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2.5 A ORGANIZAÇÃO E O SELF

2.5.1 Conceito de Self

Dentro da teoria junguiana da psicologia analítica um dos conceitos mais controvertidos é o de Self. O sentido desta palavra da língua inglesa – Self – é traduzido em muitas publicações das obras de Jung (2000a), como si-mesmo, grafado com hífen, em português. Contudo, seguindo a terminologia alemã original de Jung – selbst – prefere-se aqui o termo Self por não se confundir com o sentido de si mesmo em português.

O Self para Jung (2000a) é uma totalidade organizadora da mente humana.

Chama-o de arquétipo original e considera-o como sendo uma realidade objetiva, sendo que tudo o mais que se percebe, sente e imagina, como sendo uma realidade subjetiva. “O conceito de Self , como definido pela psicologia profunda, é uma construção e remete às possibilidades conscientemente transcendentes de relacionamento com Deus e o cosmo” (HARK, 2000:108). Quando da criação do conceito de Self, Jung foi tachado por outros psicanalistas de estar entrando no campo da metafísica, da espiritualidade, do misticismo, o que ele sempre negou na medida que desenvolveu o conceito a partir de observações empíricas em pacientes.

Diz Jung que:

“Em termos empíricos, o Self manifesta-se em sonhos, mitos e contos de fada na figura de uma Personalidade hierarquicamente superior como rei, herói, profeta, salvador, etc., ou na figura de um símbolo de totalidade, como o círculo, o quadrilátero, a quadratura circuli, a cruz, etc” (JUNG, 2000b:109).

Para Jung (2000a) o Self é o organizador da natureza, sendo que o homem o aprecia através de seus sonhos, intuições, não podendo de fato apreciá-lo tal como

é e assim o representa como um círculo, um quadrilátero, um velho sábio, ou outras imagens correlatas. Essas imagens surgem em sonhos e estórias contadas em diversas culturas, assim como em imagens pictóricas das mesmas, que revelam o numinoso. O Self pode ser visto como “Arquétipo da totalidade e centro regulador da Personalidade. É vivenciado como um poder transpessoal que transcende o ego, por exemplo, Deus” (HALL, 1998:153). A idéia de um regulador da ordem universal, ao menos sob a apreciação do humano, segue o interesse de Jung (1964) pela alquimia e pela simbologia. Via as manifestações do arquétipo do Self como presentes em todos os humanos, em diversos momentos.

A consciência do Self como sendo algo maior que o ego individual, e maior e mais amplo que as autoimagens estereotipadas de nós mesmos, permite considerar a teoria junguiana como otimista em relação às possibilidades humanas de controle das próprias neuroses sociais.

“Psicologicamente podemos compreender esse processo como uma transformação do egocentrimo em consciência do ego. Todos nossos impulsos sombrios levam a um egocentrimo do desejo, do afeto e da vontade. A todo custo a pessoa quer conseguir o que deseja, geralmente de modo infantil. Se o ego for capaz de tomar consciência desses impulsos e subordiná-los ao Self (ao” deus interior “), sua ígnea energia se transforma na descoberta de sua identidad” (VON FRANZ, 1999b:38).

Neste sentido pode-se apreciar uma perspectiva quase taoísta na mente ocidental de Jung quando do desenvolvimento do conceito de Self. De fato, Jung faz o prefácio do livro de Wilhelm (1988) sobre o I CHING. Considera o I CHING como um método não ocidental de explorar o inconsciente e questiona os axiomas tradicionais da ciência ocidental.

“Nossa ciência (...) é baseada no principio da causalidade, o qual é considerada uma verdade axiomática. Mas uma grande mudança está ocorrendo em nosso ponto de vista.

O que a crítica da razão pura de Kant não conseguiu, está sendo realizado pela física moderna” (JUNG, 1988:16).

O conceito de Self tem em si uma perspectiva do símbolico comum a

todos os seres humanos e ao mesmo tempo, dentro da psicologia junguiana, representações nos sonhos e nas organizações humanas. Isto se conecta com o conceito de sincronicidade, também desenvolvido por Jung e bastante trabalhado por Von Franz (1999a). A idéia da sincronicidade, de que há eventos simultâneos não causais que pertencem a uma ordem de eventos não explicados pela causalidade e de difícil mensuração e controle, mas observáveis empiricamente como fenômenos independentes e, ao mesmo tempo, com alguma correlação, também se conecta com a idéia do Self. O Self como arquétipo regulador da ordem cósmica permite conexões entre eventos que não se pode apreciar.

A física quântica tem se aproximado dessa idéia, quando trata do elétron como onda ou como massa, assim como das inúmeras possibilidades de aparecimento do mesmo quando em movimento. Lao Tse (1982) diz no Tao-Te-King que:

“Tao é a Fonte do profundo silêncio, Que o uso jamais desgasta. É como uma vacuidade, Origem de todas as plenitudes do mundo. Desafia as inteligências aguçadas.

Desfaz as coisas emaranhadas, Funde em uma coisa só todas as cores. Unifica todas as diversidades. Tao é a Fonte do profundo silêncio. Atua pelo não agir. Ninguém lhe conhece a origem, Mas é o gerador de todos os deuses” (LAO TSE, 1982:32).

