Capítulo II: Enquadramento teórico
2. A Reforma
2.2. Conceito de Reforma
A saída da vida ativa e a entrada na fase da vida em que as relações laborais não existem, ou, a existirem, têm um carácter diferente, é característica da reforma (Forman-Hoffman et al., 2008).
A reforma poderá representar um dos acontecimentos mais marcantes na vida das pessoas (Fonseca, 2012). Poderá representar meramente o deixar de trabalhar, uma mudança onde é atribuído um papel diferente à pessoa, com novos deveres e direitos, ou uma transição da meia-idade para a velhice. Para alguns a reforma poderá significar o final tão esperado para o trabalho exigente que desempenharam durante uma vida, enquanto para outros poderá denotar justamente o oposto, ou seja, uma perda do significado da mesma, sobretudo quando esta se centra, fundamentalmente, na dimensão profissional (Atchley, 2000).
Na generalidade, a reforma tem vindo a ser definida como “o não envolvimento num trabalho pago” (Denton; Spencer, 2009).
Palmore et al., (1979) identificaram três principais expressões associadas ao conceito de reforma: i) ausência de emprego a tempo inteiro; ii) rendimento económico proveniente da segurança social e, ou, de outro sistema de pensões; e iii) identificação pessoal com o papel de “reformado” (Palmore et
al., 1979).
Denton e Spencer (2009) tentaram identificar as principais formas de definir a reforma mais frequentemente usadas pelos investigadores. Terão identificado, então, 8 principais definições, sendo elas: i) a não participação no mercado de trabalho; ii) a redução do número de horas de trabalho; iii) o número de horas de trabalho abaixo de determinada linha de corte (definida pelos próprios investigadores); iv) a receção de uma pensão de reforma; v) a saída de um emprego com um empregador principal; vi) a mudança de carreira profissional ou emprego, mais tarde na vida; vii) a auto-avaliação do estado de reforma;
viii) ou, ainda, a combinação de todas as anteriores (Denton; Spencer, 2009).
Borland (2005) aborda, por outro lado, o conceito de reforma realçando a diferença entre dois períodos distintos: um no qual o trabalho é a atividade principal e outro no qual a reforma é a atividade principal (Borland, 2005). Entre esses dois períodos encontra-se aquilo que descreve como uma “fase de transição”, que pode ter início em várias idades e cuja duração é variável (Borland, 2005).
Segundo Denton e Spencer (2009), essa fase de transição torna de difícil definição a medição do “estado de reforma”, uma vez que parece haver um
longo período de tempo no qual uma pessoa poderá ser classificada, simultaneamente, em ambas as classes “reformada” e “a trabalhar” (Denton; Spencer, 2009). Esses mesmos autores, ao conduzirem uma revisão sobre os possíveis conceitos de reforma, concluíram que não existe unanimidade quanto à sua definição, por não ser algo de em si de fácil enunciação (Denton; Spencer, 2009).
A reforma é também, frequentemente, conceptualizada por muitos autores como: 2.2.1) um processo de tomada de decisão; 2.2.2) uma etapa do desenvolvimento de carreira profissional; e 2.2.3) um processo de adaptação (Wang; Shi, 2014).
2.2.1. Reforma enquanto processo de tomada de decisão
A reforma tem sido conceptualizada por muitos autores, nomeadamente na área da Psicologia, como um processo de tomada de decisão, suportando a ideia de que quando os trabalhadores se decidem reformar fazem uma escolha motivada com o objetivo de ver diminuído o compromisso psicológico com o trabalho; de promover a retirada comportamental de atividades a ele associadas (Adams et al., 2002; Wang et al., 2008); e de ver aumentado o envolvimento em atividades relacionadas com a família e, ou, a comunidade (Wang; Shultz, 2010).
Tem sido descrito que essa tomada de decisão poderá ser influenciada por: i) questões relacionadas com a saúde física e mental; ii) necessidades de assistência à família; iii) atitudes relativamente ao posto de trabalho ocupado;
iv) atitudes perante o empregador; v) atitudes perante a carreira profissional; e vi) desejo de realizar atividades de lazer (Chevalier et al., 2013).
Uma das limitações apontadas para esta conceptualização de reforma é o facto de nem todas as decisões serem voluntárias, sendo que a sua utilidade teórica
poderá depender do tipo de decisão de reforma, ou seja, se foi efetivamente fruto de uma escolha motivada e, ou, voluntária (Wang; Shultz, 2010).
