CAPÍTULO III. A APLICAÇÃO DA TEORIA DA RESPONSABILIDADE CIVIL
3.1. Conceito e fundamentos da responsabilidade civil
O Código Civil de 2002 trouxe uma série de disposições que permitem um novo olhar em relação à responsabilidade civil. A doutrina atual entende que essas disposições e a forma como estão previstas fizeram com que nosso Direito, no tema em particular, se aproximasse das soluções encontradas no Direito estrangeiro, especialmente no alemão e no português94.
Um exemplo flagrante é a nova concepção do ato ilícito previsto no art. 186 do Código Civil pela qual, além do prejuízo, exige-se algo a mais, ou seja, a violação do direito. Pela nova codificação, algumas possibilidades ficaram abertas, tais como a previsão expressa da boa-fé objetiva com a necessidade da observância dos deveres acessórios, a responsabilidade objetiva por força da periculosidade intrínseca à atividade desenvolvida, a possibilidade de gradação do quantum indenizatório consoante o grau da culpa e a possibilidade de uma nova teoria no que se refere ao nexo causal95.
O vocábulo responsabilidade, dentre outras acepções, serve para designar em seu sentido mais amplo, a atribuição, a um sujeito, das consequências de uma determinada ação ou evento. A responsabilidade civil, por sua vez, consiste na atribuição de um dano a um sujeito determinado, gerando assim o dever de indenização dos danos causados.
De acordo com o art. 927 do Código Civil, a obrigação de indenizar pode surgir em virtude da violação de um direito absoluto, ou ainda, de acordo com o art. 395, da violação de um direito relativo, bastando, para tanto, a presença de pressupostos legalmente estabelecidos para se chegar ao dano, independentemente do critério utilizado (culpa, risco ou sacrifício)96.
94DUARTE, Ronnie. Responsabilidade Civil e o novo Código: contributo para uma revisitação conceitual. In: NERY JR., Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Doutrinas essenciais: responsabilidade civil. 2. tir. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2010. v. 1, p. 430.
95Id. Ibid., p. 430. 96Id. Ibid., p. 430-432.
Dessa forma, com a evolução do instituto, tornou-se pacífico admitir hipóteses especiais de responsabilidade civil independentemente de culpa, reforçando a ideia de responsabilidade civil com o consequente dever de indenizar.
Dallegrave Neto, ao citar Pontes de Miranda, diz que a responsabilidade tem fundamento moral, porque se supõe, para a imputação, que o homem tenha de agir como ser que tem que se adaptar à vida e há de concorrer para crescente adaptação. O estudiosos segue dizendo que a ordem jurídica tanto pode ser perturbada pelo delito como pela mera ofensa patrimonial; que se recompõe via indenização, enquanto a paz social só se restaura pela pena97.
Assim, verifica-se que, atualmente, admite-se a junção da função reparadora com a função punitiva na esfera da responsabilidade civil. Nas responsabilidades pautadas na culpa, há também que se estar presente não apenas a função reparatória, como também a sancionatória.
Nesse sentido, o autor português Inocêncio Galvão Telles:
“A responsabilidade civil exerce uma função reparadora, destinando-se, como se destina, a reparar ou indenizar prejuízos por outrem sofridos. Mas desempenha também uma função sancionadora, sempre que na sua base se encontra um acto ilícito e culposo, hipótese a que nos vimos reportando, pois representa uma forma de reação do ordenamento jurídico contra esse comportamento censurável”98.
Também na mesma esteira e nas palavras de Rodolfo Pamplona e Pablo Stolze Gagliano, a noção jurídica de responsabilidade pressupõe a atividade danosa de alguém que, atuando, em princípio, ilicitamente, viola uma norma jurídica preexistente (legal ou contratual), subordinando-se, dessa forma, às consequências do seu ato (obrigação de reparar). E seguem os autores dizendo que a responsabilidade civil deriva da agressão a um interesse eminentemente particular, sujeitando, assim, o infrator, ao pagamento de uma compensação pecuniária à vítima, caso não possa repor o estado anterior99.
Antes mesmo de se adentrar nos elementos da responsabilidade civil, isto é, conduta (positiva ou negativa), danos e nexo de causalidade, frise-se que primeiro deve-se
97DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho. 5. ed. São Paulo: LTr, 2014. p. 93-94.
98Op. cit. p. 94. Apud DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 5.ed.
99PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. v. 3, p. 51.
discutir sobre o elemento culpa, que passou por um profundo desenvolvimento que se confunde com a própria evolução das teorias da responsabilidade civil.
Qualquer reflexão sobre isso, obrigatoriamente implica uma breve noção histórica da responsabilidade civil.
