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CAPÍTULO 1: DISCUTINDO HISTÓRIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE

1.2 Conceito Memória

Quando inquiridos os alunos sobre como conceituam “memória”13 e sua relação com o conceito de “história”, se há diferença entre ambos, os discentes responderam:

TURMA 301 – 2017

 Lembranças inesquecíveis de acontecimentos, de coisas que sempre serão lembradas por algum motivo. (Erick)

 Memória é uma forma de guardarmos lembranças, boas ou ruins, que de alguma maneira afetaram as nossas vidas. (Débora)

 Eu entendo que seria um espaço de armazenamento, onde tudo que aprendemos, vemos, ouvimos, tudo fica guardado, mas nem tudo conseguimos guardar. (Eliandra)

 É uma lembrança de um acontecimento que já passou. (Gabriel Antunes)

 É onde ficam as principais memórias de um lugar, aquilo mais importante, como o Museu que guarda algo de valor que passa de geração para poder contar o fato que já foi ocorrido. (Gustavo)

 É algo que é lembrado de um determinado lugar, ou de pessoas. (Diego Victor)  É algo que foi produzido por nós. Memórias são conteúdos que ficam gravados em nossos pensamentos e usamos para nos lembrar de algo ou objeto que influenciou em nossas vidas. (Luã)

 Memória é uma coisa que se guarda e se relembra vários momentos de nossa vida e ter sempre memórias boas e ter memória não é se memorizar e sim relembrar. (Taiana)  É a seleção de partes de um acontecimento que são escolhidas, ou lembradas. (Tiago Danin)

 Pode se basear entre recordações, ou seja, um objeto por exemplo um relógio de família ou até mesmo uma foto de infância. Memória nada mais é que lembranças que carregamos, histórias que contamos pode ser dita como saudade. (Clayderson)

 É quando relembramos das histórias já vividas no passado. (Maricely)

 É tudo aquilo que é contado por alguém, mas que não pode ser concretizada. (Alzira)  É aquilo que julgamos lembrar, coisas boas ou ruins que aconteceram no passado e relembramos. (Márcia)

 Algo que se é deixado como lembrança. (Elisabele)

 Uma coisa que aconteceu, porém que existe apenas na lembrança, tipo contar uma história a uma pessoa sem ter provas, ou até mesmo, não saber contar algo que existe apenas em nossas lembranças. (Jhonatan)

 É o que todos nós temos, que é lembranças boas ou ruins do passado. (Júlio César)  São lembranças de época e períodos bons e ruins voltados na história. (Fabíola)

13 No questionário de 2017 não havia a dimensão da comparação entre história e memória, apenas no de 2018.

 Memória vem com um fato que aconteceu e que a pessoa ainda lembra e fica guardado. (Brenda)

 São registros deixados para que outros vissem as suas memórias que foram registradas. (João Pedro)

 É o ato que temos de armazenar e recordar em nosso cérebro sobre histórias em que participamos. (Fernando)

 Memória é algo que está guardado em nossas mentes. (Fabiana)

 São as lembranças que cada um carrega em mente seja ela verdadeira ou não. (João Victor)

 É algo que já ocorreu, mas está na memória e na verdade corre também o risco de cair no esquecimento. (Eliane)

 É tudo aquilo que faz parte da nossa história, lembranças do que um dia representa algo importante para nossa vida, para um Estado, um País, é o que nós lembramos com carinho e não queremos esquecer. (Ana Maria)

 Podemos lembrar e contar fatos da memória, conhecimentos vividos e que são lembrados, como a infância, tudo o que fazemos ou vivemos fica na memória e pode ser lembrado e relatado. (Elda)

 A memória é tipo uma história de alguma pessoa. A memória daquela pessoa fica guardada nos livros e vai se espalhando de geração em geração. (Pablo)

 Lembranças que marcaram ou marcam algo importante na vida de alguém. (Rhillary)

TURMA 302 – 2017

 É quando guardamos algo ou fatos que já aconteceram e que fazem parte de nossas vidas para que não venha ser esquecido e deixado para trás. (Talita)

