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B.4 Eutrofiza¸c˜ ao

5.57 Dimens˜ ao social do modelo de referˆ encia proposto

2.1.2 Conceitos, caracter´ısticas e dimens˜ oes

O conceito de desenvolvimento sustent´avel, como observado ao analisar-se a se¸c˜ao anterior, ´e resultado de um processo hist´orico de mais de 20 anos de avalia¸c˜ao das rela¸c˜oes entre os seres humanos e o ambiente que os circunda. Devido a esse fato e aos distintos enfoques dados e `as especialidades dos diferentes autores que discutiram e discutem o tema, existem v´arias defini¸c˜oes de desenvolvimento sustent´avel. Segundo Elliott (1999), encontram-se na literatura mais de setenta conceitos diferentes. No entanto, a mais citada e utilizada ´e a desenvolvida pela WCED (1987) expressa no Relat´orio de Brundtland. Tamb´em Van Bellen (2002); Bossel (1999); e Pearce e Atkinson (1998) reiteram tal fato.

Segundo esse relat´orio, o atual modelo de desenvolvimento vem produzindo concomitante- mente resultados positivos e negativos. Por um lado, tem-se a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, o aumento do n´umero de adultos alfabetizados, o aumento do n´umero de crian¸cas na escola e o aumento na produ¸c˜ao de alimentos numa taxa maior que a de aumento da popula¸c˜ao. Por outro lado, v´arios s˜ao os impactos negativos: o n´umero absoluto de pessoas com fome, analfabetas, sem acesso `a agua pot´avel ou `a seguran¸ca e sem acesso a combust´ıveis para cozinhar ou aquecer-se nunca foi t˜ao alto. Al´em disso, houve o aumento dos n´ıveis de polui¸c˜ao do solo, ar, ´agua e desmatamentos que tˆem acompanhado o crescimento da produ¸c˜ao mundial. Todas essas mudan¸cas tˆem impacto nas altera¸c˜oes ambi- entais ao redor do mundo, como a chuva ´acida na Europa, o aquecimento global, a redu¸c˜ao da camada de ozˆonio, o aumento da intensidade e freq¨uˆencia de enchentes na ´Asia e na Am´erica Latina em fun¸c˜ao dos desmatamentos, entre outros.

O relat´orio afirma tamb´em que esses “efeitos colaterais” ambientais decorrem dos cami- nhos utilizados pelos pa´ıses desenvolvidos na busca do seu desenvolvimento. Caminhos estes baseados em um alto padr˜ao de vida dependente do uso de mat´erias-primas prim´arias, energia, materiais qu´ımicos e sint´eticos que geram uma demanda crescente de recursos escassos e da polui¸c˜ao. Esse modelo de alto padr˜ao de consumo acrescido ao aumento da popula¸c˜ao e da pobreza pressionam as terras, a ´agua, as florestas e outros recursos naturais tanto nos pa´ıses desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Isso conseq¨uentemente, tem um impacto profundo na capacidade de sobrevivˆencia das gera¸c˜oes futuras. A pobreza gerada tamb´em tem impacto

no meio ambiente, pois, as pessoas pobres s˜ao for¸cadas a usar exageradamente os recursos ambientais para sobreviver, e o empobrecimento do seu meio ambiente, as torna mais pobres, criando um c´ırculo vicioso que torna sua sobrevivˆencia ainda mais dif´ıcil e incerta (WCED, 1987).

Nesse sentido, o Relat´orio Brundtland justifica a necessidade de um conceito de desen- volvimento que n˜ao separe meio ambiente e desenvolvimento econˆomico e social. Esse novo conceito de desenvolvimento foi denominado de desenvolvimento sustent´avel e assim definido pelo referido relat´orio: “´e o desenvolvimento que atende `as necessidades do presente sem com- prometer a habilidade das gera¸c˜oes futuras em atender as suas pr´oprias necessidades”(WCED, 1987, p.8).

