderância e centralidade no seio da modernidade, nas suas múltiplas expressões nacionais, de classe, políticas, etc. Em comum às diversas expressões por ela assumidas, porém, pode identifi car-se esse grande traço caracteriza- dor, dominante na época moderna, que é o da fi gu- ração do indivíduo capaz de se manter do interior.

Relevante aqui é notar que, muito embora pos- samos observar que esta fi guração é – ponhamo- -lo nestes termos - extremamente frequente no quadro da modernidade, ela deixa na penumbra o facto, sociologicamente atestado, de esta suposta capacidade de manutenção do interior constituir afi nal uma representação parcelar da realidade. Com efeito, como o próprio Martuccelli assinala, esta fi guração do indivíduo moderno não se produz senão no período histórico em que, na realidade, os indivíduos mais são mantidos do exterior, ou seja, em que se encontram mais encastrados em

sólidos círculos relacionais. Um exemplo é o da divisão social do trabalho, na modernidade: com efeito, dada a elevada especialização e divisão do trabalho, nas sociedades modernas, o número de pessoas de que um indivíduo necessita para viver diariamente, com as quais, no fundo, ele se encon- tra numa situação de interdependência, é elevado como talvez nunca antes.

Ora, tal constatação, que envolve um certo paradoxo, conduz-nos a uma perplexidade central: no período histórico – a modernidade – em que os indivíduos mais são solicitados a tornarem-se indi- víduos, no sentido acima exposto, este processo não depende apenas de si mesmos, havendo todo um domínio institucional que se torna necessário para fundar a possibilidade de uma individuação «bem sucedida».

Um autor que nos pode ajudar a aprofundar e sistematizar o conteúdo desta perplexidade é Axel Honneth (2008). Como nos diz o sociólogo e fi lósofo de Frankfurt, as comunidades jurídicas modernas pressupõem a responsabilidade moral de todos os seus membros, pela razão de que a sua legitimidade repousa na ideia de um acordo racional entre indivíduos iguais em direitos.

A defi nição de o que seja a autonomia moral do sujeito depende, então, daquilo que se entenda como sendo um «acordo racional». Como afi rma Honneth (2008), a maneira como concebemos este

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procedimento de legitimação fundamental afeta, também, as qualidades que uma pessoa deve apresentar para aí tomar parte de pleno direito. Assim, segundo o autor alemão, a determinação das capacidades que distinguem constitutivamente o indivíduo enquanto pessoa depende estreitamen- te de hipóteses fundamentais sobre as condições subjetivas que o habilitam a participar na forma- ção racional da vontade coletiva. Por esta razão, quanto mais exigente for a forma pela qual este procedimento for encarado, tanto maior deve ser a extensão das qualidades cuja soma forma a res- ponsabilidade moral de um sujeito.

É partindo deste quadro que Honneth (2008) nos diz que o alargamento cumulativo das exigên- cias jurídicas individuais, tal como se produziu nas sociedades modernas, pode ser compreendido como um processo no curso do qual o campo das qualidades universais atribuídas a uma pessoa mo- ralmente responsável se alargou progressivamente, porque se tornou necessário, no quadro de uma luta pelo reconhecimento, aumentar o número das condições das quais depende a participação na formação de uma vontade coletiva racional.

Por consequência, o reconhecimento mútuo dos indivíduos modernos enquanto pessoas jurídicas implica hoje em dia mais coisas que no momento em que nasceu o direito moderno: o sujeito, quan- do encontra reconhecimento jurídico, não é apenas respeitado na sua faculdade abstrata de obedecer a normas morais, mas também nas qualidades

concretas que lhe asseguram o nível de vida sem o

qual não poderia exercer esta primeira capacidade (2008).

Como podemos constatar a partir daqui, a questão - aliás fundamental na modernidade - da

desigualdade entronca, em grande medida, neste

problema. De facto, todos aqueles que, pelas suas condições de existência, estão relativa ou absolu- tamente privados do acesso a bens que lhes per- mitam o exercício da autonomia moral que deles se espera enquanto membros de uma comunidade política, estão numa situação de exclusão e têm a sua integridade social colocada em xeque.

