Fig 2 Guarda Republicana
1.6 Conceitos de crime
Não é objetivo deste trabalho adentrar nas teorias que explicam o crime pelo viés da tipificação das leis, pois o campo é vasto. Porém, diferentemente de violência, que tem uma variável de conceitos, para a definição de crime há abordagens no campo do direito ou do jurídico considerados conceitos formais, e o conceito material oriundo da psicologia, da sociologia e antropologia, dentre outros que têm como pressuposto explicar a ação criminosa.
No Brasil, o conceito de crime formal que se tem hoje é definido no código penal por meio de decreto-lei de 1940, assinado pelo então presidente da República Getúlio Vargas, que aponta que no Art. 1º: ―Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal‖ e no Art. 4º ―Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão...‖. As alterações posteriores no Código Penal tratam de definir que ações se enquadram como crime e que pena aplicar.
Para o conceito material, o crime é estudado como um fenômeno social assim como a violência. Já na questão comportamental do praticante do delito, pode-se buscar respostas na psicologia.
Sobre fenômeno social, Durkheim (1978) define como todo fato social que ocorre no interior de uma sociedade e torna-se objeto da ciência ou de estudos. Para o sociólogo, fato social é ―toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentado uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter‖ (p.11).
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Para crime como fenômeno social, na sociologia há conceitos nas teorias positivista e funcionalista22 e nas teorias do conflito23 e controle que
permitem analisar criteriosamente o fenômeno social em questão e, por sua vez, uma compreensão mais próxima possível da realidade.
O positivismo influencia na análise do crime a partir da utilização de métodos e de técnicas quantitativas, uma vez que procura mensurar o máximo possível tudo o que está relacionado ao fenômeno. Assim, busca identificar índices de violência, apontar as principais formas de crime e de violência. Utiliza questionários, pesquisas por amostras, escalas e experimentos, são formas de estudos positivistas. A percepção positivista, quanto à violência e à criminalidade, pauta-se na lógica da ordem e da racionalidade. O crime como fato social é tido como uma conduta desviante, portanto, adversa a sociedade. Nesse sentido, a ideia de controle social com a necessidade de instituições sociais, regras, leis e normas é fundamental para o enfrentamento do crime. E, por sua vez, o Estado com todo seu aparato social é a principal instituição para o equilíbrio social.
Dois teóricos criminalistas norte-americanos, James Wilson e George Kelling, relacionam a teoria do controle à teoria das janelas quebradas ou a teoria da desordem – trata-se de relato dos criminalistas, oriundo da pesquisa de observação acadêmica, que se uma janela quebrada não for consertada, dará margem para que indivíduos com mal intencionados entendam como uma oportunidade para prática de crimes, invadirem o local ou quebrarem as demais janelas. Isto porque nem a policia, nem mesmo os moradores se preocuparam com a conservação. A ideia das janelas quebradas relacionadas à desordem levou à adoção, nos Estados Unidos, da política de segurança pública da tolerância zero, de modo a vigiar e controlar duramente determinadas áreas.
A política de tolerância zero é tanto aplaudida por setores conservadores como contestada por setores da sociedade não só daquele país, mas também
22 Sociologia funcionalista tem Émile Durkheim como seu maior expoente. O funcionalismo procura explicar as determinantes sociais do comportamento – deveres e costumes – que unem e mantêm as pessoas na sociedade. Daí deriva a ideia de que o ―homem é produto do meio‖.
23 A ideia central consta na pesquisa com publicação virtual disponível em:
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pelo mundo afora. A prática foi considerada abusiva, além de caráter higienista contra quem já sofria com o aparato do Estado: os pobres, negros, prostitutas, gigolôs, mendigos, dependentes químicos e sem-teto.
O que de acordo com Marx;
―O Mundo, desde Caim, não melhorou e nem foi intimidado por meio de punições. O criminoso é um mero objeto e apenas o escravo da justiça. A pena nada é senão um meio de defesa da sociedade contra a violação de suas condições de vida. Porém, que tipo de sociedade é essa que não conhece nenhum instrumento melhor de defesa do que o carrasco judiciário, o qual, por um lado, elimina criminosos, apenas para novamente criar, por outro lado, espaço para novos criminosos? Não são tanto as instituições políticas, mas sim muito mais as condições fundamentais da sociedade burguesa moderna que produzem um número médio de crimes, em um dado setor nacional da sociedade― [...]―Deve existir algo de podre em um sistema social que aumenta sua riqueza sem que sua miséria diminua, multiplicando-se os crimes. As violações do direito são, em geral, o resultado de fatores econômicos que se situam fora do controle do legislador. A lei pode não apenas punir o crime, como também pode produzi-lo, sendo a lei dos juristas de profissão muito adequada para atuar nesse sentido.24 Em Marx, o crime é produto das condições sociais em que os indivíduos são submetidos na sociedade capitalista com uma desigual competição por emprego e renda.