Para alcan¸car esse est´agio de desenvolvimento, o mesmo relat´orio apresenta alguns assun- tos priorit´arios a serem tratados, que s˜ao: popula¸c˜ao e desenvolvimento, seguran¸ca alimentar, esp´ecies e ecossistemas, energia, ind´ustria e desafio urbano. Al´em disso, apresenta os seguin- tes requisitos fundamentais para o alcance do desenvolvimento sustent´avel (WCED, 1987): um sistema pol´ıtico que assegure a participa¸c˜ao efetiva nos processos de decis˜ao; um sistema econˆomico que forne¸ca solu¸c˜oes para as tens˜oes produzidas pelo desenvolvimento desarmˆonico; um sistema produtivo que respeite a obriga¸c˜ao de preservar a base ecol´ogica para o desenvolvi- mento; um sistema tecnol´ogico que estimule padr˜oes sustent´aveis de com´ercio e financiamento; um sistema internacional que estimule padr˜oes sustent´aveis de com´ercio e financiamento; e um sistema administrativo flex´ıvel e auto-corretivo.

O conceito de desenvolvimento sustent´avel da WCED pode ser desdobrado em dois conceitos- chave: o conceito de necessidades, particularmente as necessidades essenciais dos pobres do mundo, e a id´eia de limita¸c˜oes impostas pelas atuais organiza¸c˜oes tecnol´ogicas e sociais `a capacidade do meio ambiente atender `as necessidades atuais e futuras (WCED, 1987). E esses dois conceitos-chave podem ser resumidos em justi¸ca social e natureza sistˆemica conforme Holliday Jr. et. al. (2002) e WCED (1987), e em dinamismo, de acordo com WCED (1987) e Bossel (1999).

A justi¸ca social est´a expressa na satisfa¸c˜ao das necessidades e aspira¸c˜oes humanas e deve ser o maior dos objetivos do desenvolvimento. Por isso, o desenvolvimento sustent´avel

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requer o atendimento das necessidades b´asicas de todos e a amplia¸c˜ao das oportunidades para todos satisfazerem suas aspira¸c˜oes por uma vida melhor. Os padr˜oes de vida, que atendam `as necessidades b´asicas da popula¸c˜ao, ser˜ao sustent´aveis se os padr˜oes de consumo em todo lugar respeitarem a sustentabilidade de longo prazo. Enfim, trata-se da distribui¸c˜ao de riqueza e de oportunidades de forma justa e eq¨uitativa entre pa´ıses e entre gera¸c˜oes atrav´es de pol´ıticas de desenvolvimento que considerem as mudan¸cas no acesso aos recursos e na distribui¸c˜ao dos custos e benef´ıcios (WCED, 1987). No entanto, um ponto que precisa ser observado, segundo Elliott (1999), ´e que as necessidades significam diferentes coisas para diferentes pessoas e est˜ao relacionadas `a habilidade de satisfazˆe-las. Assim, a sociedade ´e capaz de definir e criar novas necessidades dentro de certos grupos sem satisfazer `as necessidades b´asicas de outros. Tamb´em, para a OECD (2005a), a justi¸ca social ´e um conceito-chave. Segundo essa organiza¸c˜ao, o desenvolvimento sustent´avel se refere, primeiramente, `as necessidades, n˜ao somente econˆomicas, mas tamb´em relacionadas a um ambiente limpo, uma sociedade segura e coesa e uma ampla gama de oportunidades de emprego. Refere-se tamb´em `a eq¨uidade entre gera¸c˜oes e entre e dentro dos pa´ıses.

Sachs (2004) retoma a discuss˜ao da ´etica e da economia para afirmar a importˆancia de um tipo de desenvolvimento mais justo. Segundo esse autor, o conceito de desenvolvimento sustent´avel, n˜ao o do crescimento econˆomico, retoma a liga¸c˜ao entre economia e ´etica proposta desde Arist´oteles, na medida em que seus objetivos v˜ao al´em da mera multiplica¸c˜ao da riqueza. Riqueza esta imprescind´ıvel para alcan¸car a meta de “uma vida melhor, mais feliz e mais completa para todos” (Sachs, 2004, p. 13). Por isso o objetivo maior do desenvolvimento ´e promover a igualdade e a inclus˜ao social justa atrav´es do trabalho decente e da implementa¸c˜ao dos direitos `a educa¸c˜ao, prote¸c˜ao `a sa´ude, acesso `a ´agua pot´avel, saneamento, moradias decentes, e entre outros. Maximizando desse modo a vantagem daqueles que vivem nas piores condi¸c˜oes a fim de reduzir/erradicar a pobreza. Nesse sentido, o desenvolvimento implica no desaparecimento e repara¸c˜ao das desigualdades passadas trazendo consigo a modernidade inclusiva propiciada pela mudan¸ca estrutural. Ainda para Sachs (2004), o desenvolvimento sustent´avel pode ser visto como a apropria¸c˜ao efetiva das trˆes gera¸c˜oes dos direitos humanos: direitos pol´ıticos, civis e c´ıvicos; direitos econˆomicos, sociais e culturais; e direitos coletivos ao

