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Conceitos de ortografia e manual ortográfico

3. Aspectos da teorização metaortográfica de Madureira Feijó

3.1. Conceitos de ortografia e manual ortográfico

No âmbito da reflexão sobre a conformidade com os seus antecessores e a originalidade da obra torna-se pertinente contextualizar a definição de ortografia. Para isso afigura-se necessária a explicitação da arreigada relação entre ortografia e gramática.

“Com efeito, na origem, a gramática era a “ciência das letras ou dos textos”, para depois passar a ser “ciência da língua” e, por antonomásia, numa perspectiva tradicional, logo, normativa, o manual em que são expostas as “regras para bem falar e bem escrever”. Devido ao desenvolvimento da reflexão e da análise linguísticas entre os Antigos, a gramática foi dividida em partes, entre elas a ortografia, que se ocupava das “letras”, e, por extensão, das regras da representação correcta da língua”. (Gonçalves, 2003: 218).

Por esse motivo se buscou a definição basilar de ortografia não propriamente de ortógrafos, mas de gramáticos quinhentistas: logo no início da Grammatica da Lingoagem

Portugueza de Fernão de Oliveira,51 publicada em 1536, a Ortografia é nomeada, junto com o Acento, a Etimologia e a Analogia.

“No Prólogo da Gramática da língua portuguesa de João de Barros, publicada em 1540, também o autor apresenta a Ortografia como uma das quatro partes em que os latinos “partem a sua gramática”. No capítulo dedicado à ortografia, diz que se trata de uma palavra grega que “quer dizer ciência de escrever dereitamente” ” (Mateus, 2006: 3).

Das várias ortografias anteriores a Madureira Feijó estudadas por Kemmler52 seleccionou-se a de João Franco Barreto:

“ORTOGRAFIA he arte de bë escrever qualquer linguagem; isto he, de escrever as palavras, & as vozes cõ as letras devidas, & sómëte necessarias, së por uma por outra, në alguma de mais, ou de menos: porque assi como ë um corpo umano nã estará bë uma perna de leã, ou uma cabeça de cavallo, assi em uma escritura nã estará bë que se metam outras letras, senã aquellas, que direytamente lhe convë, para sua significaçã. Vma letra mays, ou menos, muda muytas vezes o sentido. (…)” (Kemmler, 1996: 50).

Desta definição se infere que, em termos de conteúdo, não se afasta muito das ideias propugnadas por outros ortógrafos, quer portugueses quer latinos, anteriores à criação da sua obra, quer mesmo, parcialmente, em relação às definições de Feijó buscadas na Orthographia. A este respeito afirma Kemmler que “(…) a reflexão sempre crítica dos preceitos dados pelos seus antecessores parece antes dar a BARRETO o papel de continuador e renovador das ideias nunesianas que tinham tanta importância para a teoria

51

Ver bibliografia. 52

Este autor fornece um estudo diacrónico largamente informativo sobre as ortografias quinhentistas; as anteriores a Madureira Feijó, a ortografia deste autor e as posteriores à sua obra.

ortográfica do século XVII. Até finais deste século, pelo menos dentro do género literário do texto metaortográfico, mas também em outros géneros textuais, foi-se assim estabelecendo uma ortografia etimológica baseada prevelecentemente em considerações de ordem fonética.” (Kemmler, 1996: 52). Esta é a diferença que de imediato ressalta: se o conteúdo é semelhante a opção gráfica evidencia a evolução no sentido da vertente etimológica. Barreto foi “arauto da ortografia fonética” (Gonçalves, 1992: 44). e Feijó o expoente consideradíssimo da componente etimológica. Outro exemplo não seria necessário para além da forma como cada um destes autores grafa a palavra ortografia53.

Mas a diferença mais importante, entre a definição de ortografia de Barreto e a que se segue de Madureira Feijó é que a primeira não integra qualquer referência à sintaxe, enquanto na segunda a escrita está relacionada com a sintaxe e a prosódia, e não apenas com o som das palavras.

