CAPÍTULO II – SEGURANÇA E TERRORISMO
3. Segurança e Terrorismo
3.1. Conceito de Terrorismo
O esforço em prol da definição de terrorismo, com base na evolução histórica do fenómeno, na experiência decorrente dela e nos modus operandi dos terroristas, tem levantado, sobretudo ao longo dos últimos anos, vastas discussões doutrinárias.
Etimologicamente terrorismo deriva do latim “Terror” que significa medo, terror. A palavra terrorismo remonta ao período histórico da Revolução Francesa, em 1789. O termo foi utilizado para designar o regime de la terreur, entre 1793-1794, marcado pelas perseguições e execuções contra os opositores do novo regime. O chamado “Regime de Terror” foi um instrumento legal de governação, com a finalidade de consolidar o poder do novo governo revolucionário, por via da intimidação de forma a inibir eventuais tentativas contrarrevolucionárias (Ventura & Nascimento, 2001).
Vejamos, agora, algumas definições de terrorismo de acordo com alguns autores e documentos normativos nacionais e internacionais.
O historiador americano Laqueur (1999) defende que o terrorismo é uma forma de violência, mas nem toda a forma de violência pode ser considerada terrorismo. Como mostra uma fração da história, terrorismo não é sinónimo de guerra civil, vandalismo ou estado de guerrilha. O terrorismo é um meio de atingir certos objetivos políticos, podendo ser dirigido contra um governo, partidos, classes ou contra outros grupos, provocando a sua desestabilização através da violência e ameaça. Podem estar relacionadas com esta destabilização motivações sociais, políticas ou económicas, a par do reforço da intimidação
31 que é agravada pelas sistemáticas campanhas de atentados a que, frequentemente, os terroristas recorrem (Laqueur,1999).
Atualmente, o conceito de terrorismo é “um conceito dinâmico” que tem em conta não só a sua evolução histórica, mas também a variedade de formas de atuar em função do espaço cultural ou civilizacional no mesmo instante da história (Ferreira, 2006)12 . Ferreira (2006) associa ao termo terrorismo ao recurso à violência ou ameaça contra alvos civis, cujo os atos planeados, calculados e sistemáticos integram toda uma atividade com objetivo político.
Lara (2013) identifica todo o terrorismo como um ato político e instrumental que, sendo um meio para atingir determinado fim, tem inerente o critério objetivo e para a sua lógica é necessário ter em conta a distinção entre propósitos imediatos dos mediatos.
Hoffman (2006) esclarece a estreita ligação entre o fenómeno terrorista e a construção e exploração do medo na sociedade, sobretudo, através da violência e da intimidação, aliciado por alterações políticas, sociais, étnicas e/ou religiosas.
A natureza e a configuração do terrorismo são suscetíveis de serem alteradas segundo motivações “nacionalistas, ideológicas, religiosas ou quaisquer outras”, podendo mesmo se identificar um “terrorismo de Estado” ou um “terrorismo bom”, isto é um terrorismo levado a cabo por quem combate o terrorismo ou fundamentado por determinados objetivos ou modos de atuação (Pereira, 2006). Tal facto está inerente à questão: se “há um ou vários Terrorismos”? Na opinião de Pereira (2006):
“ (…) existem um e vários terrorismos, na medida em que todas as suas
manifestações compartilham uma estrutura essencial mas justificam, pela
sua diversidade, que se fale em terrorismo ideológico, independentista, de inspiração fundamentalista islamita e até em Terrorismo de Estado”. (p.57) No âmbito legal, também não há um consenso quanto ao conceito de terrorismo. O terrorismo surgiu, possivelmente, na agenda dos fóruns internacionais em 1934, aquando da
12 Ferreira (2006) defende que as definições, mais usuais, de terrorismo colocam dificuldades conceptuais e
sintáticas. Daí que, muitos optem por conceitos menos controversos tais como movimentos de resistência, de libertação nacional ou guerrilha a fim de descrever ou e caracterizar as atividades terroristas.
32 Convenção para a Prevenção e Repressão de Terrorismo, promovida pela Sociedade das Nações (Galito, 2013). Porém, é de ressalvar que, esta Convenção nunca entrou em vigor.
Posteriormente, a partir da década de setenta, surgiram, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), catorze instrumentos legais de carácter internacional para erradicar este tipo de violência. Galito (2013) adianta que, no que diz respeito ao Conselho de Segurança da ONU, foram assinadas trinta e três Resoluções após os ataques terroristas de 200113, não descorando as doze assinadas entre 1989 e setembro de 2001, o que demostra que, das crescentes preocupações, evolui-se para uma prioridade central deste órgão. Relativamente a Portugal, foi aprovada a ratificação da Convenção Internacional para a Eliminação do Financiamento do Terrorismo, em 9 de dezembro de 1999, através da Resolução da Assembleia da República n.º 51/2002, de 27 de junho. Atualmente vigora a Lei n.º 52/2003 de 22, de agosto14, que no artigo n.º 2º define terrorismo da seguinte forma:
“Considera-se grupo, organização ou associação terrorista todo o grupo de duas ou mais pessoas que, atuando concertadamente, visem prejudicar a
integridade e a independência nacionais, impedir, alterar ou subverter o
funcionamento das instituições do Estado previstas na Constituição, forçar
a autoridade pública a praticar o ato, a abster-se de o praticar ou a tolerar
que se pratique, ou ainda intimidar certas pessoas, grupos de pessoas ou a
população em geral, mediante: a) crime contra a vida, a integridade física ou a liberdade das pessoas (…)”.
A Lei n.º 52/2003, de 22 de agosto, reforça a ideia de terrorismo como um fenómeno transfronteiriço e violador da paz pública que constitui um crime, previsto e punível no
13Dos diplomas aprovados destaca-se, por exemplo, a Resolução 1368 de 12 de setembro de 2001, decidida no
dia imediatamente a seguir aos ataques em Nova Iorque e Washington D.C.
14 Lei n.º 52/2003 de 22 de agosto com alterações introduzidas pela Retificação n.º 16/2003, de 29 de outubro,
33 Código Penal15 (CP) português que artigo 300º faz referência ao “crime de organização terrorista” e, no artigo 301º, ao “crime de terrorismo”.
Seja como for, o Direito Internacional continua a carecer de uma definição única, uniformemente aplicável nos fóruns multilaterais, o que acaba por constituir obstáculos à implementação da justiça no terreno (Galito, 2013). Antes de 2001, a moldura penal nesta matéria em muitos Estados era vaga ou inexistente (Galito, 2013).