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4 O BOM POLICIAL É MAU: O ETHOS GUERREIRO DO POLICIAL

4.1 O CONCEITO DE ETHOS GUERREIRO

Ao tratar do processo civilizador, Elias (1993) sustenta que a formação do Estado na Europa (sobretudo o Estado francês), por meio da aliança entre soberano e nobreza, se fez acompanhar por uma internalização de hábitos “civilizados”, com o refinamento de costumes e a autocontenção da nobreza resultante da formação de um “superego” a partir de pressões externas – o monopólio estatal da violência legítima. Essa internalização, em obras posteriores (ELIAS, 1994; 1997), é concebida como a constituição de um habitus – “saber social incorporado” (ELIAS, 1997)62.

Assim, Elias (1993) descreve a ascensão de um modo de ser que traduz aquilo que as sociedades ocidentais identificam como “civilizado”, em oposição a práticas medievais, por exemplo. Destaca, com isso, a retirada da violência da vida social, considerando que a nobreza passa a constituir uma corte que detém prestígio e privilégios e, ao incutir proibições externas, para o convívio junto ao rei, abandona sua condição de cavaleira/guerreira e passa a ter vergonha de adotar certas condutas e a sentir repugnância quando elas são praticadas pelas classes inferiores.

61 O uso desse conceito foi sugerido pelo professor Leonardo Sá (UFC), após a apresentação de uma

versão preliminar dessa pesquisa no 42º Encontro Anual da ANPOCS (2018).

Em Os Alemães, no entanto, Elias (1997) explicita que o processo “civilizador” não tem um sentido teleológico e pode, portanto, ocorrer no sentido de uma “descivilização” (WAIZBORT, 1998). A obra consiste em diversos ensaios cujo objetivo é compreender o “surto de descivilização” durante a República de Weimar, com a ascensão de Hitler e o genocídio praticado63. Para isso, o autor passa a teorizar, comparativamente, o caso alemão e pondera que a unificação do Estado, feita séculos depois da França, se dá em torno de uma nobreza não assentada em torno do rei como corte, o exército prussiano. Com isso, o ethos guerreiro, associado a essa nobreza, alçada imediatamente como estrato privilegiado da sociedade, assumiria um status nacional, com sua difusão entre camadas médias burguesas de inspirações anteriormente mais humanistas. Elias (1997) aponta, no entanto, que essa adesão ao modelo militar ocorreu de forma deturpada, uma vez que essas camadas perdiam a noção, na prática, de “até onde se poderia ir na aplicação de modelos aristocráticos”, passando a apoiar “o uso ilimitado do poder e da violência” (p. 27). Como exemplo sintomático de “vulgarização grosseira de modelos aristocráticos”, apresenta a exigência que se passa a fazer quanto à pertinência à “raça ariana”. O ethos guerreiro pode ser definido, assim, como um

modelo de comportamento baseado na ordem e no mando, na disciplina do exército, no código de honra, [que implica] (...) a aceitação do "emprego ilimitado do poder e violência" (...) como instrumentos legítimos da política e da vida social na nação, como meios privilegiados na resolução de conflitos internos e externos (WAIZBORT, 1998, s/p)

Elias (1997) considera a ascensão do nazismo possível devido à incorporação desse ethos, por exemplo, pela disseminação entre a burguesia de práticas nobres violentas, como os duelos, um “incentivo socialmente regulamentado à violência” (p. 30) em um Estado “incapaz de conter o uso ritual generalizado da violência” (WAIZBORT, 1998, s/p). A difusão dessa maneira de pensar e se comportar ocorre a partir da valorização de um ideal aristocrático “ariano”, com a “aceitação do fato de que os homens são diferenciados – nobres ou não, honrados ou não, arianos ou não –, de que há uma hierarquia social acentuada que deve ser preservada” (WAIZBORT, 1998, s/p).

63 Elias (1997) responde às críticas à teoria do processo civilizador, que havia se baseado no exemplo

francês e foi elaborada pouco antes do holocausto, apontado como símbolo da não-civilização europeia (WAIZBORT, 1998).

Essa é a base do emprego massivo da violência, expresso em todas as práticas contra judeus que culminaram na “solução final”, de modo que o ethos guerreiro incorpora em si o embrião do genocídio (ELIAS, 1997). Para além dessa particularidade alemã, do nazismo, interessa-nos pensar, por meio da ideia de ethos guerreiro, as representações64 (PORTO, 2009) da PMBA sobre si mesma, partindo de que as reflexões de Elias “são modelos para pensar os processos de formação de identidades coletivas em geral” (WAIZBORT, 1998, s/p)65, não apenas as nacionais.

