• Nenhum resultado encontrado

Conceitos de estilo

No documento Estilo poético na obra de Max Martins (páginas 76-81)

Capítulo 1: Gênero e estilo no discurso poético

1.3 Estilística e estilo

1.3.1 Conceitos de estilo

O conceito de estilo está indissoluvelmente associado, segundo Bakhtin (2006), à noção de gênero. Todavia o estilo tem sido, quase sempre, estudado em separado do gênero pelos grandes mestres da estilística, procedimento também validado, em certas circunstâncias, pelo estudioso russo.

O estilo é indissociável de determinadas unidades temáticas e – o que é de especial importância – de determinadas unidades composicionais: de determinados tipos de construção de conjunto, de tipos do seu acabamento, de tipos da relação do falante com outros participantes da comunicação discursiva – com os ouvintes, os leitores, os parceiros, o discurso do outro, etc. O estilo integra a unidade de gênero do enunciado como seu elemento. Isto não significa, evidentemente, que o estilo de

linguagem não possa se tornar objeto de um estudo especial independente (grifo

nosso). Semelhante estudo, ou seja, a estilística da língua (grifo nosso) como

31 Assim como se pode falar de um dialogismo interno do enunciado, pode-se postular um monologismo interno

também, caso em que, o sentido dessas expressões não deve ser associado diretamente ao uso, na obra literária, do monólogo e do diálogo, que se referem a formas composicionais distintas. É esse modo de usar as expressões referidas que nos permitirá falar em um romance monológico oposto a um romance dialógico, e ainda afirmar que o poema lírico é monológico. O romance é monológico, neste sentido, quando o heterodiscurso não é utilizado de modo imiscível, enquanto que o poema lírico é monológico porque nele o hetereodiscurso cede lugar ao discurso único do poeta, do estilo poético, permitindo-nos diferençá-lo do estilo da prosa.

32

Ainda em reforço ao nosso modo de entender a compreensão que tem Bakhtin (2015) dos elementos constitutivos e distintivos da prosa e da poesia, convém ler esse comentário: “É claro que a nenhum poeta que tenha existido historicamente como pessoa cercada de hetrodiscurso e linguagens diversas poderia ser estranha essa sensação de limitação de sua linguagem (em maior ou menor grau), mas ela não conseguiria encontrar um lugar no estilo poético – grifo do autor – de sua obra sem destruir esse estilo, - grifo nosso – sem traduzi-lo à moda da prosa, nem transformar o poeta em prosador. (BAKHTIN, p. 59)

disciplina autônoma também é possível e necessário. No entanto esse estudo só será correto e eficaz se levar permanentemente em conta a natureza dos gêneros dos estilos linguísticos e basear-se no estudo prévio das modalidades dos gêneros do discurso. “(BAKHTIN, 2006, p. 266)

Vamos adotar integralmente o seu ponto de vista, até porque, como se verá, devido ao caráter monodiscursivo do poema lírico, a modalidade mais adequada de análise estilística para estudá-lo é mesmo aquela denominada por ele de estilística da língua, sem descurar, obviamente, da relação entre estilo e gênero, o que, entretanto, - ressalte-se, para que não sejam apresentadas de modo incompleto as reflexões do autor, - mesmo assim, não a torna apta a abordar as especificidades estilísticas dialógicas do romance, que sempre é um fenômeno heterodiscursivo, mesmo que nem sempre imiscível, isto é, mesmo que nem sempre polifônico.

Daqui por diante, portanto, nosso interesse se concentrará, tão somente, na apresentação da estilística da língua, de modo que nos referiremos à estilística sociológica (do romance) apenas quando ela for necessária para dar realce à estilística da língua.

Como a noção de estilo está, em nossa tese, associada ao uso estético da língua, e utilizamos constantemente a noção de desvio, convém apresentar essa noção, agora, de um modo mais preciso.

Desde que a noção de desvio se tornou peça chave nas análises de Spitzer33 (1974) e passou a ser usada nos estudos literários dos estilistas espanhóis, ela se tem mantido operante na história subsequente da análise estilística.

