Durante as décadas de 80 e 90, pesquisas na área educacional apontavam que as problemáticas e dificuldades da Educação tinham como foco principal os discentes, já que sua relevância e centralidade no processo educativo eram prioritárias. Era necessário, contudo, ter um olhar mais apurado acerca das questões referentes ao profissional docente (REBOLO; BUENO, 2003).
Na década de 1970, temos o início das pesquisas relacionadas ao exercício da docência, refletindo assim a preocupação de pesquisadores da área educacional. Já a partir da década de 1980, especialmente na Europa, surgiram discussões sobre as inúmeras dificuldades encontradas pelos docentes, pois a profissão de "professor" já não era tão atraente aos jovens estudantes. Nesse período, a figura do professor e suas práticas pedagógicas passaram a receber uma maior atenção dos pesquisadores.
Rebolo e Bueno (2003, p. 66) salientam que “[...] os professores e a temática de sua formação levaram um tempo maior para ocupar espaços mais privilegiados, tanto no âmbito das políticas educacionais como no das agendas de pesquisa”, entretanto, após esse período, “[...] as práticas de ensino começaram a receber maior atenção e foram complementadas, progressivamente, por um olhar sobre a vida e a pessoa do professor.” (REBOLO; BUENO, p. 66).
Jesus (2004), em seus estudos, verificou que a partir da década de 1980 a investigação sobre o mal-estar docente apresentou aumento significativo decorrente, principalmente, da intensificação dos sentimentos de mal-estar entre os docentes.
A partir de então, iniciaram-se os debates sobre a insatisfação dos professores e também sobre os aspectos como a degradação da estrutura física dos prédios escolares, das condições de trabalho, da remuneração dos professores e o aumento na jornada de trabalho. Contudo, somente a partir da década de 1990 que os debates ganharam mais força, ficando notórios alguns fatores que teriam contribuído para a disseminação do desencanto pela profissão docente.
Muitos professores sentem-se inquietos, com dificuldades para acompanhar as inúmeras mudanças na sociedade, e acabam por se encontrar diante de um grande desafio: atender às demandas sociais que estão em transformação, produzindo assim contínuas críticas sociais, já que não conseguem dar conta das novas cobranças e desafios postos nas escolas.
As mudanças em nossa sociedade são de ordem social, econômica e política. Na ordem social, podemos destacar a importância da escola e da figura do professor para nossa sociedade. Contudo, temos enfrentado não apenas uma desvalorização dos papéis da escola pública, mas também dos professores que nela atuam.
A partir da democratização da Educação Básica, tem-se notado um discurso ideológico que localiza o fracasso e a inferioridade dos sujeitos (no nosso caso, os professores), acabando por contribuir para manter velada a produção histórica e social dos fracassos da escola pública atualmente. Nesse sentido, o argumento que tem a pretensão de explicar a baixa qualidade da educação pública, elegendo itens como a formação docente como um dos elementos centrais, desconsidera que
[...] a qualidade do ensino é resultado de uma combinação complexa de diversos aspectos que envolvem pelo menos as condições concretas de trabalho soa as quais os educadores realizam sua prática docente e as condições e características diversas de seu corpo docente e discente que dão existência concreta a escola em termos de reprodução, contradição, conflito ou transformação social. (SOUZA, D; SOUZA, M. 2006, p. 50).
Souza D. e Souza M. (2006) salientam que a questão da qualidade do ensino oferecido não se limita apenas à formação dos professores, mas de uma combinação de diferentes e complexos aspectos, sendo imprescindível que todos possam convergir para único objetivo para que a escola realmente exerça seu papel dentro da nossa sociedade.
Na ordem econômica, podemos citar a desvalorização da remuneração dos profissionais docentes, já que muitos ainda têm uma remuneração menor do que a estabelecida pela Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008, também conhecida como Lei do Piso Nacional do Magistério.
E na ordem política, as reformas educacionais são introduzidas a partir da década de 80 com propostas de profissionalização docente, no entanto, essas propostas ainda estariam vinculadas às pesquisas que atribuem aos docentes responsabilidades em relação ao fracasso e ao baixo desempenho escolar dos alunos.
Além das inúmeras transformações nas ordens sociais, econômicas e políticas já citadas, não podemos deixar de citar as transformações que estão associadas à formação docente, sendo em sua grande maioria, aligeiradas, contribuindo negativamente para melhoria das ações educativas. Na prática isso significa uma formação docente que não atende aos pré- requisitos para atuação dos docentes nas salas de aula, culminando assim com o mal-estar entre os docentes.
Ainda constata-se uma grande incidência de docentes que necessitam de licença para tratamento de saúde e/ou acompanhamento psicológico e psiquiátrico, mas, apesar das adversidades na ação educativa, existem docentes que conseguem encontrar em sua prática aspectos positivos, utilizando esses aspectos para o desenvolvimento de seu bem-estar e continuidade no exercício da docência.
Stobäus, Mosquera e Santos (2007, p. 262) também afirmam que os diferentes problemas que encontramos na prática docente estão “[...] ligados à própria origem, ao desenvolvimento histórico e à valorização social dessa profissão.” Sendo assim, os problemas originados na prática docente fazem parte da historicidade da docência, levando em consideração fatores políticos, econômicos, sociais e culturais que envolvem a prática docente. Com as mudanças sociais, econômicas e políticas que ocorreram nas últimas décadas e com a democratização do conhecimento, o professor foi perdendo o status que ocupava na sociedade, e sua profissão passou a ser desvalorizada.
Neste aspecto, a exigência tem sido tamanha que se chega ao ponto de culpar os professores pelo não cumprimento “real” da sua função, além de desejar que assumam uma nova postura. Entretanto, não se oferecem as condições necessárias a fim de que possam corresponder a essas expectativas. Esses fatores acabam por trazer consequências tanto para o próprio professor quanto para todos que têm relação com sua prática pedagógica, como alunos e sociedade.
Para a discussão do conceito de mal-estar docente, fundamentaremos nossas considerações em Esteve (1994) e Jesus (2004). Esse conceito, segundo Esteve (1994, p. 24- 25), vem sendo utilizado para “[...] descrever os efeitos permanentes de caráter negativo que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que se exerce a docência.”
Para Jesus (2004, p. 122), o conceito de mal-estar se “[...] traduz em um processo de falta de capacidade por parte do sujeito para fazer face às exigências que lhe são colocadas pela sua profissão.” Esse autor também mostra as três etapas que seriam vivenciadas na constituição do mal-estar docente. Na primeira etapa, as inúmeras exigências da profissão docente excedem os recursos do docente, gerando estresse; na segunda, o docente busca se esforçar para corresponder às exigências feitas; na terceira, começam a aparecer os sintomas do mal-estar docente.
Na mesma perspectiva, Esteve (1994, p. 153) afirma que “[...] o mal-estar docente é uma doença social produzida pela falta de apoio da sociedade aos professores, tanto no terreno dos objetivos de ensino, como no das retribuições materiais e no reconhecimento do status que lhes atribui.”
Diante da realidade apresentada, podemos dizer que inúmeros fatores contribuem para o desgaste da profissão docente, entre eles, a universalização do acesso à educação sem a reorganização dos sistemas de ensino, a má qualidade do ensino oferecido aos alunos, a diminuição dos investimentos na educação, a diminuição dos salários dos professores, o
aumento da jornada de trabalho, a desvalorização e desprestígio da profissão docente, gerando assim o mal-estar docente em nosso contexto histórico. Neste sentido, consideramos fundamental relatar, a seguir, as consequências do desenvolvimento do mal-estar dos professores.