• Nenhum resultado encontrado

3 – CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA

No documento CENTRO UNIVESITÁRIO DE BRASÍLIA (páginas 34-39)

Conforme já afirmado nas considerações iniciais deste capítulo, em sua essência, a atividade de inteligência é o conhecimento dos fatos relevantes para orientar a tomada de decisões estratégicas. E tais decisões, em termos da inteligência propriamente dita ou inteligência de Estado, dizem respeito a temas essenciais para a manutenção e existência do próprio Estado, como relações internacionais e segurança externa e interna.

Lowenthal afirma que a inteligência é diferente de qualquer outra atividade governamental por dois motivos. O primeiro deles é o sigilo, que caracteriza as informações detidas pelo governo e também os meios e razões pelos quais ele tenta obter informações de outros governos. O segundo decorreria deste sigilo, que pode constituir fonte de consternação para os cidadãos em geral numa sociedade democrática, marcada pela ostensividade própria dos atos da democracia, além dos meios sigilos empregados pelos serviços de inteligência considerados muitas vezes antiéticos pela sociedade (LOWENTHAL, 2011, p.01).

Esta afirmação de Lowenthal tem grande importância em razão de demarcar a atividade de inteligência como uma atividade própria de Estado, uma atividade de cunho governamental. Muito embora atualmente se fale em tipologias de inteligência, englobando atividades tipicamente privadas, a exemplo da inteligência competitiva e espionagem industrial, citadas por Joanisval Brito Gonçalves (GONÇALVES, 2009, p.34), fato é que a típica atividade de inteligência, por definição, é atividade desenvolvida pelo Estado, sendo assim considerada para os fins deste trabalho.

No que tange ao sigilo que marca a atividade de inteligência e sua relação com o regime democrático, por se tratar de um dos pontos nevrálgicos deste ensaio, será explorado em capítulo próprio.

Priscila Brandão Antunes resume as tipologias de inteligência governamental à basicamente inteligência interna e inteligência externa. A externa se relaciona a questões militares e interesses nacionais frente a outros países, tendo atualmente o viés de prevenção e enfrentamento ao terrorismo. Já a interna seria subdividida em proteção da ordem constitucional, ordem interna e inteligência criminal, conforme menção feita pela autora a Eduardo Estevez (ANTUNES, 2010, p.08).

Cada autor que escreve sobre este tema tende a encontrar novas tipologias de inteligência, e mesmo identificar esta atividade onde há somente atividade estatística ou de caráter privado/comercial. Portanto, de acordo com as definições básicas de Inteligência e dentro do escopo deste trabalho, dividi-la em interna e externa e nestes ramos encontrar poucas subdivisões parece mais apropriado.

Joanisval Brito Gonçalves faz em sua obra menção a definição de inteligência elaborada por Sherman Kent, um dos primeiros acadêmicos a tratar do tema ainda no final dos anos 1940. Para ele a inteligência tem três facetas: conhecimento, organização e atividade (produto, organização e processo). Como produto a inteligência seria o resultado do processo de produção de conhecimento; como organização ele se confunde com os organismos formais que a desempenham; já como processo implicam os meios empregados nesta atividade (GONÇALVES, 2010, p.09).

Esta definição elaborada por Kent tem forte influência nos autores que escreveram sobre o tema desde então, e mais especificamente no fato de se aterem muito mais as características da atividade de inteligência na tentativa de conceituá-la do que estabelecer um conceito padrão e estanque. Isto talvez seja uma decorrência lógica da afirmação de que a atividade de inteligência é a atividade de Estado que visa o assessoramento superior em decisões estratégicas, base da doutrina de inteligência, o que já demonstra a indeclinável tendência em se tratar do tema ante sua finalidade.