Desvio, em linguística, é o grau de afastamento do uso da língua por falantes e escritores/escreventes relativamente à norma linguística existente na tradição de uso do idioma.

Na estilística do estilo poético, que particularmente nos interessa, desvio é o procedimento em que esse afastamento permite aos autores de obras literárias produzirem o efeito estético.

33

Vejamos como Spitzer (1974) se refere a noção de estilo quando apresenta as razões de suas investigações estilísticas da obra literária: “Porém eu me propus a encontrar uma definição mais rigorosa e científica do estilo de um escritor particular; uma definição de linguista, que substituísse as observações casuais, impressionistas, da crítica literária vigente. A estilística, pensava eu, preencherá o vazio entre a linguística e a história da literatura. Por outra parte, recordava a advertência do adágio escolástico: ‘individuum est ineffabile’, não se pode definir o indivíduo. Estaria forçosamente destinado ao fracasso qualquer intento de definir um escritor particular por seu estilo? Eu argumentava assim: todo desvio – grifo nosso – estilístico individual da norma corrente tem que representar um novo rumo histórico empreendido pelo escritor; tem que revelar uma mudança no espírito da época, uma mudança que a consciência do escritor registrou e que quis traduzir em uma forma linguística forçosamente nova.” (SPITZER, 1974, p. 21)

Essa noção pode ainda ser ampliada para outras linguagens (vestuário, alimentação, etc.), numa perspectiva semiológica, como propõe Barthes (1979, p. 28-32), desde que postulemos a relação homológica entre as demais linguagens e a linguagem humana (língua).

Postulada essa homologia, poderemos considerar, também, elementos passíveis de uma análise estética do estilo, por serem integrantes de uma linguagem, desde que usados de forma desviante, por exemplo: a organização temporal na narrativa fora dos padrões cronológicos e a desarticulação do enredo, que seriam desviantes relativamente à organização dos padrões lógicos de sequenciamento do tempo e à articulação natural de causa e efeito na estruturação de uma narrativa, respectivamente.

Segundo Todorov34 (1982), a homologia, de que estamos tratando aqui exclusivamente com base na relação entre elementos da língua e elementos composicionais da narrativa, faz parte de uma analogia de extensão universal e, em todo caso, é ela que permite podermos falar em uma gramática da narrativa, como ele o fez em sua obra A Gramática do Decameron.

Ainda aproveitando as reflexões de Todorov (1982), convém esclarecer neste momento, por sua evidente importância para a compreensão do método utilizado na tese, uma das diferenças básicas entre o enfoque da linguagem na análise da linguística estrutural e o enfoque da linguagem na análise estilística do poema que, segundo o entendimento de Bakhtin (2015), deve ser fundada no estudo do modo convencional de o poeta usar a imagem- palavra, a imagem tropo a partir dos recursos da langue e não do discurso.

A primeira se ocupa em demonstrar que a obra literária é um exemplo de organização estrutural similar ao da língua. A segunda vale-se dos elementos da estrutura da língua para demonstrar o seu uso afetivo e estético em uma perspectiva quer individual, quer coletiva.

A distinção entre análise estilística e análise estruturalista da obra literária fica claríssima quando Todorov (1982) delimita o alcance de seu estudo do Decameron, de Giovanni Boccaccio.

Só um aspecto do discurso – palavra usada aqui como unidade de sentido que o autor/falante organiza em um nível superior ao da frase (observação minha) – será aqui examinado: aquele que o torna suscetível de evocar um universo de representações. Nosso objeto será o universo evocado pelo discurso, e não este

discurso tomado em sua literariedade - grifo nosso. (TODOROV, 1982, p. 10)

34 Em suas palavras, que bem resumem a compreensão filosófica do estruturalismo linguístico, Todorov (1982)

afirma: “A gramática universal é, pois, a fonte de todos os universais e dá-nos a própria definição do homem. Não somente todas as línguas, mas também todos os sistemas significantes obedecem à mesma gramática. Ela é universal não somente porque está em todas as línguas do universo, mas porque coincide com a estrutura do próprio universo.” (TODOROV, 1982, p. 15)

Para esclarecer o que o estilo é, e, consequentemente, a estilística, no âmbito de nossa análise, principiemos comentando alguns conceitos de outros autores, antes de apresentarmos de modo mais desenvolvido o entendimento de Bakhtin (2015), cujas noções ele não substituirá, mas complementará com sua perspectiva conceitual fundada na compreensão da língua como fenômeno dialógico, interativo.

