A mediação comunitária distingue-se por ser realizada no interior de bairros periféricos, onde os mediadores são, preferencialmente, moradores da própria comunidade, caracterizando-se também pelo fato de ser prestada de forma gratuita, sem quaisquer ônus financeiros para as partes.
O seu objetivo maior, numa visão dinâmica e interdisciplinar, é ultrapassar os conflitos concretamente considerados, prevenindo-os na raiz. Trata-se, pois, de um mecanismos voltado ao fortalecimento de práticas democráticas a partir da realidade própria das comunidades, pois ninguém melhor para perceber os percalços da tolerância e da paz do que as pessoas insertas no local conflituoso.
A partir dessa breve conceituação, extrai-se três características fundamentais à delimitação do potencial transformador da mediação comunitária, quais sejam: sua localização nos subúrbios das cidades; a actuação dos membros da comunidade como mediadores e, por fim, a gratuidade do serviço.
Quanto ao aspecto da sua localização, a mediação comunitária, por situar-se em bairros vulneráveis, tradicionalmente afastados da assistência jurisdicional, possibilita o alcance do escopo reverenciado na terceira “onda” de acesso à justiça.
Com efeito, o primeiro grande mérito da mediação comunitária é estreitar o contato entre as camadas sociais mais pobres52 e o acesso à justiça, permitindo não apenas uma solução justa para o problema, como também uma abordagem adaptada à realidade sócio-cultural que lhe é própria, simbolizando um maior respeito à identidade e à subjetividade das partes em conflito, sobretudo em comparação ao tratamento que receberiam do Poder Judiciário, onde o julgador, na grande maioria das vezes, desconhece a origem e vivência das mesmas.
Sob outra perspectiva, como salienta SALES (2004a, p. 135), “essa mediação dentro dos bairros fortalece a participação dos membros daquela comunidade na vida social, criando laços, oferecendo a estes responsabilidades para com os outros e consigo mesmos”.
Nesse mesmo sentido, SIX (2001, p. 171) evidencia que a mediação desenvolvida nas cidades e subúrbios possibilita às pessoas que ali convivem um instrumento capaz de libertá-las dos entraves comunitários integristas, permitindo-lhes compartilhar da efervescência de todas as realidades culturais e sociais que ali se produzem. Na verdade, a partir de uma visão mais ampla, o referido autor identifica a mediação com uma forma de antecipação da democracia urbana, nos seguintes termos:
A primeira mediação a fazer é a de devolver confiança às cidades e aos subúrbios, estudando-se a fundo sua realidade e potencialidades, e não as reduzir a bairros - ou a famílias - “problemáticos”, mas criar uma democracia urbana, pesquisa novas maneiras de os cidadãos tornarem-se cidadãos de fato, de responsabilizarem-se por sua cidade, por seu subúrbio, de criarem novos projetos para si. Os primeiros mediadores são aqueles que, mesmo sendo grandes técnicos, são sobretudo gente da rua, gente do ramo, aqueles que pensam em seu lugar dentro de uma visão de conjunto, que recusam todos os corporativismos e querem organizar juntos, com todos, uma vida em comum. (SIX, 2001, p. 171).
No que tange à possibilidade de pessoas comuns do povo tornarem-se mediadoras, tem-se que tal fato costuma gerar estranhamento junto à base da doutrina mais tradicional, que associa a falta de qualificação jurídica à uma deficiência de ordem técnica, a qual poderia vir a prejudicar a legalidade e a efetividade dos acordos celebrados nas sessões de mediação.
52 Como evidencia a análise de SANTOS (1999, p. 170): “quanto mais baixo é o estudo sócio-econômico do cidadão, menos provável é que conheça advogado ou que tenha amigos que conheçam advogados, menos provável é que saiba onde, como e quando contactar o advogado, e maior é a distância geográfica entre o lugar onde vive ou trabalha e a zona da cidade onde se encontram os escritórios de advocacia e os tribunais”.