Uma análise da medida Novas Oportunidades Reconhecimento e justiça

É à luz das linhas de questionamento conceptual atrás sucintamente explicitadas que procuramos identifi car uma primeira ordem de questões sobre os processos de reconhecimento, validação e cer- tifi cação de competências, a propósito da política

Novas Oportunidades, tal como se encontra plas-

mada nos seus documentos orientadores, nomea-

damente no seu principal instrumento operativo para o nível secundário de certifi cação, o Referen-

cial de Competências – Chave para o Nível III de

formação da União Europeia.

A leitura de Honneth e da sua noção de reco- nhecimento impõem que nos centremos na ob- servação da medida Novas Oportunidades como um dispositivo tendente ao reconhecimento dos saberes experienciais dos indivíduos pela comu- nidade política. Mais do que abordar, portanto, a noção de «reconhecimento» de um ponto de vista estritamente técnico, referida ao processo con- creto de «desocultação» e reconhecimento desta ou daquela «competência» para a ação, deste ou daquele conjunto de competências, uma etiologia desta medida política tem necessariamente de dar nota de ser a mesma um dispositivo que visa um reconhecimento, por parte da comunidade politicamente organizada, dos saberes de muitos dos seus membros como válidos e adequados à sua organização política, social, técnica e cultural. Mais profundamente, trata-se de reconhecer que os saberes adquiridos ao longo da vida por via não formal ou informal são saberes que, a par dos saberes formais clássicos, capacitam os indivíduos deles portadores para uma participação económi- ca, social, cultural e cívica relevante.

Ora bem, cabe fazer notar que, deste ponto de vista, estamos então a trabalhar com uma política que traz consigo, de forma mais ou menos assu- mida, uma conceção de justiça. Na realidade, para além das modalidades específi cas de organização técnica dos procedimentos que enformam os pro- cessos de RVCC1, interessa-nos focar esta dimen- são, simultaneamente cognitiva e normativa (Do- dier, 1994), que subjaz ao processo de constituição desta matéria enquanto política pública.

É porque o Estado tem, no domínio da Educa- ção, a prerrogativa de atribuir títulos ou certifi ca- dos que valem na sua ordem jurídica interna (pelo menos) que se encontra numa posição de adminis-

trador de justiça (Dodier, 1994) - justiça em sentido

lato, bem entendido. Com efeito, trata-se sempre, por parte do Estado, de defi nir quem tem acesso

e quem não tem à certifi cação pública das suas

capacidades e competências individuais e, assim, quem pode aceder mais integralmente ao reconhe- cimento da comunidade enquanto sujeito moral autónomo, nos termos de Honneth, uma vez que a educação é tida, na atualidade, como elemento matricial da construção de uma cidadania plena. O Estado exerce aqui, sem dúvida, um papel de regu- lador de acesso e os profi ssionais da educação a quem incumbe a tarefa de avaliar os conhecimen-

195 tos ou competências programáticos exercem, nos

termos de Eliot Freidson (1998), um poder de gate-

-keeping, arvorando-se em «porteiros». De novo,

é porque existe um poder de alocação diferencial de um ativo simbólico que o Estado se erige, neste campo, em administrador de justiça. O que nos remete, inevitavelmente, para critérios e provas que entroncam em ordens de convenções que espe- cifi cam sentidos do justo: não se trata de atribuir indiscriminadamente diplomas ou certifi cados, mas de, repitamo-lo, reconhecer saberes - no caso, anteriormente desvalorizados de um ponto de vista público. Nestes termos, deixamos, teoricamente, de ter o predomínio (no sentido de Michael Walzer, Cfr. Walzer, 1999) formalmente garantido de um de- terminado tipo de bem educativo sobre outros, isto é, dos saberes formais escolares sobre os saberes experienciais extra-escolares, para passarmos a ter uma distribuição de bens mais plural. Este é assim, de um lado ao outro, um debate em torno de formas de justiça.