Comecemos pelas reflexões de Granger (1974) que se referem ao estilo como algo que existe tanto em textos literários quanto não literários, estabelecendo a diferença entre dois tipos de estilística.

Essas reflexões se encontram na sua obra Filosofia do Estilo, e mesmo prioritariamente interessadas no caráter geral do estilo, reconhecem e validam o que estamos denominando de estilo poético, ou a dimensão estética da obra literária e sua respectiva estilística.

Convém notar que Granger (1974) faz, também, nesta obra, paralelamente às suas considerações abrangentes do estilo, uma investigação restrita dele, demonstrando aquilo que na linguagem é pertinente ao estilo poético.

(...) é estético tudo o que diz respeito à relação de uma estrutura com seus conteúdos, desde que se considere o objeto como objeto de uma contemplação

possível – grifo do autor -. A estilística geral não se preocupa em operar esta

comutação eventual do sentido de seu tema de análise; ela o toma somente enquanto trabalho e produto de trabalho, mesmo que a intenção do trabalhador tenha sido justamente a de produzir uma obra de arte. O esteta, ao contrário, converte seu tema em um objeto contemplativo, mesmo se é, por sua criação, inserido de maneira totalmente diferente em uma prática individual e coletiva. Assim as máscaras e costumes rituais africanos foram desligados como objetos estéticos – grifo do autor - de um contexto político-religioso. Evidentemente a tomada de posição estética constitui, por sua vez, uma figura da prática, que poderia ser suscetível de um exame de estilo. A tarefa que nos propomos, neste capítulo, é, pois, considerar o uso das estruturações linguísticas sobretudo na medida em que esse uso é visado como objeto de contemplação” (GRANGER, 1974, p. 218-219)

O excerto é claro, mas é importante, para reiterar o ponto de vista adotado em nosso trabalho, fazer a respeito dele a seguinte observação: quando se adota a perspectiva de considerar a obra poética como um objeto de caráter intuitivo, contemplativo, deve-se esclarecer que a “tomada de posição estética” relativamente ao objeto literário analisado não deriva de uma atitude subjetiva de quem faz a análise, mas dos dados objetivos do poema constitutivos de sua poeticidade, caso contrário a existência do caráter estético do objeto dependeria de uma decisão pessoal do analista.

O emprego da palavra estilo como categoria analítica é muito abrangente. Martins (2012) comenta o fato nos dizendo que:

(...) dos teóricos da estilística, alguns só consideram o estilo na língua literária, outros o consideram nos diversos usos da língua; alguns relacionam o estilo ao

autor, outros à obra, outros ainda ao leitor, que reage ao texto literário; alguns se concentram na forma da obra ou do enunciado, outros na totalidade forma- pensamento. (MARTINS, 2012, p. 18)

Para delimitar nosso campo conceitual, será proveitoso examinar os conceitos que nos parecem mais pertinentes à análise dos poemas de Max Martins. Vejamos alguns dentre os registrados na síntese bastante criteriosa feita por Martins (2012) para apresentar a variedade do que se entende ser o estilo. Ela nos explica que:

Estilo é a qualidade do enunciado, resultante de uma escolha que faz, entre os elementos constitutivos de uma dada língua, aquele que a emprega em uma circunstância determinada. (Marouzeau)

O estilo é compreendido como uma ênfase (expressiva, afetiva ou estética) acrescentada à informação veiculada pela estrutura linguística sem alteração de sentido. O que quer dizer que a língua exprime e o estilo realça. (Rifaterre)

Estilo é surpresa. (Kibédi Varga) Estilo é expectativa frustrada. (Jakobson)

Estilo é o que está presente nas mensagens em que há a elaboração da mensagem por si mesma. (Jakobson)

Estilo é o aspecto do enunciado que resulta de uma escolha dos meios de expressão, determinada pela natureza e pelas intenções do indivíduo que fala ou escreve. (Guiraud)