Cepik traz contribuição importante nesta caracterização da atividade de inteligência ao ressaltar que ela pode ter uma acepção ampla, consistente em toda informação coletada, organizada ou analisada para atender as demandas de um decisor qualquer, ou uma acepção restrita, tida como coleta de informações sem o consentimento, a cooperação ou mesmo o conhecimento por parte dos alvos da ação, o que revela a necessidade de segredo, sigilo, e os antagonismos próprios de interesses tutelados pela atividade de inteligência (CEPIK, 2003, pp.27-28). Nesta segunda vertente, mais restrita, a atividade de inteligência se confunde muito mais com metodologia de coleta ou busca de dados.

É importante para o estudo deste tema distinguir informação de inteligência. Lowenthal afirma que inteligência é o processo pelo qual a informação relevante é colhida, analisada e disponibilizada para o tomador de decisões (LOWENTHAL, 2011, p.08). Sobre o tema Joanisval Brito Gonçalves, analisando Lowenthal, diz que informação é um gênero do qual a inteligência é espécie, sendo que toda inteligência é informação, mas nem toda

informação é inteligência (GONÇALVES, 2010, p.12). Inteligência, neste sentido, é a informação devidamente processada que gera o conhecimento final para assessoramento superior.

Vale fazer menção a algumas definições elaboradas por Joanisval Brito Gonçalves em sua obra “Atividade de Inteligência e Legislação Correlata”, uma vez que este autor é o que traz o quadro mais completo das definições, escopo e categorias da atividade de inteligência. Da análise dos conceitos elementares da inteligência ele destaca três pontos: conhecimento processado, partindo de fontes abertas ou não para se chegar via metodologia de inteligência a um produto de análise; manuseio de informações sigilosas, relativo ao dado negado ou informações de caráter sigiloso que interessam ao tomador de decisões; assessorar o processo decisório e salvaguardar os interesses nacionais, que trata dos objetivos centrais da atividade de inteligência (GONÇALVES, 2010, p.18).

Quanto aos escopos e categorias, Joanisval Brito Gonçalves adota a divisão de Hannah, O´Brien e Rathmell (GONÇALVES, 2010, p.22). Para estes autores a inteligência nacional, comumente chamada de inteligência de Estado no Brasil, consiste naqueles assuntos que transcendem ramos, setores ou competências de órgãos ou ministérios, interessando ao país. Já a inteligência estratégica recai sobre capacidades, vulnerabilidades e intenções de nações estrangeiras, permitindo que com o seu conhecimento se formule uma política adequada de segurança nacional. Há ainda a inteligência tática, que é a inteligência para o nível de comando, que atendem demandas específicas de curto ou médio prazo, e a inteligência externa, que é aquela voltada para alvos ou ameaças externas. Atualmente ainda se fala em inteligência doméstica ou interna, a qual trata das ameaças internas ou domésticas, além da clássica contra-inteligência, que visa detectar e conter as ameaças constituídas pelos serviços de inteligência estrangeiros, contraespionagem, consistente na atividade de detecção de espionagem e finalmente nas avaliações, voltada para o uso executivo, com implicações políticas.

Lowenthal comenta em sua obra a agenda atual da inteligência dos EUA no mundo após a “Guerra Fria” e também após o atentado de 11 de setembro 2001 (LOWENTHAL, 2011, p.275-302). Pela influência do modelo norte-americano nos serviços de inteligência do mundo ocidental vale citar os itens dessa agenda, considerados por este autor objeto da atividade de inteligência.

Assim, Lowenthal trata do cyberspace em razão da vulnerabilidade do mundo cibernético a invasões, corrupção e rupturas do mundo cibernético com graves consequências para o governo e o comércio. Também faz menção ao terrorismo, este considerado objetivo primário da atividade de inteligência nos EUA após 11 de setembro de 2001 por motivos óbvios. De certa forma vinculado a esta agenda de contraterrorismo há a proliferação, que na verdade indica a não proliferação de armas de destruição em massa por outros países, principalmente países que apoiam, na visão dos EUA, grupos extremistas ou terroristas.

