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CAPÍTULO 1 – POLÍTICA AMBIENTAL E PAGAMENTO POR SERVIÇOS

1.6 Pagamento por Serviços Ecossistêmicos (PSE): uma breve revisão

1.6.2 O conceito de PSE

Após uma breve revisão dos diversos tipos de serviços ecossistêmicos, esta subseção será dedicada à apresentação do conceito formal de PSE.

Segundo Andrade e Fasiaben (2009), o conceito de PSE utilizado neste trabalho refere-se exclusivamente ao pagamento direto entre beneficiários de serviços ecossistêmicos e seus provedores, sendo entendido como provedores os agentes responsáveis pela gestão dos ecossistemas, ou seja, aqueles que devem receber o incentivo para que essa gestão seja favorável à contínua provisão dos serviços de algum uso do solo.

Nos textos de Andrade (2007) e de Andrade e Fasiaben (2009), os PSEs se referem ao comércio de serviços fornecidos pela preservação de florestas, sendo que, a partir desses recursos, os proprietários da terra realizam o manejo da cobertura vegetal com a finalidade de gerenciar adequadamente os benefícios da conservação. Deve-se lembrar, pois, que o foco básico do PSE é a manutenção de um serviço ecossistêmico (ou vários serviços ecossistêmicos), ou seja, o pagamento deve gerar benefício antes inexistente, propiciando mais eficiência no gerenciamento dos recursos naturais que produzem esses serviços.

Wunder (2005) utiliza cinco critérios para descrever os princípios do PSE:  Ser uma transação voluntária;

 Tratar-se de um serviço ecossistêmico bem definido (ou uma maneira de utilização dos solos apta a garantir o referido serviço);

 Ser comprado por ao menos um comprador do serviço (demandante);  Existir ao menos um vendedor do serviço em questão (ofertante);

 Ocorrer se, e somente se, o provedor continuar fornecendo esse serviço (condicionalidade).

Conforme os princípios acima descritos, o PSE deve ser algo voluntário, o que o distingue da política de comando e controle. Interessante notar que, assim como outros instrumentos econômicos, o PSE é flexível para permitir ao ofertante a escolha sobre a continuidade e/ou potencialização para prover o serviço ecossistêmico. Além disso, os serviços ecossistêmicos devem ser bem definidos para poderem ser mensurados; existe, porém, incertezas/dificuldades inerentes para definir um único serviço em separado, o que pode comprometer as negociações por inexistência/insuficiência de informações sobre o serviço negociado – há de existir, ao menos, um provedor e um comprador, sendo que as transferências se dão, frequentemente, por um intermediário (o Estado). Finalmente, o fornecimento dos serviços ecossistêmicos deve ser contínuo a fim de gerar segurança e garantia de continuidade das transações entre os participantes do “mercado” simulado.

Em alguns países pode-se identificar a existência de marcos regulatórios bem definidos que suportam a simulação de mercado prevista nos mecanismos de PSE. Já em outros, inclusive no Brasil, ainda não existe uma institucionalidade robusta o suficiente para fundamentar iniciativas dessa natureza10 – ela é particularmente verdadeira onde há pouco envolvimento do Estado nas questões ambientais.

Para além do ambiente institucional adequado, faz-se necessário um processo de monitoramento e fiscalização contundentes de modo a fornecer garantias aos agentes envolvidos no que se refere ao cumprimento dos contratos estabelecidos. É nesse sentido que se pode dizer que a participação do Estado é fundamental para que os objetivos desse tipo de arranjo sejam alcançados.

De acordo com Andrade (2007), o fundamento do PSE é fornecer um benefício ao provedor de um serviço ecossistêmico. Trata-se de uma compensação ao agente econômico que incorre em custos de oportunidade para a geração de serviços ecossistêmicos à coletividade (beneficiários dos serviços ecossistêmicos); logo, é uma contrapartida do custo da oportunidade pela não utilização de uma área em prol da conservação ambiental – os esquemas de PSE tem por objetivo reduzir o trade off entre o custo-benefício da preservação, haja vista que a preservação, ou melhor, o custo relacionado a ela, sobrecai somente em um ou poucos provedores do serviço, ao mesmo tempo em que os benefícios são percebidos por vários agentes econômicos (ANDRADE, 2007).

Pela discussão acima, depreende-se que as políticas de PSE têm como ponto referencial os custos de oportunidade envolvidos. Segundo Vasconcellos, Oliveira e Barbieri (2011), o conceito de custo de oportunidade é relacionado à escolha do agente, é aquilo que é abdicado ao fazer a escolha, ou ainda, é o valor daquilo preterido; são, portanto, os custos associados às oportunidades que serão deixadas de lado ao se fazer uma escolha. Então, o PSE pode ser considerado, em última instância, uma compensação a ser destinada ao agente econômico em função de sua escolha pela preservação (ANDRADE, 2010; ANDRADE, 2008). De outra forma, o incentivo oferecido pelo PSE tem por objetivo tornar a decisão de conservação atrativa aos olhos dos agentes econômicos, passando a considerar a oferta de serviços ecossistêmicos no seu conjunto de decisões.

Para seu bom funcionamento, é imprescindível considerar a relação entre o uso da terra e o serviço a ser identificado. Acredita-se que uma das principais limitações na aplicação do PSE é a precária base empírica existente no que concerne ao entrelaçamento da atividade

10

A despeito dessa afirmação, o Brasil possui várias experiências de aplicação de tal política. Adiante, o segundo capítulo descreverá duas experiências nacionais de PSE, além da experiência mineira, a ser descrita no terceiro capítulo.

de um ecossistema em relação a um único serviço que deve ser isolado para ser prestado e, portanto, remunerado. No caso de uma floresta, por exemplo, o PSE frequentemente remunera um único serviço, mas a grande quantidade de serviços que ela provê é de difícil determinação, o que pode gerar ineficiência na negociação e prejuízo para o ofertante. Assim, a remuneração de um serviço determinado será menor que o ecossistema florestal, como um todo, pode propiciar (ANDRADE, 2007).

A análise referente ao custo de oportunidade, apesar de sua limitação, é uma maneira de calibrar o valor do benefício monitorado ao ser recebido pelo provedor do serviço ecossistêmico (COSTA, 2008). Do ponto de vista dos provedores, seu interesse é o maior pagamento em relação aos benefícios obtidos pelo uso do solo, enquanto que, do lado dos compradores, o interesse é o menor pagamento no que diz respeito aos benefícios prestados pelo serviço transacionado (ANDRADE; FASIABEN, 2009).

Essa situação de conflito latente pode ser minimamente solucionada via análise do custo de oportunidade, considerando-o com o nível mínimo de constrangimento para participação voluntária, o que não significa dizer, porém, que esta seja uma situação ideal. São necessários esforços concentrados no que diz respeito à maior compreensão dos mecanismos subjacentes à produção dos serviços ecossistêmicos, bem como uma maior compreensão dos benefícios econômicos provenientes. Percebe-se, porquanto, que as análises monolíticas não parecem ser adequadas para o enfrentamento do problema, demonstrando claramente que conhecimentos interdisciplinares devem ser construídos a fim de melhor embasar as políticas que visam à proteção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos. Além disso, cita-se a importância do estabelecimento de ambientes institucionais propícios e flexíveis para permitir a necessária adequação a circunstâncias contingenciais que podem surgir ao longo do percurso de políticas nos moldes do PSE.