2.2.2. Reforma enquanto uma etapa do desenvolvimento da carreira profissional
A reforma também tem vindo a ser conceptualizada como uma etapa do desenvolvimento da carreira profissional ao invés de ser encarada como o abandono da mesma. Tal baseia-se no facto de nos últimos 20 anos ter havido uma tendência para os trabalhadores se afastarem da tradicional progressão linear de carreira (Wang, 2013). Assim, a reforma poderá ser pensada como uma fase final de desenvolvimento da carreira que reconhece o permanente potencial de crescimento e renovação da carreira profissional na vida das pessoas reformadas (Poste et al., 2013).
Esta conceptualização de reforma é consistente com a teoria proposta por Kim e Hall (2013) na qual, hoje em dia, as carreiras profissionais são controladas pelos próprios trabalhadores, tendo como foco os valores e os objetivos pessoais de cada um (Kim; Hall, 2013).
Nesta perspetiva, uma pessoa na carreira académica poderá, por exemplo, encarar a reforma como uma oportunidade para adquirir o tempo e a disponibilidade mental necessários à escrita de um livro com reflexões sobre os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos de trabalho. Essa publicação poderá representar, assim, um importante contributo para a continuidade do desenvolvimento da sua carreira profissional.
2.2.3. Reforma enquanto processo de adaptação
A reforma pode ser considerada, ainda, como um “estado” ou um processo de
“transição” (Bossé et al., 1991; Loureiro, 2011; Fonseca, 2012).
Se for perspetivada como um estado, a ocorrência ou não ocorrência do evento de reforma determinará as seguintes condições: “estar reformado(a)” ou, por
outro lado, “não estar reformado(a)” (Bossé et al., 1991; Loureiro, 2011; Fonseca, 2012).
Pelo contrário, se for abordada como um processo de transição
“…acontecimento de vida que implica a ocorrência de fenómenos de transição- adaptação…” (Fonseca; Paúl, 2004), a reforma deixará de ser pensada como
uma mera aquisição de um estado e passará a ser considerada como um período que requer adaptação e no qual ocorrem várias mudanças na vida das pessoas (Bossé et al., 1991; Wang; Henkens; Van Solinge, 2011; Wang ; Shi, 2014).
A conceptualização da reforma enquanto processo de adaptação envolve, então, ambas a transição de reforma (passagem do estado “não-reformado” para o estado “reformado”) e a trajetória pós-reforma (isto é, o período de adaptação à reforma) (Meleis, 2010; Wang ; Shi, 2014).
Segundo essa conceptualização, o mais importante não é a decisão de reforma, mas sim as características do processo de transição de reforma a ela associadas (Van Solinge; Henkens, 2008). Ou seja, a investigação da natureza da reforma: i) preparação prévia para a reforma; ii) momento de reforma; iii) recursos financeiros disponíveis para a reforma iv) e o nível de atividade decorrente da reforma (Szinovacz, 2003; Wang; Shi, 2014).
Nesta perspetiva, a reforma poderá ser reconhecida como um processo de desenvolvimento longitudinal, caracterizado pela necessidade de adaptação a essa nova condição de “reformado(a)”, o que para muitos autores parece providenciar uma melhor e mais realista representação do que é a reforma (Bossé et al., 1991; Wang; Henkens; Van Solinge, 2011; Wang; Shi, 2014).
A denominação “passagem à reforma” tem vindo a ser referida na bibliografia
por alguns autores para denominar a reforma enquanto processo de adaptação-transição (Bossé et al., 1991; Fonseca; Paúl, 2004; Loureiro, 2011).
Todavia, é de notar que alguns outros autores utilizam a mesma denominação
(“passagem à reforma”) para expressar o acompanhamento longitudinal de
haja um reconhecimento explícito daquela enquanto processo de transição- adaptação (Seitsamo, 2007; Moon et al., 2012).
A grande maioria dos estudos sobre a reforma não faz, na verdade, a sua diferenciação enquanto “estado” ou “processo de transição-adaptação” (Hideki, 2013). Essa diferenciação tem sido reconhecida como fundamental no âmbito da investigação sobre a reforma. De facto, naquelas pessoas em que a reforma representa uma situação de vida já devidamente instalada, os resultados obtidos poderão ser muito diferentes relativamente àquelas nas quais tenha ocorrido uma passagem recente à situação de reforma (Bossé et al., 1991; Fonseca; Paúl, 2004; Loureiro, 2011; Hideki, 2013).
O período de até 5 anos após a reforma tem, designadamente, sido considerado o período máximo de análise no qual os reformados ainda se encontram em fase de transição-adaptação a essa nova condição (Fonseca; Paúl, 2004; Loureiro, 2011). Importará, por agora, referir que no decorrer no presente trabalho será considerada esta conceptualização de reforma.