• Nenhum resultado encontrado

2. O SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR E A NECESSIDADE DE UM

2.1. CONCEITO, PECULIARIDADES E OUTRAS CAUSAS DO

O fenômeno do superendividamento do consumidor faz parte da essência da sociedade de consumo, dado que o indivíduo conquista status social na medida em que adquire bens. Sob o enfoque da sociedade, quanto mais bens e serviços um indivíduo obtiver, mais reconhecimento social terá (CONSALTER, 2006, p. 358).

Pode-se afirmar que essa influência ao consumo presente na sociedade moderna, somada à oferta massiva de crédito e às altas taxas de juros praticadas pelas instituições financeiras, são elementos que impulsionam gradativamente os consumidores a contraírem dívidas (LIMA, 2014, p. 36).

Na medida em que o endividamento cresce, aumenta também a chance de ocorrer o superendividamento, visto que quanto maior for a parcela da renda familiar comprometida com dívidas, mais provável é que sobrevenha uma inadimplência global (PORTO; BUTELLI, 2015, p. 167).

Sendo assim, é possível afirmar que prevalece hodiernamente uma economia do endividamento (MARQUES, 2006, p. 256), em detrimento de uma economia de poupança. Na primeira, o devedor despende todo o montante que aufere no consumo básico e, para ter acesso a bens de grande valor, como móveis e imóveis, necessita do crédito. Na segunda, o consumidor economiza uma parte de sua renda para depositar na poupança, faz um planejamento e aguarda meses para que o montante investido possa ser utilizado para consumir os bens e serviços que almeja (MARQUES, 2010, p. 13). Esse padrão de planejamento orçamentário presente atualmente ocasiona, muitas vezes, o endividamento da população, podendo levar os consumidores a uma crise financeira.

Esse endividamento excessivo do consumidor é também conhecido como sobreendividamento, falência ou insolvência – em Portugal (LIMA, 2014, p. 34) –, e superendividamento ou endividamento excessivo – no Brasil –, termos que serão aqui utilizados como sinônimos e se referem a um endividamento superior ao limite considerado normal, ultrapassando as possibilidades orçamentárias dos consumidores (MARQUES; CAVALLAZZI, 2006, p. 13-14).

O neologismo “superendividamento”, conhecido na França como surendettement, transmite a ideia de uma carga excessivamente alta de dívidas, as quais vão além dos limites suportáveis pelo devedor (COSTA, 2002, p. 106).

Tal fenômeno é definido por Claudia Lima Marques (2006, p. 256) como a incapacidade global da pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé de adimplir seus compromissos financeiros atuais e futuros – com exceção das dívidas fiscais, de alimentos e provenientes de delitos.

Outros autores definem o fenômeno como a impossibilidade do consumidor, de forma duradoura ou estrutural, de saldar suas dívidas ou, até mesmo, como a existência de uma real ameaça de que o devedor não poderá vir a pagar seus débitos quando estes tornarem-se exigíveis (LEITÃO MARQUES apud LIMA, 2014, p. 34).

No entanto, é de suma importância que não se confundam os conceitos de superendividamento e inadimplemento contratual. Muito embora o endividamento acarrete no descumprimento do contrato, a recíproca não é a mesma, tendo em vista que nem sempre esse descumprimento ocorre em virtude do endividamento do consumidor. Isto é, nem todos os casos de inadimplência ocorrem em razão da incapacidade financeira do devedor (SCHMIDT NETO, 2009, p. 3).

Desse modo, o descumprimento temporário de uma prestação pelo devedor não é suficiente para caracterizar seu superendividamento, uma vez que para configurar tal fenômeno, é essencial que a inadimplência seja generalizada, de modo que o passivo supere o ativo (SCHMIDT NETO, 2009, p. 172). A falta de liquidez passageira, por si só, não configura a insolvência civil (COSTA, 2002, p. 120).

Dito isso, mister elucidar que o superendividado sempre é uma pessoa física, a qual contratou crédito com o intuito de adquirir produtos ou serviços que atendam às suas necessidades pessoais. Em outras palavras, a tutela do sobreendividamento nunca poderá ser concedida a uma pessoa jurídica, tampouco a uma pessoa física que se encontra nessa situação em decorrência de dívidas profissionais (CARPENA; CAVALLAZZI, 2006, p. 329), haja vista que, para casos tais, já estão previstos no ordenamento jurídico brasileiro institutos próprios, estabelecidos pela Lei n. 11.101 de 2005, a qual regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária.

Adentrando no âmbito das causas que levam o consumidor ao superendividamento, é imprescindível ressaltar que a sociedade de consumo e o crédito facilitado, consoante explicitado no capítulo anterior, contribuem significativamente para o sobreendividamento da população.

Um dos principais motivos para a ocorrência desse endividamento exorbitante é a tendência que os cidadãos possuem de comprar compulsivamente sem um planejamento financeiro. Os indivíduos não conseguem controlar seus impulsos, e quando precisam decidir entre consumir hoje ou economizar para o futuro, na maior parte das vezes acabam optando pela primeira opção. A teoria que explica isso é designada “controle do impulso” (LIMA, 2014, p. 36).

Todavia, é evidente que esses não são os únicos elementos que estimulam a contração de dívidas pelos consumidores.

Outro fator que acarreta no sobreendividamento é explicado pela teoria da heurística incompleta, a qual afirma que os indivíduos têm tendência a fazer escolhas subestimando os riscos e superestimando as possibilidades de êxito no futuro. Costumam acreditar que continuarão percebendo salário, que permanecerão no emprego, que a economia seguirá estável, e isso faz com que gastem mais, desconsiderando as chances de imprevistos (LIMA, 2014, p. 36). A ausência de planejamento para situações deste jaez é, certamente, o motivo preponderante para a ocorrência de eventos de falência pessoal (PORTO; BUTELLI, 2015, p. 186).

Ademais, a falta de informação e de educação financeira também colaboram para a assunção de dívidas pelos indivíduos. Inúmeras vezes os consumidores não recebem informações prévias acerca das condições de contratação do crédito, dos custos e do impacto do débito nas suas finanças, e isso aumenta o risco de contraírem dívidas que oneram excessivamente o orçamento familiar. A ausência de instrução financeira torna os devedores mais vulneráveis ao sobreendividamento, porquanto dificulta o entendimento das informações recebidas, impedindo que o consumidor faça uma avaliação ponderada sobre a viabilidade ou não da contratação do crédito (LIMA, 2014, p. 36).

Além disso, o mercado financeiro proporciona crédito de forma desmedida, e dos consumidores menos favorecidos economicamente cobra taxas mais altas de juros, devido ao maior risco de inadimplência. As consequências desses juros elevados são perversas até mesmo para aqueles que gozam de melhores condições econômicas, haja vista que o débito aumenta de forma tão vertiginosa que nem mesmo os consumidores que auferem maior renda conseguem liquidar suas dívidas, o que muitas vezes acaba levando-os, juntamente com suas famílias, a uma crise de insolvência de enormes proporções (MARQUES, 2006 p. 303).

Uma vez analisados o conceito de superendividamento e as principais causas que dão ensejo à ocorrência desse fenômeno, faz-se imperioso expor os aspectos comuns entre os indivíduos por ele acometidos.

2.2. CARACTERÍSTICAS COMUNS ENTRE OS SOBREENDIVIDADOS NO

Documentos relacionados