meio ambiente e desenvolvimento.

Enfim, segundo esse autor, o desenvolvimento sustent´avel ´e aquele caracterizado pelo cres- cimento econˆomico, aumento dos empregos, redu¸c˜ao da pobreza e das desigualdades sociais e sustentabilidade ambiental. Esta entendida como a “solidariedade sincrˆonica com a gera¸c˜ao atual e solidariedade diacrˆonica com as gera¸c˜oes futuras” (Sachs, 2004, p. 15). Nesse sentido, seus cinco pilares s˜ao: o social, ambiental (sistemas de sustenta¸c˜ao da vida como provedores de recursos e como “recipientes” para o dep´osito de res´ıduos), territorial (distribui¸c˜ao espacial dos recursos, das popula¸c˜oes e atividades), econˆomico e pol´ıtico (governan¸ca democr´atica).

A natureza sistˆemica significa dizer que n˜ao se consegue o desenvolvimento sustent´avel atrav´es do esfor¸co isolado de um pa´ıs ou somente em uma esfera ou dimens˜ao. Isso porque, o meio ambiente n˜ao existe como uma esfera separada das a¸c˜oes, ambi¸c˜oes e necessidades humanas j´a que ele ´e local onde todos os indiv´ıduos vivem. O desenvolvimento ´e o que cada indiv´ıduo faz para melhorar sua sobrevivˆencia. Assim, o desenvolvimento e o meio ambiente s˜ao insepar´aveis porque formam um complexo sistema de causa e efeito (WCED, 1987).

Alguns fatores justificam essa indivisibilidade entre o desenvolvimento e o meio ambiente (WCED, 1987). Em primeiro lugar, os problemas ambientais est˜ao correlacionados entre si na medida em que a terra ´e uma s´o e todos, independente de pa´ıs ou regi˜ao, dependem dela para sobreviver e prosperar. Assim, o desenvolvimento n˜ao sobrevive numa base de recursos ambientais deteriorados e o meio ambiente, n˜ao pode ser protegido quando o crescimento deixa de lado os custos da destrui¸c˜ao ambiental. Por exemplo, os desmatamentos aceleram a eros˜ao do solo, o assoreamento dos lagos e rios, a polui¸c˜ao do ar, e a acidifica¸c˜ao, que por sua vez, mata florestas e lagos. Esses relacionamentos significam que v´arios problemas diferentes devem ser combatidos ao mesmo tempo e que o sucesso de um auxiliar´a o sucesso do outro. Em segundo lugar, problemas ambientais est˜ao relacionados a padr˜oes de desenvolvimento econˆomico. Por exemplo, pol´ıticas energ´eticas est˜ao associadas com o efeito estufa, aci- difica¸c˜ao e desmatamento para retirada de lenha. Ecologia n˜ao ´e somente a prote¸c˜ao da natureza e a economia n˜ao ´e somente produ¸c˜ao de riqueza; ambos s˜ao igualmente importan- tes para a melhoria da vida humana. Assim, o crescimento por si s´o n˜ao ´e suficiente, tendo em vista que, altos ´ındices de produtividade podem coexistir com altos ´ındices de pobreza e

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colocar em perigo os sistemas naturais que suportam a vida na Terra: a atmosfera, as ´aguas, os solos e os seres vivos.