1.6.1 Crime: Relação com as cidades
Caldeira (2000) inicia em seu texto uma reflexão sobre a relação entre o crime e medo do crime nas cidades, e como essa conjugação contribui para o processo de mudança social em que cada indivíduo ou família se protege como pode, independentemente do suporte do Estado. ―A vida cotidiana e as cidades mudaram por causa do crime e do medo, e isso se reflete nas conversas diárias, em que o crime tornou-se um tema central. Na verdade, o medo e
24 O texto de Marx foi redigido originariamente em língua inglesa e publicado, pela primeira vez,
no jornal New York Daily Tribune. Trata-se do Direito e o Estado, dos Juristas e a Justiça e sobre População, Crime e Pauperismo. Disponível em: www.scientific-
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violência, coisas difíceis de entender, fazem o discurso proliferar e circular‖ (Caldeira, 2000, p.27).
Feltran25 (2012), em seu artigo ―Governo que produz crime, crime que
produz governo: o dispositivo de gestão do homicídio em São Paulo (1992- 2011)‖, analisa a gestão do crime e do governo na cidade de São Paulo. Segundo ele, há dois regimes: o estatal, por meio das políticas de segurança pública, e do crime, por meio das atividades ilegais da droga, do roubo de carros e dos assaltos. Cada um deles na defesa de uma produção da sua ordem. ‖[...] governo e crime são, sobretudo, as matrizes morais de justificação das práticas e crenças desses sujeitos e instituições, que atualizam o dispositivo de administração da ordem urbana nas periferias da cidade e nos escritórios estatais‖ (Feltran, 2012). Partindo desse princípio, Feltran analisa três momentos emblemáticos que figuraram no cotidiano não só do povo de São Paulo, mas de todo o Brasil, pois, a mídia fez esse papel.
Trata-se da rebelião do Pavilhão 9, em 2 de outubro de 1992, que ficou conhecida como o massacre do Carandiru, e resultou a execução de 111 presos durante a ocupação da polícia. O episódio suscitou a revolta dos movimentos de direitos humanos de um lado, que por meio de manifestação conseguiram desativar o presídio, e por outro lado, como resposta a este cenário caracterizado por ―opressões do sistema‖ sobre os presos, como na restrição e a humilhação das visitas, nos espancamentos, nas punições consideradas exageradas, no atraso nos processos criminais, é criado o Primeiro Comando da Capital (PCC), que se firma como combatente das ―injustiças e opressões internas e externas à população carcerária, e em ruptura com a tradição associativa dos movimentos sociais das décadas anteriores, o PCC expandiu progressivamente sua legitimidade pelo sistema penitenciário nos anos seguintes‖. O pesquisador analisa o papel e a influência do PCC como um coletivo de articulação e na reparação do crime nas periferias de São Paulo e configura-se como autoridade que dita as regras e as
25 Gabriel de Santis Feltran. Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM/CEBRAP). Seu artigo: ―Governo que produz crime, crime que produz governo: o dispositivo de gestão do homicídio em São Paulo (1992-2011) foi publicado no
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leis das ações, organizando e dominando os territórios. O PCC em muitos momentos faz o papel de polícia e de juiz, prerrogativa do Estado. No caso dos ataques de maio de 2006, o coletivo atuou em nome de uma ordem do crime e do governo que resultou num saldo avassalador.
―A divulgação da lista oficial dos mortos naquela semana de maio foi retardada ao máximo pela Secretaria Estadual de Segurança Pública. Sob pressão das entidades de direitos humanos e de parte da imprensa, foi parcialmente apresentada dez dias depois do início dos eventos. Os números indicavam 168 homicídios: 40 agentes do Estado mortos na ofensiva do crime, 128 pessoas oficialmente mortas pela polícia; 28 prisões efetuadas. Não foi noticiado que os indivíduos abatidos em ―chacinas‖ e os ―desaparecidos‖ estavam fora destas rubricas. Um balanço mais realista dos eventos foi melhor conhecido apenas seis meses depois. Apenas o jornal ―O Estado de S. Paulo‖ divulgou uma investigação realizada em 23 Institutos Médico-Legais do Estado, que indicava que entre os dias 12 e 20 de maio de 2006, houve ao menos 493 homicídios em São Paulo. Destes, as acusações das entidades civis apontam para ao menos 221 praticados por policiais, e os números oficiais informam que 52 referem-se aos mortos nos ataques públicos do PCC‖ (Feltran, 2012).
Os dados ainda não computaram os crimes contra os patrimônios públicos e privado. No entanto, até hoje as ações da polícia dividiram as opiniões, principalmente no caso do Massacre do Carandiru. Alguns aprovam e outros não, mas talvez o episódio tenha sido principal embrião das manifestações que suscitaram, cobrando do Estado maior rigor no combate ao crime por meio de ações preventivas.