A responsabilidade civil tem sua origem no Direito romano e essa origem estava calcada na concepção da vingança privada, forma rudimentar, mas compreensível, de reação humana e pessoal contra o mal sofrido. A premissa era a manifestação natural e espontânea contra o delito, com o espírito de vingança, todavia, pela intervenção do poder público. Tratava-se da Pena de Talião, no até hoje conhecido: “olho por olho, dente por dente” ou “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.
Na chamada era da Lei de Talião (Lei das XII Tábuas), época em que inexistia a diferença entre a responsabilidade civil e a responsabilidade penal, questão esta que será tratada a seguir, demonstrou-se uma evolução, ao permitir a composição entre as partes (vítima e ofensor), evitando-se a aplicação incondicional da pena ao ofensor.
Alvino Lima, citado por Pamplona e Gagliano, quando trata do período da evolução da Lei de Talião, assinala que, embora subsistisse o sistema do delito privado, verificava-se a inteligência social, compreendendo-se que a regulamentação dos conflitos não era somente uma questão entre particulares. A Lei das XII Tábuas, que determinou o quantum para a composição obrigatória, regulava casos concretos, sem um princípio geral fixador da responsabilidade civil100.
Marco maior na evolução histórica da responsabilidade civil acontece com a edição da Lex Aquilia. A grande virtude da Lex Aquilia foi trazer, em seu sistema, a punição da culpa por danos injustamente provocados, independentemente da relação obrigacional preexistente. Sendo assim, a responsabilidade extracontratual é também denominada responsabilidade aquiliana.
Além dessa importante modificação no sistema, a responsabilidade aquiliana não se limitou a especificar melhor os atos ilícitos, mas também propugnou pela substituição de multas fixas por uma pena proporcional ao dano causado.
Do latim re-spondere, a palavra responsabilidade traz em seu significado a ideia de segurança ou garantia da restituição ou compensação do bem sacrificado. É a chamada
100PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil, cit., p. 52-53.
recomposição, obrigação de restituir ou ressarcir. Entre os romanos não havia distinção entre responsabilidade civil e responsabilidade penal, e a compensação pecuniária não passava de uma pena imposta ao causador do dano. Sem adentrarmos muito às diferenças entre uma responsabilidade e outra que ao longo dos anos foram se traçando, fato é que a responsabilidade penal é pessoal, intransferível e quem responde é o réu com privação de sua liberdade.
Já a responsabilidade civil é patrimonial, uma vez que será o patrimônio do devedor que responde por suas obrigações. Não existe privação de liberdade por dívida civil, exceto o devedor de pensão oriunda do direito de família. Diferente da responsabilidade penal que tem a tipicidade como um dos requisitos, a cível é gerada por qualquer ação ou omissão, desde que viole direito ou cause prejuízo a outrem (artigos 186 e 927 do Código Civil)101.
Maria Helena Diniz define responsabilidade civil como aquela decorrente da violação legal, de lesão a um direito subjetivo ou da prática de um ato ilícito, sem que haja nenhum vínculo contratual entre lesante e lesado. Resulta, portanto, da inobservância da norma jurídica ou de infração ao dever jurídico geral de abstenção atinente aos direitos reais ou de personalidade, ou melhor, de violação à obrigação negativa de não prejudicar ninguém102.
Etimologicamente, o vocábulo indenizar provém do latim indemme, que significa ileso, sem dano, incólume. Conclui-se, portanto, que a indenização de acordo com seu próprio significado, encerra a ideia de tirar o dano, retornando à situação jurídica anterior. Contudo, relativamente ao dano moral, como não há forma de recompor a situação anterior, estará presente apenas o caráter compensatório. Não se pode dizer então que a responsabilidade civil contém definição legal, um conceito próprio, uma vez que a doutrina a trata como uma sistematização de regras e princípios para a reparação do dano patrimonial ou a compensação do dano extrapatrimonial103.
No que tange ao fundamento da responsabilidade civil, este se divide em responsabilidade subjetiva e objetiva.
101GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: parte geral. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 1, p. 496-497.
102DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro: responsabilidade civil. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 515.
103DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 5.ed., p. 127- 128.
Historicamente, além da evolução que vai da culpa ao risco, da execução pessoal à responsabilidade patrimonial, é necessário enaltecer o Código Civil Napoleônico, pois, com o seu advento, a responsabilidade civil se revestiu de princípio geral e, além disso, a responsabilidade civil passou a ser sistematizada, transformando-se em instituto jurídico baseado na culpa manifestada pelo descumprimento de um dever geral de não prejudicar outrem (neminen laedere). O Código francês, dentre tantos outros códigos, repercutiu também no brasileiro de 1916, pela regra do art. 159 (responsabilidade delitual)104.