Em terceiro lugar, problemas ambientais e econˆomicos est˜ao ligados a muitos fatores sociais e pol´ıticos. Em outras palavras, o r´apido crescimento da popula¸c˜ao que tem afetado profun- damente o meio ambiente e o desenvolvimento em muitas regi˜oes ´e causado, por exemplo, pelo papel desempenhado pela mulher na sociedade e outros valores coletivos. Assim, pode-se dizer que a distribui¸c˜ao de poder e a influˆencia na sociedade ´e um dos desafios principais, como o papel das mulheres, de grupos vulner´aveis e participa¸c˜ao local nas decis˜oes.

Finalmente, essas caracter´ısticas operam entre na¸c˜oes, uma vez que ecossistemas n˜ao res- peitam fronteiras. Por exemplo, ´agua polu´ıda corre por rios, lagos e mares compartilhados, e a atmosfera carrega ar polu´ıdo para longe. Al´em disso, muitos relacionamentos economia- meio-ambiente ocorrem globalmente, como ´e o caso dos subs´ıdios para a agricultura. Assim, o conceito de desenvolvimento sustent´avel fornece um sistema para integra¸c˜ao das pol´ıticas ambientais e estrat´egias de desenvolvimento e requer mudan¸cas nas pol´ıticas dom´esticas e internacionais de cada pa´ıs e nas rela¸c˜oes internacionais. Por isso, o desenvolvimento sus- tent´avel requer uma coopera¸c˜ao internacional para se alcan¸car o interesse comum, precedido de educa¸c˜ao e conscientiza¸c˜ao dos indiv´ıduos quanto ao impacto de suas atividades. Comuni- dades e governos podem usar leis, educa¸c˜ao, taxas, subs´ıdios e outros m´etodos para auxiliar na sua implementa¸c˜ao, cuja implanta¸c˜ao depende do n´ıvel de sensibiliza¸c˜ao e educa¸c˜ao que os dirigentes e a popula¸c˜ao tˆem em rela¸c˜ao ao desenvolvimento sustent´avel. Como sugere Elliott (1999), alcan¸car um mundo mais justo, pr´ospero e seguro depende de novos comportamentos em todos n´ıveis e nos interesses de todos, ou seja, uma mudan¸ca cultural.

Essa vis˜ao sistˆemica ´e corroborada por Simons et. al. (2001) quando afirma que a susten- tabilidade ocorre quando as inter-rela¸c˜oes entre as dimens˜oes econˆomica, social e ambiental est˜ao em equil´ıbrio. O relacionamento entre as dimens˜oes ´e apresentado pelo autor por meio do Triˆangulo de Sustentabilidade (Figura 2.1) que assim conceitua cada dimens˜ao: dimens˜ao social (diz respeito `as pessoas e `a qualidade de vida, englobando quest˜oes como pobreza, fome, educa¸c˜ao, acesso aos recursos e prote¸c˜ao da cultura local); dimens˜ao econˆomica (provˆe os meios necess´arios - crescimento eficiente e est´avel - ao alcance das necessidades sociais e ao

alcance do n´ıvel de inova¸c˜ao necess´ario para tanto); e dimens˜ao ambiental (imp˜oe limita¸c˜oes ao crescimento descontrolado e seu impacto na biodiversidade, conserva¸c˜ao dos recursos na- turais e o controle da polui¸c˜ao).

Figura 2.1: Triˆangulo de Sustentabilidade (Simons, et. al., 2001).

Tamb´em a OECD (2005a) afirma que o desenvolvimento sustent´avel ´e um conceito sistˆemico. Para esta organiza¸c˜ao, “o conceito de desenvolvimento sustent´avel abrange trˆes dimens˜oes do bem-estar - econˆomica, social e ambiental - e envolve sinergias e trocas complexas entre eles” (OECD, 2005a, p. 1). As intera¸c˜oes entre as trˆes dimens˜oes apresentadas por esta entidade s˜ao apresentadas na Figura 2.2 e podem ser assim resumidas:

1. Efeitos das atividades econˆomicas no meio ambiente: uso de recursos, descargas de polu- entes, res´ıduos, atividades de gerenciamento e prote¸c˜ao ambiental de agentes econˆomicos e implica¸c˜oes das pol´ıticas econˆomicas e for¸cas de mercado no meio ambiente.

2. Servi¸cos ambientais para a economia: recursos naturais, implica¸c˜oes das pol´ıticas ambi- entais na eficiˆencia econˆomica.

