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Conceituar movimentos sociais não se apresenta como uma tarefa de fácil resolução, pois os estudiosos apresentam diferenças substanciais acerca do tema.

Para a socióloga paulista Maria da Gloria Gohn (2013a, p. 13), por exemplo, movimentos sociais são “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas demandas” e, na ação concreta, essas formas podem adotar uma série de estratégias distintas que vão, desde uma simples denúncia, passando pela pressão direta (mobilizações, marchas, passeatas, distúrbios, desobediência civil, etc.), até mesmo por meio de pressões indiretas.

No entanto, para a socióloga da Universidade de Santa Catarina, Ilse Scherer-Warren (2006, p. 113), para que se caracterizem como tal, os movimentos sociais pressupõem a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum (utopia), os quais definem quais são os atores ou situações sistêmicas antagônicas (opositores) que devem ser combatidas e transformadas.

Além disso, Scherer-Warren (2014b, p. 422) sustenta que os movimentos sociais organizados devem possuir

relativa permanência temporal e tendem, no mundo contemporâneo, a se estruturar sob a forma de redes de militância que operam como uma estratégia para a construção de significados políticos ou culturais em comum.

Em suma, a autora analisa os movimentos sociais na perspectiva de redes, percebendo-os com princípios identitários, objetivos definidos e organização diretiva; com base nessas premissas, constitui o conceito de redes de movimento social. De acordo com Scherer-Warren (2006, p. 113-114), nas sociedades das redes, os movimentos de base local percebem cada vez mais a necessidade de realizar articulações com outros grupos, com os quais se identifiquem, em busca de se tornarem visíveis e assim impactar a esfera pública e obter conquistas para a cidadania.

Trata-se, segundo Scherer-Warren (2006, p. 113-114), de um processo articulatório em que os movimentos sociais atribuem “legitimidade às esferas de mediação, fóruns e redes entre os movimentos localizados e o Estado, por um lado, e buscam construir redes de movimentos com relativa autonomia, por outro”.

Esta circunstância, de acordo com Scherer-Warren (2006, p. 114), tensiona o movimento social entre dois polos: ou ele participa do Estado “para a formulação e a implementação de políticas públicas” ou se torna “um agente de pressão autônoma da sociedade civil”. Esta conclusão da autora (2006, p. 110) remete a outro ponto importante de sua análise, que é o da “divisão tripartite da realidade”, composta pela sociedade civil, pelo Estado (orientado pela racionalidade do poder) e pelo mercado (orientado pela economia).

Nesta linha de raciocínio, para Scherer-Warren (2006, p. 110), a sociedade civil é

a representação de vários níveis de como os interesses e os valores da cidadania se organizam em cada sociedade para encaminhamento de suas ações em prol de políticas sociais e públicas, protestos sociais, manifestações simbólicas e pressões políticas.

E a sociedade civil, segundo a autora (2006, p. 110-112), está dividida em três níveis: no primeiro e segundo níveis, estão as formas organizacionais da sociedade, e que possuem certa “institucionalidade”, o associativismo local e as

formas interorganizacionais, respectivamente; no terceiro nível organizacional estão as “mobilizações na esfera pública”, que:

[...] são fruto da articulação de atores dos movimentos sociais localizados, das ONGs, dos fóruns e redes de redes, mas buscam transcendê-los por meio de grandes manifestações na praça pública, incluindo a participação de simpatizantes, com a finalidade de produzir visibilidade através da mídia e efeitos simbólicos para os próprios manifestantes (no sentido político- pedagógico) e para a sociedade em geral, como uma forma de pressão política das mais expressivas no espaço público contemporâneo.

Com a finalidade de efetuar uma diferenciação esquemática entre movimento social e manifestação em praça pública, Scherer-Warrenn (2014b, p. 422) argumenta que são quatro os momentos constitutivos relevantes de um movimento social organizado: 1) o “frame” organizacional, que é o local onde se constroem significados comuns para as lutas na esfera pública; 2) as articulações discursivas que desses significados resultam, para a construção de demandas e projetos comuns; 3) demandas e ideários que serão traduzidos em políticas públicas ou mudanças sistêmicas; e, 4) por fim, uma continuidade no tempo, que vai além do momento de protesto.

Diante deste cenário, Scherer-Warren (2014b, p.422) entende que os movimentos sociais organizados são diferentes dos movimentos de protesto e, em relação às manifestações de junho de 2013, estes não se constituem em movimentos sociais organizados, argumentando, em síntese, que os movimentos sociais “promovem, participam ou estão nas manifestações, mas não se reduzem a elas”.

Corrobora esta assertiva a impressão colhida a respeito do pensamento de Scherer-Warren, transcrita pelo sociólogo André Selayaran Nicoletti (2013, p. 14), da Universidade Federal de Santa Catarina, em artigo apresentado no IX Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, em agosto do ano de 2014:

Apesar de não termos adentrado, pelo limitar das páginas, no conceito de movimentos sociais, é preciso deixar claro que existe uma gigantesca distinção entre movimento social e manifestação/mobilização. Movimento social é aquele com lutas que se propagam no tempo, com organização, articulação, com história de batalhas e reivindicação (MELUCCI, 2001) enquanto manifestações são formas de mobilização com vistas a um fim especifico e que não necessariamente possuem uma propagação no tempo, podendo serem constituídas “ad hoc”. O movimento social se expressa por diversas formas, entre elas pela manifestação, o que não significa dizer que são sinônimos, pois mobilização é uma das formas de exteriorização do

movimento, mas não a única. Esse entendimento vai ao encontro do que a professora Ilse Scherer-Warren proferiu na sua palestra na Semana Brasileira de Sociologia em 2013.

Deste modo, na visão de Scherer-Warren, as manifestações de junho de 2013 não são movimentos sociais organizados, mas mobilizações, diferentemente da conclusão a que chega a estudiosa Maria da Gloria Gohn.

Percebe-se, assim, que as manifestações de junho de 2013 causaram divergências também no campo acadêmico quanto à sua definição ou não como movimento social.

De qualquer sorte, o que se verifica é que o perfil dos movimentos sociais vem se alterando desde a década de 1970 no Brasil, em face de mudanças nas conjunturas sociopolítica, econômica e cultural (GOHN, 2013d, p. 213).