Na responsabilidade civil subjetiva, os pressupostos caracterizadores da responsabilidade civil que, por certo, deverão estar presentes, são: ação ou omissão, um dado, o nexo causal e a culpa do agente. A culpa do agente é o esteio da responsabilidade civil subjetiva. É a teoria clássica, teoria da culpa ou subjetiva, que pressupõe a culpa como fundamento da responsabilidade civil105.
A culpa aqui tratada, por ter natureza civil, se caracterizará quando o agente causador do dano atuar com negligência ou imprudência, regra prevista na primeira parte do art. 159106 do Código Civil de 1916, mantida, com aperfeiçoamentos, pelo art. 186107 do Código Civil de 2002.
A consequência que se verifica do dispositivo citado, qual seja, a instalação do ato ilícito, é a obrigação de indenizar e reparar o dano, cujos fundamentos estavam previstos nos artigos 1.518 a 1.532 do Código Civil de 1916 (Das obrigações por atos ilícitos)108.
Dentro da doutrina subjetiva, cada um responde pela própria culpa – unuscuique sua culpa nocet – e, por se caracterizar em fato constitutivo do direito à pretensão reparatória, caberá ao autor, sempre, o ônus da prova de tal culpa do réu.
Em termos empresariais, o princípio da culpa era extremamente benéfico ao sistema econômico vigente no século XIX. Esse princípio retirava do empresário a responsabilidade pelos danos ocasionados sem culpa109.
104DALLEGRAVE NETO, José Affonso. Responsabilidade civil no direito do trabalho, cit., 5.ed., p. 130. 105GONÇALVES. Carlos Roberto. op. cit., v. 1, p. 497.
106“Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”.
107“Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.
108PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil, cit., v. 3, p. 52-53.
No entanto, há situações em que a responsabilidade civil é atribuída a alguém por dano que não foi causado diretamente por ele, mas, por um terceiro com quem mantém algum tipo de relação jurídica. É a chamada responsabilidade civil indireta, sendo que a culpa não é desprezada, mas sim, presumida, em função do dever de vigilância do réu110.
Quando a culpa é presumida inverte-se o ônus da prova. Presume-se o comportamento culposo do causador do dano, cabendo-lhe demonstrar a ausência de culpa, para se eximir do dever de indenizar.
Em outras hipóteses, não é necessária sequer a caracterização da culpa, casos em que estaremos diante da responsabilidade civil objetiva.
Para a responsabilidade civil objetiva, é irrelevante a presença do dolo ou da culpa na conduta do agente causador do dano. É necessário apenas o nexo de causalidade entre o dano e a conduta para que haja o dever de indenizar111. Então, nos casos de responsabilidade objetiva, não se exige prova da culpa para que o agente seja condenado a reparar o dano. A responsabilidade objetiva é presumida pela lei e, conforme já mencionado, inverte-se o ônus da prova, pois o autor da ação só precisa provar a ação ou omissão e o dano resultante da conduta do réu, porque sua culpa já é presumida; exemplo disso é o caso do art. 936112 do Código Civil113.
Ainda, a noção de culpa desloca-se para a ideia de risco, que, de acordo com Carlos Roberto Gonçalves, será tratada como “risco-proveito”, que tem fundamento na reparação do dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi ônus, isto é, quem aufere os cômodos – lucros – deve suportar os incômodos ou riscos). Mais genericamente, é o risco criado ao qual se subordina aquele que expuser alguém a suportá-lo114.
Ainda para esse autor, o Código Civil brasileiro filiou-se à teoria subjetiva e é o que se verifica do art. 186, que ressalta o dolo e a culpa como fundamentos para a obrigação de
110PAMPLONA FILHO, Rodolfo; GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito civil: responsabilidade civil, cit., v. 3, p. 56.
111Id. Ibid., p. 56.
112“Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior”.
113GONÇALVES. Carlos Roberto. op. cit., v. 1, p. 498. 114Id. Ibid., p. 498.
reparar o dano, contudo sem prejuízo da adoção da presunção de culpa (parágrafo único do art. 927115).
A presunção de culpa, ou a responsabilidade objetiva, não substitui a subjetiva, posto ser a responsabilidade subjetiva insuficiente para atender às imposições do progresso116.
O que vige no Direito brasileiro é a regra dual de responsabilidade civil, qual seja: a responsabilidade subjetiva, regra inquestionável do sistema anterior, coexistindo com a responsabilidade objetiva, uma vez que, presente a atividade de risco, a lesão por conduta alheia deve ser reparada, independentemente da presença de culpa e, mais, notadamente em função da celebração de um negócio jurídico117.
No entanto, essa regra é de certa forma criticada, uma vez que, pouco importam os aspectos da responsabilidade civil apresentada, se subjetiva ou objetiva, uma vez que as soluções serão idênticas para ambos os casos e o que se exige, em verdade, é a configuração da responsabilidade pelas três condições: o dano, o ato ilícito e o nexo de causalidade118.