CAPÍTULO 1 A POLÍTICA DE SEGURANÇA E A ARQUITETURA GOVERNAMENTAL DOS EUA
1.1. O CONCEITO DE TERRORISMO E O GOVERNO DOS EUA: ALGUMA POSSIBILIDADE DE DEFINIÇÃO ?
O conceito de terrorismo encontra uma enormidade de definições em diferentes campos de conhecimento, como sociologia, psicologia, ciência política e relações internacionais. Não seria incorreto afirmar que é também um dos conceitos mais difíceis de definir de forma unívoca e universalmente utilizável nas análises internacionais. Destarte, nota-se que uma definição exata e universal de terrorismo barra na percepção subjetiva que este conceito carrega14.
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Um conhecedor do tema no Brasil sugere que o medo e os sentimentos específicos que cada povo ou indivíduo carrega irão determinar decisivamente o que é o terrorismo. Como coloca Héctor Saint-Pierre, ―o medo é um fenômeno subjetivo e não tem como determinar objetivamente um umbral único para o terror, que dependerá de fatores tão variáveis como os pessoais, os funcionais e os culturais‖ (SAINT-PIERRE, 2004, p. 53). Um dos maiores pesquisadores sobre o terrorismo, Bruce Hoffman (Professor da Georgetown University, Washington, EUA) também nos fornece uma visão conceitual do que é o terrorismo. Em seu livro ―Inside Terrorism‖ publicado em 1998 e com edição revisada em 2006 – considerando nesta última edição os atentados de 11 de setembro –, Hoffman define que terrorismo é um conceito político, que significa a ―(...) criação e
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Após os atentados de 11 de setembro, a definição da palavra ―terrorismo‖ passou a estar cada vez mais presente nos relatórios do Departamento de Estado dos EUA. Em especial no Patterns of Global Terrorism (PGT) – que em 2004 passa a se chamar Country Report on Terrorism (CRT) 15 –, temos uma explicação detalhada do que os EUA entendem por terrorismo. Soma-se a esta explicação, um relato da conjuntura mundial sobre esta ameaça, com classificações de organizações e países que dão suporte à mesma.
No que tange ao que seria definido como terrorismo, este documento segue o que está previsto no Código dos Estados Unidos16 em seu Artigo 22,
exploração deliberada do medo através da violência ou através da violência na busca de mudança política. Todos os atos terroristas envolvem violência ou ameaça de violência. Terrorismo é especificamente designado para ter um efeito psicológico de longo alcance para além das vítimas imediatas ou objeto do ataque terrorista (...). Terrorismo é designado para criar poder onde não há ou consolidar poder onde há muito pouco. (HOFFMAN, 2006, p. 40-41)‖ Ao levar em conta a acusação de um Estado de que determinada região ou país é terrorista, devemos também levar em conta que a conceituação de terrorismo é subjetiva. Inevitavelmente uma acusação de terrorismo é sempre vista do ―eu‖ sendo atacado pelo ―outro‖, resultando no ―eu‖ representando o bem e o ―outro‖ representando o mal. O simples fato de rotular uma nação ou região como terrorista ou apoiadora do terrorismo já carrega um caráter pejorativo, em que aquela é vista como um ator dotado de indivíduos capazes de utilizar instrumentos totalitários de afirmação do poder e, portanto, merece ser punida por aqueles que estão ―do lado do bem‖.
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O relatório Patterns of Global Terrorism era publicado anualmente pelo Departamento de Estado e tem o nome alterado para Country Reports on Terrorism em 2005. Embora date de 1992, a publicação do documento é de abril de 1993, haja vista que ele sempre reporta os fatos e dados referentes ao ano anterior de sua publicação no mês de abril do ano seguinte. Logo, sempre que nos referirmos neste relatório ao Country Report on Terrorism ou Patterns on Global
Terrorism, nos referimos aos dados do ano anterior à publicação citada.