A justiça na Cité de projecto e o RCC de Nível Secundário

Se analisarmos o Referencial de Competências

– Chave de Nível Secundário (DGFV, 2006), damo-

-nos conta da sua fi liação nos princípios gerais determinados pelos órgãos políticos da União Eu- ropeia, tornados referência para todas as políticas nacionais no quadro comunitário. Este documento, que é o documento-guia para os processos de re- conhecimento, validação e certifi cação de Nível III de qualifi cações em Portugal, assume claramente, na sua apresentação, tal fi liação.

A questão que nos interessa focar aqui é que vá- rios autores vêm afi rmando que as orientações da União Europeia que inspiram e enformam hoje em diferentes Estados-Membros as políticas orienta- das para a ALV radicam em conceções da educa- ção fortemente solidárias do «espírito» geral das fi rmas e das economias capitalistas da moderni- dade avançada. É a partir deste ponto que se vem levantando um conjunto de vozes críticas à orien- tação geral das políticas no domínio da ALV (Alves, 2008). Comum às diferentes críticas parece ser um aspeto: a denúncia de uma espécie de proximidade ou afi nidade entre a organização da economia e das sociedades capitalistas e as políticas euro- peias de ALV.

Ao procurar averiguar da existência desta rela- ção, podemos recorrer ao trabalho de Boltanski e Chiapello, designadamente à análise que os auto- res desenvolveram em torno daquilo que classifi - cam de o novo espírito do capitalismo. Afi rmámos acima que as políticas de ALV, enquanto políticas

que se prendem com a distribuição de bens e com o maior ou menor predomínio de um bem social sobre outros, são atividades que têm como campo próprio a justiça. Ora, existindo uma explicação so- ciológica disponível sobre a ordem de convenções que defi ne o no quadro da atividade das fi rmas capitalistas e das formas específi cas de organiza- ção social que o mesmo sugere, tentaremos agora utilizá-la para perceber se aquela «proximidade» se verifi ca, no caso do documento de trabalho central da medida Novas Oportunidades, o RCC.

Note-se ainda que não se trata aqui de verifi car da existência ou não de uma fi liação direta das po- líticas europeias e, por sua via, do conteúdo deste documento, naquilo que Boltanski e Chiapello de- nominam de novo espírito do capitalismo, mas tão- -só de procurar averiguar se existe uma afi nidade

eletiva entre a ordem de convenções identifi cada

por aqueles autores e que justifi ca socialmente as atuais atividades capitalistas e certas conceções presentes no discurso plasmado naquele docu- mento orientador. A relação é problemática e, por conseguinte, tentaremos centrar-nos numa única dimensão signifi cativa: as conceções do adulto aprendente e do profi ssional de reconhecimento de competências presentes no documento. Antes, porém, de avançar, importa explicitar um pouco melhor a óptica de Boltanski e Chiapello.

Sob os constrangimentos daquilo a que clas- sifi cam como regime de ação público, Boltanski e Thévenot (1991) identifi cam um número limita- do de diferentes ordens de grandeza presentes nas sociedades modernas, pelas quais os atores sociais qualifi cam a sua própria ação e a ação de outros. Estas ordens de grandeza, que os autores nomeiam de Cités, são conjuntos de qualifi cações convencionais pelas quais os atores justifi cam ou criticam as suas ações e as de outros.

Mais recentemente, Luc Boltanski e Éve Chiape- llo (1999) distinguem uma nova Cité, que argumen- tam ser uma das maiores fontes de justifi cações sociais no contexto do capitalismo avançado: a ordem de projeto. Na verdade, tentando analisar os recentes desenvolvimentos das sociedades de economia capitalista, estes autores observam a emergência de um conjunto de convenções am- plamente difundido, que constitui uma ordem de grandeza legítima nestas sociedades, pela qual o capitalismo tende a justifi car a sua existência. Os autores denominam o processo de emergência desta ordem de convenções como o surgimento de um novo espírito do capitalismo, retomando e reformulando a antiga expressão Weberiana.