O ethos guerreiro pode ser interpretado como a assunção de um modelo sancionado socialmente de violência e desigualdade (ELIAS, 1997). Essa ideia ajuda a pensar um certo padrão discriminatório observado em práticas adotadas por integrantes da PMBA junto à população negra e pobre de bairros populares e tem como correspondência o tratamento dispensado ao homo sacer de Agamben (2010), a vida nua do campo de concentração, frequentemente associado às favelas (OLIVIERA JÚNIOR, 2013; ZACCONE, 2015). Com isso, veem-se as duas perspectivas de como a reflexão sobre a experiência alemã pode ajudar a compreender, de um lado, o que dá apoio a uma certa maneira de ver o matar – um conjunto simbólico que hierarquiza sujeitos, expresso na adesão a um ethos guerreiro (ELIAS, 1997); de outro, a vida nua do inimigo de guerra, cuja expectativa social é de que seja de fato extirpada (AGAMBEN, 2010)66.

Longe, porém, de importar esse conceito diretamente ao contexto baiano67, a reflexão sobre o ethos guerreiro permite pensar a valorização da morte do “bandido” – sujeitos pobres, negros e de bairros populares – como um obstáculo à construção de práticas policiais direcionadas à democracia. O ethos guerreiro é descrito como

64 Faço referência ao conceito de representações sociais (que remonta a Durkheim): “noções por meio

das quais os indivíduos buscam se situar no mundo, explicá-lo e apreender sua maneira de ser” (PORTO, 2009).

65 Esse uso aproxima a ideia de ethos à de habitus bourdieusiana. Ethos é, para esse autor, um

esquema de avaliação internalizado no sujeito. Trata-se de um dos componentes do conceito de habitus, que pode ser definido como um conjunto de disposições incorporadas com a socialização como esquemas de percepção (eidos), avaliação (ethos) e ação (hexis), mobilizados pelos sujeitos como uma matriz geradora de condutas (BOURDIEU, 2001; 2004).

66 Sobre isso, ver capítulo 6.

67 A ideia de Elias a respeito de um ethos guerreiro subentende um ethos “incivilizado”, tipo de

elaboração que considero equivocada. Utilizei “civilização” sempre entre aspas, uma vez que rejeito esse tipo de rótulo à sociedade ocidental – partilho da crítica feita por Edward Said, na qual o oposto de civilização são os incivilizados – isto é, as colônias ou as sociedades autóctones, por exemplo. Apesar disso, Elias esteve atento às acusações de etnocentrismo feitas à sua teoria, ao afirmar que “civilização” parte de como a própria sociedade ocidental se reivindica (WAIZBORT, 1998); não é, assim, um fato objetivo. Não considero que haja uma relativização do caráter colonial desse conceito, ao usar “civilizador” de forma acrítica como categoria.

extremamente refratário à resolução de conflitos por outra via que não a violência (ELIAS, 1997). Isso reflete a facilidade com a qual os policiais recorrem ao matar e à “quarta parte”, bem como a inadequação dessas práticas do ponto de vista de um Estado democrático:

O ethos guerreiro, aclimatado em habitus nacional alemão, dá lugar a uma explicação poderosa dos desenvolvimentos ocorridos por aquelas bandas: explica a dificuldade de implantação e implementação de um regime democrático. Democracia exige diálogo, um diálogo cujo modelo inicial teria sido a comunicação entre nobreza e burguesia (como na França) ou entre o rei e a aristocracia (como na Inglaterra). A oposição entre ditadura e democracia está, portanto, delineada. Elias discute a naturalidade com que os alemães aceitam a presença de milícias paramilitares e a "inadequação" de procedimentos democráticos na resolução de suas dificuldades. (...) Os alemães (...) permanecem refratários a uma solução dos conflitos sem a utilização da violência; a crítica e a incapacidade de aceitar e implementar um regime parlamentar – como mostra Elias reiteradamente na análise do período da República de Weimar – apontam para a solução dos conflitos por vias violentas, e a "guerra total" de Hitler (assim como a "solução final") nada mais é do que a potencialização dessa lógica (dirigida, respectivamente, aos "inimigos" externos e internos). (WAIZBORT, 1998, s/p)

A adesão a uma prática de guerreiro é um dos expedientes que confrontam diretamente com a democracia, na PMBA. O “bom policial”, que age de acordo com uma espécie de ethos guerreiro, tem em si naturalizados o recurso à morte e à tortura, e está presente nas representações da própria tropa, por meio das quais é possível retraçar distinções de si e do outro. Passo, por ora, à análise desse ethos guerreiro por meio das representações valorizadas e desvalorizadas dos membros da PMBA (vide Figura 2).