Estilo é o conjunto objetivo de características formais oferecidas por um texto como resultado da adaptação do instrumento linguístico às finalidades do ato específico em que foi produzido. (Herculano de Carvalho) (MARTINS, 2012, p. 19)

Os conceitos de Marouzeau, Guiraud e Carvalho têm em comum o fato de associarem o estilo a um uso linguístico determinado por uma necessidade, por uma circunstância, por uma finalidade. O caráter genérico desses conceitos permite-nos relacioná-los tanto ao estilo existente em obras literárias como fora delas. Vale ressaltar que estudos do estilo fora do contexto literário são auxiliares importantes para uma delimitação mais precisa do estilo no interior das obras de literatura stricto sensu. 35

De resto, Bakhtin (2006) refere-se exatamente a isso quando nos fala dos campos da atividade humana a que os gêneros estão associados, ou quando associa o estilo à categoria geral dos gêneros do discurso, lembrando sempre que o estilo, nesse autor, está intimamente associado ao gênero, o que nem Guiraud, nem Carvalho dizem. A expressão “conjunto

35

Granger (1974), na introdução de Filosofia e Estilo, mesmo considerando que os estudos estilísticos surgem no plano da análise literária, insiste na possibilidade de estudar o estilo individual fora do plano estético, que é o objetivo central de seu ensaio, afirmando: “Filósofo das ciências, não tentaremos efetivar este plano num domínio que nos seja por demais estranho. No entanto não dissimulamos a importância – para pôr à prova as sugestões precedentes – de um estudo estilístico das práticas sociais concretas, de ação política, por exemplo; ou ainda da prática artística e mesmo, sem dúvida, do que Henri Lefebvre colocou em relevo e analisou, de um ponto de vista bastante diferente, sob o nome de ‘vida cotidiana’. Será a prática científica, contudo, que constituirá a matéria essencial de nosso ensaio. Aliás, por isso, a tarefa será ainda mais difícil. Com efeito, a prática científica parece por entre parênteses o individual, virar as costas ao estilo. Nada mais impessoal, menos individuado do que a ciência. Não cansamos de repetir que ela só visa ao geral. Aparentemente, o sucesso universal da empresa científica seria até mesmo a morte do estilo.” (GRANGER, 1974, p. 22)

objetivo de características formais”, usada por Carvalho, é a que mais parece se aproximar da noção de gênero.

Entre estes conceitos, entretanto, não há contraste, há complementariedade.

A noção de “escolha” está ausente no conceito de Carvalho e presente nos outros dois, mas como é impossível ter um estilo dentro da linguagem, por mais genericamente que a concebamos, sem escolher, certamente, em Carvalho, ela está implícita.

Os outros quatro conceitos podem ser diretamente associados ao estilo literário. As noções de surpresa (VARGA) e de frustração (JAKOBSON) são correlatas porque é justamente o uso surpreendente dos tesouros da língua, insistentemente buscados pelo poeta, como afirma Bakhtin (2015), que frustra as expectativas não só do leitor comum, mas até mesmo do leitor habituado a conviver com a literatura, porque a utilização incomum dos elementos constituintes do idioma, às vezes, vão mesmo além de suas expectativas naqueles momentos mais expressivamente estéticos da criatividade literária.

Na realidade, para que algo seja surpreendente deve frustrar uma expectativa. Mas frustrar aqui não tem a carga semântica de provocar um desprazer. Quem realmente vivencia o fenômeno artístico, quem verdadeiramente o compreende, alegra-se com a surpresa que frustra o clichê, o repetido. Grande parte do chamado efeito estético, poético, a obra de arte em si, depende disso.

Esse objetivo artístico do estilo está também corroborado pela expressão “ênfase estética”, usada por Rifaterre, e pela noção de que a mensagem caracterizadora do estilo na literatura, como diz Jakobson (1995), chama a atenção sobre si mesma, o que nos devolve à ideia da “intransitividade” do discurso literário, citada por Maingueneau (2010), e à concepção de “inutilidade” do objeto artístico, referida por Kant (1995).

No documento Estilo poético na obra de Max Martins (páginas 76-81)