16 Segundo informa o Escritório de Informações Oficiais dos EUA, ―o Código dos Estados Unidos
é a codificação por assuntos das leis gerais e permanentes dos Estados Unidos (...). É dividido em 50 artigos e publicado pelo Escritório do Conselho de Revisão de Leis da Casa dos Representantes dos EUA. Desde 1926, o Código dos Estados Unidos tem sido publicado a cada seis anos. (U.S. GPO, 2009).‖
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seção 2656f(d), que diz que o ―termo ―terrorismo‖ significa a violência premeditada e politicamente perpetrada contra alvos não-combatentes por grupos sub-nacionais ou agentes clandestinos (U.S.D.S., 2009a, p.331)‖.
No entanto, encontramos definições diferentes do que é terrorismo conforme analisamos o conceito em diferentes órgãos decisórios norte- americanos. No caso da Agência Federal de Investigação (Federal Bureau of Investigation - FBI), este segue o Artigo 28 do Código de Regulação Federal dos EUA, no qual terrorismo é
o ilegítimo uso da força e violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir um governo, a população civil ou qualquer segmento desta, em busca de objetivos sociais ou políticos (U.S. FBI, 2005, p. iv).
Por sua vez, o Departamento de Defesa define terrorismo como
o uso calculado ilegítimo da violência ou a ameaça ilegítima de violência para inculcar medo ou que pretenda coagir ou intimidar governos ou sociedades na persecução de objetivos que são geralmente políticos, religiosos ou ideológicos (U.S.DoD., 2007, p.29).
Como se percebe, a definição do Departamento de Defesa se mostra mais ampla, ao considerar também como terrorismo a persecução de objetivos religiosos. Ainda, inclui a ameaça que coaja ou intimide um governo ou sociedade. No entanto, a definição do que é coação ou intimidação é altamente subjetiva e passível de ampla discussão. Por exemplo, uma intimidação de determinado país frente a seus vizinhos através de uma demonstração dissuasória em tempos de paz: seria uma ameaça ilegítima que constitui ato terrorista ou somente uma ação comum de uma ordem internacional anárquica? Ou então, forçar um governo a mudar suas atitudes e leis com o argumento de evitar um possível ataque futuro – tal como foi feito no Iraque desde 2003 – é
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uma constatação ou uma intimidação que se caracteriza como terrorista? Enfim, estes dois questionamentos a título de exemplo nos mostram o quão frágil é o conceito de terrorismo cunhado pelo Departamento de Defesa. Além de frágil, tal definição fornece a legitimação argumentativa necessária para que este Departamento possa promover ações, com anuência de outros órgãos governamentais, conforme os interesses preconizados pela Casa Branca.
Por outro lado, considerando as definições do FBI e do Departamento de Estado, percebemos que o primeiro considera terrorismo ações contra propriedades – diferentemente dos demais. Já o segundo órgão utiliza o termo ataque contra ―alvos não-combatentes‖, uma conceituação passível de grandes discussões. Por exemplo, pensemos num quartel em tempos de paz. Consideremos hipoteticamente que tal quartel sofra um ataque de um grupo como uma Al-Qaeda que, talvez, resulte em vítimas fatais. Neste caso hipotético de ataque este grupo não combatente (Al-Qaeda) almejou destruir um alvo combatente ou não-combatente? Qual a medida para definição de um alvo não- combatente neste caso? Tal ataque seria ou não terrorista segundo a lógica da definição do Departamento de Estado?
Tal situação aqui explicada busca apenas ilustrar o quanto as definições de terrorismo vistas por alguns órgãos decisórios norte-americanos dão margem para inferências diversas, vários argumentos e inúmeras dúvidas. Mais do que uma fraqueza jurídica, esta amplitude de interpretações legais permitem um amplo espectro de ação governamental das diversas agências da máquina governamental dos EUA.
1.2. A arquitetura organizacional e o jogo burocrático norte-americano em