 São fatos que aconteceram no passado e que nós recordamos desses fatos no presente. (Gabriel Silva)

 É aquilo que você tem guardado na memória, algumas coisas você lembra outras você não lembra. (Maria Eduarda)

 É o surgimento de algo. (Hebiny)

 Memória é completamente diferente de história, memória é aquilo que eu quero lembrar ou não, memórias não são relatadas como a história é. (Jeferson)

 É tudo aquilo que vimos e vai ficando, e fazendo parte de tudo que já aconteceu em nossas vidas, tendo a capacidade de armazenar o que tipo já marcou nossa vida, como algo bom. (Carlos Daniel)

 Lembranças que vão sendo obtidas ao longo da vida. (Lilian)

 É o que já aconteceu há algum tempo e você ainda lembra ou não. São histórias que você passa a buscar, que você vai tentar lembrar. (Tathyana)

 É aquilo que está guardado e que ocorreu e com o passar do tempo os mais velhos podem falar para os mais jovens que não conviveram com o passado. (Pamela)

 São lembranças que são constituídas a partir de conhecimentos materiais ou imateriais vividas pelo indivíduo. (Shirley)

 É algo lembrado que é somente marcado com seus acontecimentos antigos, aonde se pode viver em lugar de memória. (Maria Eduarda)

 Lembranças de algo, fotografias, registros de alguma coisa que já aconteceu e que de alguma forma seja positiva ou negativa, nos faz lembrar. (Mylena)

 Relembra fatos que já aconteceram, seja de guerra ou morte. (Gabrielly)

 É por exemplo quando uma pessoa fez algo ou um acontecimento que ficou marcado pra história que vai ser sempre lembrado e contado. (Amanda)

 É algo passado que uma pessoa se lembra, como algo especial ou algo que aconteceu com ela. Ou guarda na memória coisas que fez no passado. (Tiago Chaves)

 Algo que nos faz lembrar algo marcante, como acontecimentos e algum Patrimônio Cultural que servem para lembrar de alguma época que ficou na memória. (Jhon)  É aquilo que foi marcado em uma época que marcou um acontecimento histórico que irá viver muito tempo na história ou para sempre. (Jardel)

 É tudo aquilo que foi feito no passado pelas pessoas, hoje são lembradas como os Casarões, prédios antigos, etc. (Leonardo)

TURMA 301 – 2018

 A História estuda acontecimentos. A memória são os acontecimentos vividos. (Carlos Gabriel)

 O que aconteceu e você guarda na memória. (Karlla)

 Acho que não. Memória e história são para nos fazer lembrar. (Rosa Patrícia)

 Memória é o que se guarda, o que podemos esquecer. História é o passado guardado por outras pessoas, em Museus, por exemplo. (Brenda)

 História é algo que passou, memória são lembranças que temos. (Vanessa)

 A memória é algo que obtemos com o passar do tempo. A história é algo real e não real. (Luzivania)

 Tem a ver com lembrar. História também faz isso de uma forma diferente. (Gean)  A memória é o que memorizamos. A história deve ser estudada. (Ana Caroline)  Fatos que uma pessoa viveu e lembrou. A história é contada sistematicamente, a pessoa que conta não precisa exatamente a ter vivido. (Gabriela)

 A memória é algo que aconteceu e não pode ser mudado. A história expões os fatos e faz com que o indivíduo não reproduza certas ações que ocorreram no passado. (Vyvian)  O conjunto de memórias forma a história. (Evandro)

 É o que fica em nossa cabeça. Na minha opinião não existe diferença. (Elma)

 Assim como a História, a memória é uma forma que temos de lembrar fatos que ocorreram no passado e que também utilizamos através de fotos, cartas, etc. (Esthepane)  É o que te faz lembrar. História é o que aconteceu, que pode ser estudado. (Mário)  Memória é aquilo que não é esquecido. A História é o que marcou época. (Larissa)  Memória é o que está encravado em sua mente. A diferença é que a História conta aos outros o que aconteceu e memória fica só na mente. (Geisa)