Entretanto, não se pode deixar de ponderar que a função do mediador não é propriamente decidir qual é a melhor solução para o conflito, ou mesmo julgar a contenda pela aplicação de normas objetivas. O seu fim precípuo, dentro do contexto das sessões, é fomentar o rompimento da animosidade que esteja a embaraçar o diálogo inter partes, fazendo com que haja o restabelecimento do respeito mútuo, de modo a permitir que os mediados elaborem uma solução harmoniosa e mutuamente satisfatória para o problema.
Desta feita, forçoso concluir que os conhecimentos necessários ao exercício da mediação não decorrem exclusivamente dos livros de Direito Positivo ou das aulas ministradas nas faculdades jurídicas, exigindo antes adjetivações como alteridade, sensibilidade e bom senso. Nessa ordem, basta que os interessados em mediar conflitos, independentemente do nível de educação formal que possuam, se submetam à rigorosa capacitação multidisciplinar e se dediquem à prática mediada e à busca de um vínculo social comunitário.
Six (2001, p. 31), ao tratar dos “mediadores cidadãos”, assinala que, no decorrer da história, sempre existiram pessoas eleitas pelas coletividades para resolver as dificuldades e controvérsias do cotidiano. Não pelo seu poder, soberania ou autoridade, mas por sua sabedoria.
Ao lado dos mediadores institucionais há os mediadores cidadãos. Sua origem é totalmente diferente. Eles não são fabricados pelas instituições, são mediadores “naturais”, que nascem nos grupos sociais; são como que secretados por eles para as necessidades da comunidade. Eles não têm poder como tal, não são juízes que vão sentenciar nem árbitros aos quais se delega a conclusão de uma contenda; eles não têm mais do que a autoridade moral. Se alguém se dirige a eles é porque considera que são, não gurus que decidem, mas, ao contrário, sábios que sugerem. Eles abrem uma via nova em relação ao impasse em que alguém se perdeu, a um dilema do qual se quer sair, envolvendo a si mesmo ou aos outros.
A respeito do tema, Moore (1998, p. 48), ao categorizar os “mediadores da rede social”, explica que:
Os mediadores da rede social são indivíduos procurados por terem relacionamento com os disputantes e geralmente fazem parte de uma rede social duradoura e comum. Esse mediador pode ser um amigo pessoal, vizinho, sócio, colega de trabalho, colega de profissão, autoridade religiosa (padre, ministro, rabino, ‘ulama maometano, xamã) ou um líder comunitário ou idoso respeitado, que é conhecido por todas as partes e talvez alguém com quem essas partes já tinham um relacionamento. Ledereach refere-se à mediação da rede usando a expressão em espanhol – mediação de confianza (…).
Constata-se, pois, que a presença de pessoas dispostas a pacificar disputas na comunidade é prática que sempre existiu, ainda que revestida de diferentes formas. Nessa sequência, compete às instituições de mediação comunitária tão somente agregar tais mediadores cidadãos (ou mediadores da rede social), capacitando-os para o exercício desse papel de um modo mais organizado e eficaz.
Na medida em que congregam uma pluralidade de indivíduos, as instituições de mediação comunitária representam, sob a ótica política lato sensu, um espaço físico voltado ao efetivo exercício da cidadania e do bem-estar social, onde as pessoas da comunidade se encontram para resolver, com criatividade, problemas que as afligem individual ou coletivamente.