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aspectos, que seguem de forma próxima o modelo que Boltanski e Thévenot construíram no livro De

la justifi cation (1991). Uma Cité é, como dissemos,

uma construção social convencional que os atores utilizam para construírem acordos assim como para suportarem a crítica na vida social. Estas construções são ordens legítimas nas quais os atores se baseiam para operarem justifi cações e críticas na sua vida de todos os dias. Estas ordens justifi cativas, de acordo com Boltanski e Thévenot, são construídas sobre «gramáticas» básicas, que especifi cam um sentido de justiça, de acordo com as seguintes componentes (Cfr. 2002):

a) um princípio de equivalência (por referência ao qual pode ser feita uma avaliação de todas as ações, coisas e pessoas no quadro de cada Cité); b) um estado de grandeza, sendo um «grande» uma pessoa que incorpora fortemente os valores da Cité e um estado de pequenez, defi nido como a falta de grandeza;

c) Uma defi nição do que é importante para cada mundo1 em termos de categorias de objetos (um

diretório de objetos e dispositivos), seres humanos

(um diretório de sujeitos) e verbos (relações na-

turais entre seres), assinalando relações que são

específi cas para cada forma de grandeza;

d) Um ratio de grandeza, especifi cando a natu- reza das relações entre o «grande» e o «pequeno», especialmente a forma pela qual os «grandes», porque contribuem para o bem comum, são úteis aos «pequenos»;

e) Um formato de investimento, sendo este uma pré-condição maior para a estabilidade de cada

Cité, uma vez que, ligando a grandeza a um sacri-

fício (que tem uma forma específi ca em cada Cité), garante que todos os direitos são acompanhados de responsabilidades;

f) Um teste paradigmático que, para cada regi- me justifi cativo, melhor revela a grandeza de uma pessoa;

g) Uma fi gura harmoniosa da ordem natural, que confi guram os tipos ideais de organização social que correspondem aos universos no interior dos quais houve uma distribuição justa da qualidade de grandeza (Cfr. Boltanski and Chiapello, 2002).

Na organização da forma específi ca de legitima- ção e justifi cação que os autores designam de Cité

de projecto, a atividade é o padrão geral, o princí-

pio pelo qual, em última instância, os atores qualifi - cam e reconhecem as suas ações e as dos outros. Esta atividade, por outro lado, deve passar pelo en-

1 Um «mundo» é, neste quadro teórico, um repertório de existências e dispo- sitivos mais ou menos consolidados de ação que «aparelham» a ação numa dada ordem de convenções ou Cité.

volvimento em redes, vistas como a infra-estrutura

natural das sociedades contemporâneas, envol-

vimento o qual deve orientar-se para projetos em

rede. Para cumprirem este tipo de envolvimento de

forma ajustada, os indivíduos devem ser fl exíveis, adaptáveis e polivalentes. As pessoas necessitam de ser empregáveis e devem conseguir aumentar a empregabilidade de outros, de acordo com a sua posição específi ca no sistema socioeconómico. É com base nestes princípios que os autores identifi -

cam esta ordenação convencional a partir dos seus elementos fundamentais, da forma estabelecida na tabela 1

É ainda importante notar que, nesta ordem, a

atividade tem elementos distintivos face a outras

formas de atividade inserida na organização ca- pitalista, nomeadamente na sua forma industrial (Boltanski e Chiapello, 2002): «Contrariamente ao que acontece na Cité industrial – em que atividade signifi ca “trabalho” e ser ativo signifi ca “possuir uma posição estável e com salário” – na Cité de projeto, a atividade ultrapassa as oposições entre trabalho e não-trabalho, estável e instável, pago e não pago, partilha de lucros e trabalho voluntário e entre o que pode ser medido em termos de produ-

Tabela 1

GRAMÁTICA DA JUSTIFICAÇÃO «DE PROJECTO»