 É tudo que aconteceu e depois lembra de tudo. A diferença é que a história conta o que aconteceu e a memória lembra do passado. (Daniel)

 Pra mim não existe diferença. (Yasmin)  Não existe diferença. (Raul)

 Memória é algo que apenas uma só pessoas é capaz de lembrar. A História estuda fatos históricos que ocorreram no passado. Já a memória são acontecimentos vividos por uma só pessoas e só ela é capaz de lembrar. (Ana Cristine)

 Memória é tudo aquilo que fica na lembrança de alguém. Aquilo que já existiu e hoje não existe mais. História está relacionada com memória porque faz parte do passado. (Andrielli)

 Memória são todos os momentos bons e ruins da vida que guardamos em nossa mente. História serve para estudarmos o que aconteceu em nosso passado. Memória é onde guardamos todos os momentos de nossa vida. (Luan)

 História é uma coisa que já foi, passou. Memória é o que a gente tem em mente. (Mayara)

 Há uma grande diferença: História é produzida no passado e no que aconteceu. Memória refere-se às lembranças de um período histórico. Mas ambas trabalham em conjunto. (Laynne)

 Memória é para lembrar de alguma coisa que gostamos, que nunca vamos esquecer. (Emanuel)

 Não há diferença. Ambas estão relacionadas. As memórias são marcadas por histórias. (Ádria)

 Sim, existe. A História é o que fazemos e o que fazemos fica na memória. (Kauane)  Sim. A história são fatos passados e memória são lembranças de algo verídico. (Jéssica)  Acho que não, pois a História vem de memórias antigas. (Geovana)

TURMA 302 – 2018

 Memória é uma forma de se lembrar das coisas que aconteceram há muito tempo que ficam como lembrança, igual na história que relembra acontecimentos antigos e atuais. (Bruna Sousa)

 Coisas que já aconteceram e ficam na memória. Pode sim existir diferença entre história e memória. Mas não consigo ter ideias para explicar. (Keyse)

 Memória é algo que você lembra porque viveu. Existe sim a diferença, porque a memória é algo que você viveu naquele lugar, e a História é algo que você aprendeu sobre o lugar em que você se encontra. (Raissa)

 Memória está relacionado ao acontecimento vivido em uma determinada parte da sua vida. Este conceito é diferente de História. (Renan)

 Memória é algo que se guarda uma lembrança ou um objeto. Sim, porque uma conta os fatos o outro a lembrança. (Joseana)

 Tudo aquilo que guarda momentos, fatos, etc. Existe uma semelhança entre História e memória, pois os dois podem ou até mesmo servem para lembrar ou relatar fatos. (Tássila)

 Memória pode ser um conceito de preservar alguma coisa. (Wellington)

 Memória é o que nos faz dar sentido ao significado da palavra História, pelo fato de que se uma pessoa não tiver uma memória, essa pessoa não consegue relatar tal fato acontecido no passado. (Wesley César)

 Talvez a memória esteja completamente ligada a História, pois a História é construída com fatos antigos que podem ser provados, e esses fatos estão ligados a memória. (Wesley Gabriel)

 Memória é tudo aquilo que já aconteceu em sua vida e também é História e sua História de vida em minha opinião não há diferença. (José Vitor)

 Memória são lembranças que a gente tem do passado e como e como eu disse História é coisa do passado então não existe diferença. (Williams)

 Sim a memória são lembranças que ficam no seu cérebro. A História são contos da sua origem para o que você é agora. (Victor Wilson)

A maioria dos alunos destacou o ato de lembrar, guardar, não esquecer. O estudante Jeferson (302, 2017) apontou a diferença entre História e memória, apesar de não desenvolver argumentação, assim como deixou implícito que o esquecimento faz parte da memória. A Ana Maria (301, 2017) destacou a importância da memória como integrante de nossa história de vida. O Luã (turma 301, 2017) evidenciou memória como algo produzido por nós. Enquanto o Tiago Danin da 301 (2017) salientou a seleção daquilo que lembramos. Notamos que alguns alunos apresentam significados próximos de autores especialistas no tema.

