2 NOÇÕES FUNDAMENTAIS DOS DIREITOS
2.3 CONCEITO
Os direitos autorais como disciplina científica ganharam autonomia devido à especificidade de seu objeto, cuja complexidade acabou por particularizá-los em relação aos demais ramos do Direito. Essa autonomia possibilita e é responsável pelo desenvolvimento de normas, princípios e de elementos próprios aplicáveis à realidade sociojurídica das criações. Tal fato é confirmado, inclusive, pela especialidade da lei que disciplina a matéria, a atual a Lei dos Direitos Autorais (LDA), a Lei n. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
O conceito legal está presente no artigo 1º da LDA. O enunciado do artigo define os direitos autorais como “os direitos de autor e os que lhes são conexos”. Contudo, como já mencionado, essa definição não aborda as particularidades do tema, a exemplo do interesse público, pois faz uma breve diferenciação e apenas esclarece a extensão do termo direitos autorais como um gênero que abarca os direitos de autor e os direitos conexos. Essas duas expressões no contexto da lei referem-se, sucessivamente, numa breve análise: às faculdades de direitos exclusivos pessoais e patrimoniais dos autores e dos titulares sobre as criações; e os direitos dos intérpretes ou executantes, dos produtores fonográficos e das empresas de radiodifusão (art. 89)15.
dois primeiros se materializa no ato de concessão da respectiva patente (documentado pela ‘carta patente’); em relação aos dois últimos, concede-se o registro (documentado pelo ‘certificado’). A concessão da patente ou do registro compete a uma autarquia federal denominada Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI” (COLEHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, vol. 1: direito de empresa. 12ª ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 136).
15
“Uma obra intelectual alcança o público através da arte da interpretação ou execução, do processo da produção fonográfica e com o desenvolvimento dos distintos meios de difusão. Estas atividades relacionadas com a obra intelectual têm sido consideradas pela doutrina e a legislação como objeto dos chamados ‘Direitos Conexos’ aos Direito de Autor.” (MAYA, Marco Proaño. O direito de
autor: um direito universal. Trad. J. C. Müller Chaves. Rio de Janeiro: Gráfica
A atual conceituação dos direitos autorais pode ser percebida de forma mais abrangente em sua construção doutrinária. Sobre isso é destacada a posição de três autores sobre a matéria:
Antônio Chaves:
Podemos defini-lo como o conjunto de prerrogativas que a lei reconhece a todo criador intelectual sobre suas produções literárias, artísticas ou científicas, de alguma originalidade: de ordem extrapecuniária, em princípio, sem limitação de tempo; e de ordem patrimonial, ao autor, durante toda a sua vida, com o acréscimo, para os sucessores indicados na lei, do prazo por ela fixado16.
Com a definição acima a autor explicita como um direito do criador sobre suas obras, o qual possui dois feixes: extrapecuniário e patrimonial.
Carlos Alberto Bittar:
(...), é o ramo do Direito Privado que regula as relações jurídicas, advindas da criação e da utilização econômica de obras intelectuais estéticas e compreendidas na literatura, nas artes e nas ciências17.
Esse conceito mostra-se mais amplo em relação ao de Chaves, pois concebe como um direito que aborda as relações jurídicas decorrentes da criação e da utilização econômica das obras intelectuais.
José de Oliveira Ascensão18: 16
CHAVES, Antônio. Direito de Autor: princípios fundamentais. Rio de Janeiro: Forense, 1987. p. 17.
17
BITTAR, Carlos Alberto. Direito de autor. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. p. 8.
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Além disso, extrai-se da obra de Ascensão a seguinte ideia que ressalta a utilização terminológica adotada na legislação brasileira, com a explicita diferenciação entre Direito Autoral, como gênero, e Direito de Autor, como espécie: “Direito de Autor é o ramo da ordem jurídica que disciplina a atribuição de direitos exclusivos relativos a obras literárias e artísticas. O Direito Autoral abrange além disso os chamados direitos conexos do direito de autor, como os direitos dos artistas intérpretes ou executantes, dos produtores de
O direito de autor pode assim ser definitivamente caracterizado como um exclusivo temporário de exploração econômica19.
Ascensão também considerada central a questão econômica, e define como um direito exclusivo temporário de exploração econômica, numa espécie de monopólio legal (da criatividade cultural).
Por outro lado, ante as definições acima, a concepção moderna sobre o tema marca a presença do interesse público decorrente das instituições culturais objetivas. A tutela autoral é vista para além dos interesses privatistas do autor e dos titulares desses direitos, compreende, sobretudo, o interesse social despertado pelas criações do espírito. É por isso que o debate atual sobre a extensão da norma autoral passa pelo reconhecimento e pela satisfação recíproca com a harmonização de todos os interesses envolvidos.
Nesse sentido, é a visão de Eduardo Vieira Manso sobre o “moderno Direito Autoral”:
(...), o moderno Direito Autoral afasta-se, cada vez mais, das concepções individualistas que o estruturaram em suas origens, principalmente por influência da Revolução Francesa, passando a estender seu amparo muito mais à própria obra intelectual do que ao seu autor. A sociedade procura preservar aqueles bens que sua unidade condiciona e que favorecem essa mesma unidade: a cultura de um povo é a própria manifestação de sua nacionalidade e povo sem cultura é povo sem alma e, pois, de existência social logicamente impossível.
Em razão desse efeito cultural que toda obra intelectual tende a causar, e porque toda obra intelectual é, ao mesmo tempo, efeito da cultura, como vivida pelo seu autor, - é o interesse social que justifica e fundamenta a elaboração de regras fonogramas e dos organismos de radiodifusão”. (ASCENSÃO, José Oliveira.
Direito autoral. Rio de Janeiro: Forense, 1980. pp. 6-7).
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ASCENSÃO, José Oliveira. Direito autoral. Rio de Janeiro: Forense, 1980. p. 337.
positivas de direito, protetivas dela, nomeando-se seu autor o seu guardião20.
No entendimento do autor a proteção moderna passa a reconhecer a obra como elemento central, até mais do que o seu próprio criador, em razão do interesse social presente nessas manifestações culturais.
Atualmente, para mensurar a amplitude dos direitos autorais a natureza pública de seu objeto deve se fazer presente, como também o reconhecimento dos interesses coletivos e individuais sobre as obras, colocando a norma autoral como um instrumento ao “equilíbrio jurídico razoável e ponderado entre os interesses e direitos privatistas dos autores e empresas e os interesses da coletividade”21. Por tais razões conceituar o tema reclama o correto entendimento científico da complexidade dos direitos e interesses abarcados pela tutela jurídica.
O conceito a ser utilizado no presente trabalho compreende todos os interesses envolvidos, públicos e privados, e não se limita à questão do exclusivo econômico, destaca, sobretudo, a efetivação do direito de acesso como uma prerrogativa fundamental, cuja abordagem será feita no último capítulo. A importância do conceito para o presente trabalho está na necessidade de reconhecer as prerrogativas alcançadas, e assim apresentar os direitos autorais como um fator de estímulo a novas criatividades e com elas para o desenvolvimento.