Código 29 – Interesse do Indivíduo em XTM
2 REPRESENTAÇÃO E RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO
2.2 Termo, Terminologia e Conceito
2.2.3 Conceito
Sobre o conceito, Japiassú e Marcondes (2006) afirmam que o termo tem origem no latim conceptum, utilizado para indicar um pensamento ou ideia, sejam eles abstratos, amplos, específicos, ou mesmo um objeto ou uma classe de objetos. Para Aristóteles, o conceito é a essência maior das coisas. Cada coisa possui um conjunto de características e propriedades, que são os elementos dos conceitos e traduzem os atributos das coisas (ARISTÓTELES, 2005). Os conceitos são, então, ferramentas para que se possa falar sobre ou comunicar as coisas que nos rodeiam.
Abbagnano (2007, p. 164), descreve o conceito como “qualquer espécie de sinal ou procedimento semântico” que designa um objeto, seja este “abstrato ou concreto, próximo ou distante, universal ou individual, etc.”. Martins (2010, pp. 27-28), com base em Abbagnano (1998), afirma que o conceito tem quatro funções:
a primeira função dos conceitos é a de descrever os objetos da experiência para permitir o seu reconhecimento; a segunda função tem
caráter classificador, pois o homem define e classifica objetos, fatos e funções por meio de conceitos; a terceira função é a de organizar os dados da experiência de modo que se estabeleçam entre eles conexões de natureza lógica; a quarta função diz respeito à previsão que o objetivo de um signo era prever, antecipar ou projetar a solução de um problema exatamente formulado.
Peirce (1977), por outro lado, afirma que o conceito não é necessariamente algo concreto ou particular, mas pode ser um conjunto de coisas, um local, evento ou ocorrência, ou uma ideia ou abstração de natureza universal.
Os conceitos, segundo Hjørland (2009), podem ser analisados ou definidos com base em quatro teorias: empirismo, racionalismo, historicismo e pragmatismo. O empirismo define os conceitos mediante o agrupamento de objetos semelhantes, considerando as características e propriedades que podem ser “objetivamente”
observadas; na perspectiva racionalista, os conceitos são primitivos ou fundamentais, ou seja, são conhecidos universalmente; o historicismo define os conceitos de forma genealógica, relacionando-os a teorias e discursos; no pragmatismo, os conceitos são classes, expressos por meio de signos, fixados ao se definir as classes de coisas que melhor alcançam um propósito determinado.
Wittgenstein volta-se para os conceitos e seus usos. Para ele, “Os conceitos nos conduzem às investigações. Eles são a expressão de nosso interesse, e conduzem o nosso interesse” (WITTGENSTEIN, 2009, p.203, §570). Wittgenstein diferencia o conceito das palavras que o denominam, mas ao mesmo tempo mostra que não é possível desassociá-los completamente pois “Não analisamos um fenômeno (p. ex. o pensar), mas um conceito (p. ex. o conceito de pensar), portanto o emprego de uma palavra” (WITTGENSTEIN, 2009, p.160, §383).
Francelin (2010, p. 17), com base em Wittggeinstein, afirma que “Nessa medida, um conceito é aprendido com a linguagem, no uso da linguagem, e não com o fenômeno”. Fazendo um paralelo com o conceito de “dor”, afirma: todo ser humano aprende que a sensação que sente é denominada “dor”, e aprende também que “dor”
pode ser usado em diversas situações, como saudade, amor não correspondido, ver as pessoas sofrendo, entre outros. Dessa forma, ao entender o que significa a palavra “dor”
os sujeitos conseguem aplicar o conceito a outras sensações semelhantes, denominando-as com a mesma palavra.
Observa-se, do dito acima, que não é possível desassociar os conceitos das palavras. Para a própria definição e compreensão do que ocorre na realidade, ou para
explicar um novo conceito, utilizam-se palavras e conceitos previamente conhecidos.
Para Hjørland (2009, p. 1521, tradução livre), há um claro problema quando se necessita definir um conceito. O autor exemplifica essa ideia afirmando que “Um dicionário é inútil a menos que saibamos os significados de várias palavras”3; mostra, desse modo, que há interdependência entre conceitos, no sentido de que é impossível definir um conceito sem usar palavras que apontam para outros conceitos. Isso pode se tornar um problema cíclico, sendo necessário sempre definir conceitos usando outros conceitos que, por sua vez, podem não ser entendidos e necessitam de novas definições.
Encerra-se este ciclo apenas quando, na definição, todos os conceitos utilizados são conhecidos.
Hjørland (2009) afirma, além disso, que um engano comum é achar que os conceitos não mudam, ou que as palavras apontam eternamente apenas para um conceito. Assim, é necessário observar a sociedade e como suas ações mudam ao longo do tempo para perceber como os conceitos também variam. O autor cita o exemplo das escolas e igrejas, mostrando que são atividades estabilizadas na sociedade, para as quais se usam os signos “escola” para indicar um local onde se ensina e “hino” para se referir o que se canta na igreja, mas que à medida que esses objetos, atividades ou ações sofrem modificações, os conceitos também mudam, mesmo que o signo permaneça o mesmo. Hjørland (2009) aborda também os estudos históricos para mostrar que os dicionários históricos registram como uma determinada palavra esteve associada a diferentes significados, ao longo do tempo.
Para Hjørland (2009), uma das funções do conceito é criar certa estabilidade, um padrão para que seja possível comunicar o que se pensa, e que mesmo que este objeto mental sofra transformações (como uma pessoa que envelhece ao longo do tempo, ou um rio cujas águas nunca são as mesmas), é o conceito que permite que ignoremos essas variações para que a comunicação seja bem estabelecida. Com isso, da mesma forma que é possível afirmar que não se entra duas vezes no mesmo rio (considerando que a água em que se entra, no nível molecular, não é a mesma nas duas vezes), também é possível afirmar que é possível, sim, entrar no mesmo rio duas vezes (ao se ignorar a alteração molecular da água e denominar o rio com um nome próprio ou localização, por exemplo).
3 No original: A dictionary is useless unless we already know the meanings of many words.
No entanto, as considerações sobre a alteração ou não dos significados dos conceitos é completamente contextual, como já foi observado por diversos autores.
Francelin (2010, p. 18), por exemplo, afirma que “No universo da Filosofia pragmática da linguagem, de Wittgenstein, o processo de significação (dos conceitos) é sempre contextual”, fenômeno que será abordado no item a seguir.