A discussão clássica de Maurice Halbwachs apresenta a memória como o resultado de influências externas. Aponta nossas lembranças como coletivas, mesmo quando se referem a acontecimentos vividos individualmente, pois, segundo o autor, nunca estamos sós. Estamos sempre acompanhados, em nossos pensamentos, dos grupos de que fizemos ou fazemos parte (HALBWACHS, 1990, p. 26). Para o sociólogo, até quando imaginamos que nossas lembranças são pessoais, essas estão vinculadas a algum grupo, como quando cita o exemplo das memórias infantis que se associam ao ambiente familiar. Portanto, fala das dificuldades de uma lembrança ser de fato extraída de uma pessoa, sem que sofra influência do que já se viveu em sociedade (HALBWACHS, 1990, p. 39). Assim, a memória individual está estreitamente relacionada à coletiva, sendo colocada como uma perspectiva tomada a partir da coletividade.

No mais, se a memória coletiva tira a sua força e sua duração do fato de ter por suporte um conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que se lembram, enquanto membros do grupo. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apoiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com a mesma intensidade para cada um deles. Diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios. Não é de admirar que do instrumento comum, nem todos aproveitam do mesmo modo. Todavia quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influências que são, todas, de natureza social (HALBWACHS, 1990, p. 51).

Entretanto, nessa visão, a influência do externo nas lembranças sugere negociação e seletividade entre o individual e o coletivo, omitindo disputas, enquadramentos, relações de poder expressas por aqueles que fazem valer a sua memória como aquilo que deve ser lembrado por todos. Os exemplos citados por Michael Pollak do processo de “destalinização”14 na União Soviética, acerca dos judeus que sobreviveram aos campos

de concentração nazistas e em relação à aceitação e resistência francesa à dominação alemã, inclusive no caso dos franceses recrutados compulsoriamente a compor o exército alemão, mostram como “memórias subterrâneas”15 traumáticas contrastam com a ideia

de memória coletiva harmônica, sem relações de poder em jogo (POLLAK, 1989, p. 4- 7). Lembranças que ficaram em silêncio durante décadas por motivos ligados às políticas de Estado ou por motivos particulares, emergiram a partir das mudanças de contextos políticos e/ou da vontade dos envolvidos, perto do fim da vida, de não deixar essas memórias se perderem.

Esse reconhecimento do caráter potencialmente problemático de uma memória coletiva já anuncia a inversão de perspectiva que marca os trabalhos atuais sobre esse fenômeno. Numa perspectiva construtivista, não se trata mais de lidar com os fatos sociais como coisas, mas de analisar como os fatos sociais se tornam coisas, como e por quem eles são solidificados e dotados de duração e estabilidade. Aplicada à memória coletiva, essa abordagem irá se interessar portanto pelos processos e atores que intervêm no trabalho de constituição e de formalização das memórias. Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à "Memória oficial", no caso a memória nacional. Num primeiro momento, essa abordagem faz da empatia com os grupos dominados estudados uma regra metodológica5 e reabilita a periferia e a marginalidade. Ao contrário de Maurice Halbwachs, ela acentua o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva nacional. Por outro lado, essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência onde existe conflito e competição entre memórias concorrentes (POLLAK, 1989, p. 4).

Ecléa Bosi retoma a leitura de Maurice Halbawachs, confrontando-a à interpretação que Henri Bergson constrói sobre memória, tratando-a como um fenômeno da psicologia individual: enquanto Bergson evidencia a importância do psicológico do indivíduo na construção das memórias, Halbwachs, como já dito, destaca a influência da sociedade, do coletivo (BOSI, 2016). Entretanto, Bosi recorre ainda a William Stern para

14 Diz respeito às atrocidades cometidas por Stálin, que vieram à tona quando de sua morte, e mais ainda quando do fim do regime socialista na União Soviética.