De certa maneira, Toben e Wolf (1988), retomam essa concepção, mas dentro da física quântica, quando tratam das possibilidades de movimento não causal dos eventos físicos. Quando falam do princípio físico da incerteza, dizem que:

“Em linguagem simples, esse princípio diz que é impossível você conhecer, simultaneamente, a posição e a trajetória de um objeto em movimento. Se você determina um desses atributos com excelente precisão, será sempre às expensas do outro. Por isto, mesmo que você faça uma observação tão boa quanto possível, o mundo será sempre um pouco incerto” (TOBEN e WOLF, 1988:127).

Ao retomar-se o conceito de Self pode-se correlacioná-lo tanto com a idéia do Tao quanto com os movimentos, e a ordem subjacente aos mesmos, da física quântica. Apesar do mundo ser sempre incerto, há uma ordem subjacente aos

eventos. Essa ordem não pode ser apreciada por si mesma, mas por seus efeitos.

Esses efeitos, no inconsciente humano, aparecem em forma de mandalas, círculos, quadraturas circulares, no caso de sonhos, dentro da psicologia junguiana.

Igualmente, conecta-se com a sincronicidade e as correlações quânticas entre eventos. Essas são contraditórias com o princípio da separabilidade, que é cerne do axioma da causalidade:

“Que é o princípio da separabilidade? Em poucas palavras, ele estabelece que as coisas que não estão mais em contato ou comunicação não podem afetar-se mutuamente. Isto significa que tudo aquilo que acontecer com um desses objetos isolados não pode e não deve afetar o comportamento observado no outro objeto. Ora, a mecânica quântica viola despudoradamente esse princípio. Ela aponta para uma conexidade, um estado de conexão quântica, a que chamo conexão de Einstein, de acordo com a qual as observações efetuadas sobre um objeto podem afetar, e de fato afetam, os resultados observados para outro objeto, mesmo quando não haja mais entre ambos qualquer tipo de contato físico conhecido” (TOBEN e WOLF, 1988:137).

A questão levantada por essas descobertas teóricas da física quântica afeta diretamente a forma como se pode apreciar a realidade e estudá-la. Se há conexões não causais entre dois objetos, ou eventos, e se há probabilidades significativas de fenômenos distantes serem afetados por suas realidades independentes, pode-se falar de uma ordem subjacente ao todo, mas que não é racionalmente compreendida, senão sob a forma de símbolos. É justamente neste sentido que Jung (2000a, 2000b, 2000c) trata do Self.

Quando do trabalho com indivíduos, Jung (1999a, 1999b) aborda também as relações que as pessoas mantém com este arquétipo. Um dos problemas que ele aponta é a da identificação com o Self. Da mesma forma que a identificação com a Persona causa problemas de autopercepção, a identificação com o Self leva ou a sentimentos onipotentes (maníacos, de poder) ou a sentimentos de depressão (sensação de menos valia, impotência). Diz Jung (2000a,2000b) que o Self deve ser apreciado, mas não considerado como sendo o eu, pertencente ao indivíduo.

Por outro lado, o distanciamento do Self leva as pessoas a terem reações defensivas de extrema racionalidade, usando mecanismos de defesa padronizados, e deixando de lado qualquer outra apreciação da realidade que não seja quantificável ou mensurável. O distanciamento do Self promove embotamento da criatividade, rigidez e distância da espontaneidade, limitação de capacidades intuitivas, diminuição de insights, e uma fé muito grande na ordem racional, na burocracia, e nos sistemas legais, sociais, e nas hierarquias existentes. Isto permite que as massas se engajem em movimentos da Peste Emocional de que fala Reich (1998), já que projetam crenças em movimentos maiores que eles mesmos, e mesmo na fé em lideranças psicopáticas e pais da pátria, que são vistos como mensageiros das verdades universais.

Quando Gambini (1988) fala de participation mystique, e conecta com o mecanismo de projeção, também se relaciona com a falta de contato com o Self. As pessoas se engajam em movimentos sociais, passeatas, greves, linchamentos públicos, movimentos políticos, seguem lideranças autoritárias, grupos sociais, etc., de forma não racional quando do distanciamento das imagens do Self. São mais facilmente manipuláveis e destrutivas, racionalizando, negando, projetando, reprimindo, entre outros mecanismos de defesa, seus próprios sentimentos, necessidades, dificuldades, culpas, emoções, ficando em um estado obnubilado de consciência.

Dentro das organizações humanas, constructos sociais par excellence , a relação com o Self e suas manifestações vão determinar uma série de respostas comportamentais que afetam diretamente a vida da organização e suas estratégias defensivas. A evidente racionalidade limitada (SIMON, 1971) das relações humanas e das interações dentro das organizações, e suas escolhas estratégicas, assim como as considerações sobre o que é um sistema organizacional, tem levado a diversas

discussões sobre a natureza da teorização organizacional em si mesma (CALDAS, FACHIN, e FISCHER, 1999).

2.5.2 A manutenção obsessiva da ordem racional: a organização como sistema