3. Fornecimento de servi¸cos ambientais `a sociedade: acesso a recursos, contribui¸c˜oes `a sa´ude, condi¸c˜oes de vida e trabalho, aspectos distributivos.

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4. Efeitos das vari´aveis sociais nos recursos naturais: mudan¸cas demogr´aficas e padr˜oes de consumo, consciˆencia e educa¸c˜ao ambiental, informa¸c˜ao e participa¸c˜ao ambiental, arranjos institucionais e sistemas legais.

5. Efeitos das vari´aveis sociais na economia: quantidade e qualidade da for¸ca de traba- lho, popula¸c˜ao e estrutura familiar, educa¸c˜ao e treinamento, informa¸c˜ao e participa¸c˜ao, padr˜oes e n´ıveis de consumo, arranjos institucionais e sistemas legais.

6. Efeitos da atividade econˆomica na sociedade: n´ıveis de rendimento e distribui¸c˜ao, em- prego, implica¸c˜oes das pol´ıticas econˆomicas e for¸cas de mercado na sociedade.

Fonte: Adaptado de OECD (2005).

SOCIAL AMBIENTAL ECONÔMICO 1 2 3 4 5 6

Uso dos recursos Poluição e resíduos Forças de mercado Bases da Vida Mudanças demográficas Padrões de consumo Educação ambiental

Quantidade e qualidade da força de trabalho

População e estrutura familiar Padrões e níveis de consumo

Rendimento e distribuição Emprego

Recursos naturais Implicações político Ambientais na eficiência econômica

Figura 2.2: Dimens˜oes do desenvolvimento sustent´avel e suas intera¸c˜oes segundo a OECD (2005).

Nas defini¸c˜oes de desenvolvimento sustent´avel, Kapra (2003) declara que elas lembram da responsabilidade das gera¸c˜oes atuais perante as futuras, no entanto, n˜ao dizem como construir,

na pr´atica, uma sociedade sustent´avel. Nesse sentido, o primeiro passo, segundo ele, ´e buscar uma defini¸c˜ao operacional de sustentabilidade. E para tanto, ´e necess´ario reconhecer que n˜ao se precisa inventar uma comunidade sustent´avel a partir do zero, mas mold´a-la de acordo com os princ´ıpios de organiza¸c˜ao existentes nos ecossistemas naturais (que s˜ao comunidades sus- tent´aveis de plantas, animais e microorganismos). Assim, uma comunidade sustent´avel deve ser planejada de modo que os estilos de vida, neg´ocios e atividades econˆomicas, estruturas f´ısicas e tecnologias n˜ao interfiram na capacidade da natureza de manter a vida (sustentabili- dade de longo prazo).

Essa compreens˜ao de que as comunidades precisam ser organizadas utilizando-se os mesmos princ´ıpios que os ecossistemas desenvolveram para manter a teia da vida ´e conhecida como “alfabetiza¸c˜ao ecol´ogica”. Esse conceito foi definido pelo mesmo autor como a capacidade de compreender os princ´ıpios b´asicos da ecologia e que viver de acordo com eles depende a sobrevivˆencia humana nas pr´oximas d´ecadas, isto ´e, entender as rela¸c˜oes que interligam todos os moradores da terra. Esta id´eia remete ao conceito de pensamento sistˆemico no qual os sistemas vivos s˜ao sistemas integrados em que a natureza do todo ´e sempre diferente da soma de suas partes, resultando aquele da intera¸c˜ao e interdependˆencia destas. Alguns princ´ıpios b´asicos ou de sustentabilidade regem esse conceito de pensamento sistˆemico quando aplicado ao estudo das v´arias inter-rela¸c˜oes dos membros da terra (Kapra, 2003): nenhum ecossistema produz res´ıduos, j´a que os res´ıduos de uma esp´ecie s˜ao o alimento de outra; a mat´eria circula continuamente pela teia da vida; a energia que sustenta estes ciclos ecol´ogicos vem do Sol; a diversidade assegura a resiliˆencia; a vida, desde o seu in´ıcio h´a mais de trˆes bilh˜oes de anos, n˜ao conquistou o planeta pela for¸ca, e sim pela de coopera¸c˜ao, parcerias e trabalho em rede. A vis˜ao sistˆemica do desenvolvimento sustent´avel traz consigo tamb´em a no¸c˜ao de limites. Limites n˜ao absolutos, mas impostos pela organiza¸c˜ao tecnol´ogica e social aos recursos ambi- entais e pela capacidade da biosfera absorver os efeitos das atividades humanas. No entanto, tanto a organiza¸c˜ao tecnol´ogica quanto a social podem ser gerenciadas e melhoradas na busca de uma nova era de desenvolvimento econˆomico. Assim, o desenvolvimento sustent´avel s´o pode ser conseguido se o tamanho da popula¸c˜ao e o crescimento estiverem em harmonia com o potencial produtivo de mudan¸ca do ecossistema (WCED, 1987). Nesse sentido, o desen-