Conforme sublinha Sales (2004a, p. 136), a mediação comunitária estimula o indivíduo a participar ativamente da vida política da comunidade em dois sentidos: “quando possui a responsabilidade de resolver e prevenir conflitos (mediador) e ainda quando se tem a certeza de que existe um local, próprio da comunidade, direcionado a resolver as controvérsias que apareçam (mediados)”. Mendonça (2006, p. 33), aperfeiçoando essa ideia, complementa que:
A consciência sobre direitos e deveres e a construção de habilidades em comunicação traz em seu bojo um processo implícito de transformação social do grupo. Como consequência natural, o grupo tende a adotar um novo comportamento frente aos problemas comuns e aos conflitos interpessoais, e a transformação pode funcionar como facilitadora da adoção de uma nova abordagem para a solução de problemas e conflitos relacionados com os moradores da comunidade, através das próprias partes envolvidas, da atuação de agentes locais e da atuação de mediadores de conflitos interpessoais.
Portanto, a mediação comunitária viabiliza a construção de uma identidade política comum, ou melhor, a construção de um senso de pertencimento físico e espiritual com relação a uma dada localidade.
Noutro giro, cumpre lembrar que as ações judiciais foram criadas no intuito de permitir a realização coercitiva de direitos, impondo um fazer, deixar de fazer ou permitir fazer a determinada pessoa em face da sua resistência à pretensão de outrem. A mediação, ao revés, trabalha em prol da dissolução das pretensões resistidas, objetivando que as próprias
partes determinem a melhor abordagem e solução para o conflito, sem a necessidade de uma coação externa.
Por regra, essa busca pela harmonização dos interesses contrapostos afasta maiores preocupações com aspectos legais que venham a envolver o caso objeto da mediação. Fora isso, tem-se que a maioria dos comportamentos previstos/regulamentados em lei pautam-se em valores morais comuns, de modo que mesmo desprovido de instrução jurídica formal, o mediador consegue identificar o modo como deve agir a partir do uso do bom senso.
No entanto, não se nega que ter um mínimo de noção sobre critérios legais é importante para que o mediador saiba até onde pode ir a sua actuação. Por isso é que os cursos de capacitação e atualização são de grandeza ímpar, afinal, eles fornecem aos mediadores instruções jurídicas básicas, além de conhecimentos de outras áreas também relevantes para a práxis da mediação, a exemplo de técnicas da psicologia e linguagem.
Desta feita, o fato dos mediadores serem pessoas da própria comunidade não deve representar motivo de preocupação ou cautela excepcional. Ao revés, este mecanismo deve ser visto pela lente do fomento à democracia material, como um estímulo para que os indivíduos se envolvam nas demandas locais.
A mediação, ao promover a capacidade para a autogestão, empodera a comunidade sob uma perspectiva relacional: um poder comunitário traduzido na expressão “poder com o outro”; na horizontalidade da conquista compartilhada e no resgate da consciência de que cada ser humano, num contexto coletivo, identifica-se como ator social, protagonista de destinos.
Por último, convém destacar a gratuidade da mediação comunitária, característica essencial à sua condição de mecanismo de inclusão social, permitindo que os indivíduos de baixa renda solucionem suas controvérsias e rompam com a influência do gravame econômico para efetivação do acesso à justiça, obstáculo sintetizado na primeira “onda” da categoria teórica formulada por CAPPELLETTI e GARTH (1988).
O seu financiamento - tema que poderá ser melhor visualizado no tópico a respeito das experiências de mediação comunitária - costuma decorrer de parcerias firmadas com o Poder Público ou com organizações não-governamentais.
Os mediadores, em regra, são voluntários, fato que, por si só, não descaracteriza enquanto comunitária a mediação que venha a se desenvolver mediante contraprestação
pecuniária, desde que o pagamento pelos serviços prestados seja realizado pelo Estado ou por outra pessoa/entidade que não os mediados.
Interessante notar que, sob certa perspectiva, este pagamento pelos serviços prestados pelos mediadores traria uma série de benefícios para as comunidades, pois uma vez remunerados, os mediadores incrementariam sua renda familiar, viabilizando, na prática, uma maior dedicação ao exercício da função, com chances de uma efetiva profissionalização, de modo a fortalecer não apenas o quadro permanente de mediadores, como também a própria prestação do serviço e a movimentação da economia local.