estabelecer um campo de possibilidade que entrecruza as influências do meio com os aspectos individuais da memória. A professora paulista considera que a forma predominante da memória de um determinado indivíduo pode ser percebida a partir da autobiografia da pessoa em questão, na qual a memória individual se mostrará mais condizente ao coletivo ou à individualidade (BOSI, 2016, p. 68). Trabalha com as lembranças de velhos com idade superior a 70 anos, da cidade de São Paulo. Defende que existe uma espécie peculiar de obrigação social legada aos velhos que se distingue em intensidade conforme os tipos de sociedade, assim como em determinados grupamentos sociais nem se espera por isso. Trata-se da obrigação de lembrar. Na sociedade em que vivemos, numa hipótese mais geral, as pessoas que ainda estão na ativa economicamente pouco se importam com a lembrança do passado, o que difere quando lidamos com os velhos, que não estão mais ativos, que se importam mais com a reconstrução do passado (BOSI, 2016, p. 63).

A memória é um fator de socialização. As crianças, em contato com os mais velhos, recebem memórias. Os adultos lidam de forma menos próxima com a memória, pois são muito ligados ao presente. Os velhos estreitam relação com a memória (BOSI, 2016, p. 69). Entretanto, a sociedade industrial é maléfica à velhice, pois gera um sentimento de continuidade arrancada, promovendo tristeza nas pessoas dessa faixa etária. Essa sociedade rejeita o velho, que se defende, quando integra uma classe abastada, pela acumulação de posses, que por sua vez funcionam como um escudo contra a desvalorização humana. O adulto age com contradição em relação aos velhos: por um lado adota o discurso moralizante do respeito aos mais velhos; na prática, age no sentido de persuadir o idoso a ceder seu lugar ao mais novo, de aceitar a vida no asilo, de ser tutelado por um mais jovem (BOSI, 2016, p. 77-78). A valorização dos velhos, da sua vida, de suas lembranças, é essencial para o estabelecimento de laços entre os que já viveram muitas coisas, os adultos, os adolescentes e as crianças. Portanto, a memória cumpre uma função social.

Qual a função da memória? Não reconstrói o tempo, não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e do além, ao qual retorna tudo o que deixou à luz do sol. Realiza uma evocação: o apelo dos vivos, a viagem que o oráculo pode fazer, descendo, ser vivo, ao país dos mortos para aprender a ver o que quer saber (...). Hoje, a função da memória é o conhecimento do passado que se organiza, ordena o tempo, localiza cronologicamente. Na aurora da civilização grega ela era vidência e êxtase. O passado revelado desse modo não é o antecedente do presente (BOSI, 2016, p. 89).

Jacques Le Goff (2013) destaca a importância da memória coletiva para as sociedades humanas por intermédio de um panorama que considera as transformações pelas quais passam as formas de se constituir a memória, desde as sociedades ágrafas até nossa sociedade do acúmulo de dados em série, buscando perceber como essa memória se mostra como um instrumento e objeto de poder nas mãos de quem controla as maneiras de se produzir e/ou divulgá-la (LE GOFF, 2013).

[...] a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 2013, p. 390).

Nesse aspecto, destacamos que os chalés da orla, a Praça Matriz, o coreto, o trapiche de Mosqueiro, como fazem parte do universo social e foram pensados e construídos para atenderem a elite de Belém da época, podem nos conduzir à compreensão de que buscamos valorizar um Patrimônio da classe dominante. Entretanto, nossa ideia se constrói pela lógica de relacionar tal patrimônio à dinâmica de vida do povo mosqueirense daquele contexto e de agora, como se relaciona ao turismo, às mazelas sociais enfrentadas pela comunidade.

À luz do que diz o referido autor, percebemos como a memória se consolida como documento/monumento que celebra, comemora o passado a partir de interesses de determinados grupos hegemônicos. Le Goff salienta a “revolução documental” ocorrida no século XX que alargou o que pode ser considerado como fonte histórica, gerando, portanto, uma gama maior de fontes de memória (LE GOFF, 2013, p. 489).