Ainda nesta agenda citada por Lowenthal consta a questão de narcóticos, sendoo foco aqui apontado na junção dos temas de terrorismo, crime organizado internacional e narcotráfico, que são considerados conjuntamente como graves ameaças aos EUA. No caso dos narcóticos existe também a questão dos fundos ilegais cuja origem é a atividade do narcotráfico e que são utilizados para fins diversos do que o simples refinanciamento do tráfico ou enriquecimento, a exemplo de financiamento de guerrilhas.

Prosseguindo nas agendas da inteligência conforme Lowenthal, a economia também encontra lugar de destaque, se preocupando com a competitividade econômica dos EUA no mercado internacional, suas relações comerciais, espionagem econômica estrangeira e contramedidas, além da capacidade de prever mudanças econômicas no cenário internacional com consequências sérias para os EUA. De certa forma vinculado a este tema esta a questão demográfica, onde são consideradas as tendências demográficas e como elas podem alterar regiões e países em termos de comportamento e estabilidade, a exemplo de taxas de natalidade, mortes, percentual de jovens e idosos e assim por diante.

Aponta Lowenthal as questões afetas a saúde e ambiente, sendo que no tema da saúde epidemias como a da gripe aviária asiática são relevados para proteção dos cidadãos americanos e pressão sobre os países que a abrigam, além de se ter em conta a possibilidade de ataques terroristas com vírus ou bactérias, ou bioterror. Quanto ao meio-ambiente o objetivo é detectar ameaças ao meio-ambiente bem como suas mudanças e consequências destas.

Finalmente são consideradas as operações de manutenção de paz, incidindo em áreas conflituosas ante a falha em se resolver diplomaticamente a questão, e o suporte para operações militares, que é a mais demandada área da inteligência norte-americana ante a constância de suas ações militares, seja em tempos de guerra ou de paz.

Este elenco de assuntos tratados como prioritários na agenda da inteligência dos EUA demonstra a força e importância da atividade de inteligência para aquela potência mundial, sempre em assuntos considerados por aquele país como de grande relevância para seus interesses políticos, econômicos e militares.

Atualmente se não há grandes inovações no tema da inteligência externa, vinculada a questões de defesa nacional e política externa de um país (Gonçalves, 2011, p.47), a doutrina dos EUA tem conferido grande importância à chamada inteligência interna ou doméstica, chamada de security intelligence, decorrência do atentado de 11 de setembro de 2001. Bruce Berkowitz trata deste tema afirmando que se trata de ramo da inteligência que visa identificar ameaças potenciais dentro do próprio país, tendo a ver com a segurança do Estado (BERKOWITZ, 2008, p.281). Esta inteligência também é chamada de homeland security, tendo sido criada nos EUA agência com este nome após o atentado de 11/09.

Outro fator caracterizador da atividade de inteligência é o chamado ciclo da inteligência ou da produção do conhecimento, que nada mais é do que o processo ou procedimento utilizado pelas agências de inteligência em seu funcionamento (ANTUNES, 2010, pp.26-27).

Este ciclo compreende a coleta ou busca de informações, sua análise e posterior difusão do conhecimento para a autoridade superior. Esta descrição básica pode ser subdividida para maximixar a rotina de trabalho das instituições de inteligência, embora continue, no fundo, sendo calcada nesses três elementos: coleta/busca, análise e difusão.

Subdivisão importante da atividade de inteligência interna que vem ganhando força nos últimos anos é a atividade de inteligência policial, tratada em capítulo a parte, assim como as questões fundamentais acerca do sigilo, inteligência e democracia e o controle da atividade de inteligência, ante a sua importância para a compreensão do tema.

I.4 – O SIGILO COMO CARACTERÍSTICA FUNDAMENTAL DA ATIVIDADE DE

No documento CENTRO UNIVESITÁRIO DE BRASÍLIA (páginas 34-39)