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volvimento sustent´avel n˜ao significa dizer que os ecossistemas n˜ao podem ser tocados, mas sim, que devem ser explorados de forma planejada, levando em considera¸c˜ao os impactos nas taxas de eros˜ao do solo, nos mananciais de ´agua e esp´ecies, ou a habilidade de regenera¸c˜ao da biosfera.

Bossel (1999) discute a quest˜ao temporal do desenvolvimento sustent´avel e afirma que a sustentabilidade de um sistema s´o pode ser observada a partir de uma perspectiva futura de amea¸cas e oportunidades. Para este autor, sustentar significa manter em existˆencia, prolongar. Diante desse conceito, Bossel (1999) defende que a sociedade humana ´e um sistema complexo e adaptativo inclusa num sistema maior, que ´e, o meio ambiente. Estes sistemas precisam co-evoluir interagindo mutuamente e estar em constante mudan¸ca e evolu¸c˜ao. Por isso, na sua vis˜ao, a sustentabilidade deve abordar as seguintes dimens˜oes: material, ambiental, social, ecol´ogica, econˆomica, legal, cultural, pol´ıtica e psicol´ogica.

Outra caracter´ıstica do desenvolvimento sustent´avel ´e o seu dinamismo. Essa carac- ter´ıstica decorre do fato de que tanto a sociedade quanto o meio ambiente que a circunda sofrem mudan¸cas cont´ınuas provocadas por constantes modifica¸c˜oes nas tecnologias, culturas, valores e aspira¸c˜oes, assim como, seus v´arios subsistemas. Nesse sentido, Bossel (1999) afirma que a taxa de mudan¸ca no sistema como um todo ´e influenciada pela dinˆamica da tecnolo- gia, da economia e da popula¸c˜ao que aceleram as taxas de mudan¸ca ambientais e sociais. Acrescenta ainda que por ser a sociedade um sistema complexo, adaptativo e incluso em outro sistema complexo, que ´e o meio ambiente, estes sistemas co-evoluem em intera¸c˜ao m´utua, com constante mudan¸ca e evolu¸c˜ao. E que, a sustentabilidade torna-se urgente quando as taxas de mudan¸cas come¸cam a se aproximar da velocidade de recupera¸c˜ao do sistema como um todo. Assim, a sustentabilidade deve ser capaz de manter essas habilidades de mudan¸ca e evolu¸c˜ao para que o sistema todo permane¸ca vi´avel.

Dentro desse processo dinˆamico da sustentabilidade, o mesmo autor apresenta alguns fatores que o limitam, sendo alguns fixos e outros vari´aveis. Essas restri¸c˜oes s˜ao de trˆes tipos: do sistema f´ısico, da natureza humana e das relacionadas ao tempo, sua dinˆamica e evolu¸c˜ao. Dentre as restri¸c˜oes do sistema f´ısico citam-se:

que n˜ao podem ser contornadas, como por exemplo, o m´ınimo de nutrientes necess´arios ao crescimento de uma planta.

2. O ambiente f´ısico e suas restri¸c˜oes: a sociedade ´e um subsistema de um ambiente global da qual depende com quem interage. Por isso, sua evolu¸c˜ao ´e restrita pelas condi¸c˜oes desse macro-ambiente, como: espa¸co dispon´ıvel, fertilidade do solo, clima,