Atente-se nas definições madureirenses buscadas na Orthographia:

“Orthographîa, ou Orthografia he aquella Arte, que ensina a escrever com acerto nas letras, de que se compõem as dicçoens; na divisaõ, que se faz das palavras, quando naõ cabem inteiras no fim das regras; nos pontos, e virgulas, com que se divide o sentido das oraçoens; nos accentos, ou tons, com que se pronunciaõ as vogaes em cada palavra.” (Feijó, 1734: 1).

Contextualizando sincronicamente o sentido de “Arte”, que era entendido como gramática, esta definição esclarece as funções da obra e prova que Feijó redigiu, como era seu ojectivo, um tratado ortográfico, mas incluiu nesse trabalho a reflexão metaortográfica. Esta consiste na explicitação da discussão dos critérios em que assentam as decisões sobre a validade das formas dadas como bom exemplo. A frequência com que as formas são discutidas é mais elevada do que nas obras anteriores, mas essa discussão já existia antes da Orthographia. A diferença é que em Feijó essa discussão não é esporádica, ela faz parte do próprio método.

O objecto da obra não se confina ao território da ortografia, dado que, de modo muito pragmático, o autor além de formular regras de intuito pedagógico, que visavam a correcção da escrita na utilização prática da língua, enuncia também regras, com o mesmo intuito, que visavam a correcção da pronunciação porque uma e outra eram interdependentes54.

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Álvaro Ferreira de Vera, 1631: “Orthographia he arte de escrever as vozes com as letras dividas á direita pronunciação, & segundo sua origem: porque orthos (em Grego) quer dizer direito; & graphos escreuo: como se dissessemos, escrevo como pronuncio.”;

João Franco Barreto, 1671: “Ortografia (….)”;

João de Morais Madureira Feijó, 1734: “Orthografia, com Fi longo, (…)”. 54

“Se o vulgo indouto naõ errara a recta pronunciaçaõ de innumeraveis palavras, seria facil ensinarmos a todos a escrever com acerto, seguindo em cada palavra na posiçaõ das letras o som da pronunciaçaõ; mas

“Orthografia, com Fi longo, he huma parte da Grammatica, que ensina a escrever rectamente. E tem a sua etymologîa, ou origem da palavra Grega Orthos, que he o mesmo que Rectus; e de

Grapho, que he o mesmo que Scribo; e por isso se define: Ars rectè scribendi: Arte de bem

escrever; porque ensina as letras, com que se haõ de escrever as palavras; a divisaõ das palavras no fim das regras; os pontos e virgulas, com que se divide o sentido das oraçoens; e os sinaes dos accentos, ou tons, com que se pronunciaõ as vogaes na composiçaõ das dicçoens.” (Feijó, 1734: 19).

Daqui se conclui que:“É na definição que Feijó nos dá da ortografia, que estamos a assistir a uma grande mudança no texto metaortográfico português. Ele não só eleva a ortografia ao estatuto de arte, mas também inclui nela de maneira explícita considerações sobre a divisão silábica, a pontuação e a ortoépia, assuntos que até então só estavam situados à margem da ortografia.” (Kemmler, 1996: 61). Por outras palavras, a novidade da definição madureirense de ortografia consiste na inclusão dos domínios da sintaxe e da prosódia.

Prosseguindo a comparação em linha diacrónica, importa verificar se aquilo que Feijó inovou foi aproveitado pelos autores que, depois dele, trataram o assunto. Para isso foram seleccionadas duas definições de ortografia posteriores a Feijó: uma publicada um século após a primeira edição da Orthographia e outra próxima dos nossos dias:

Em 1834 escreveu Joaquim José Ventura da Silva:

“Orthographia he a parte da Grammatica, que ensina a escrever com acerto, para bem reprezentar as palavras, e mostrarmos a distincção, e união das palavras, e mostrarmos a distincção, e união das orações.” (Gonçalves, 2003: 270).55

“Le concept d’orthographe implique la reconnaissance d’une norme écrite par rapport à laquelle on juge l’adéquation des formes que réalisent les sujets écrivant une langue ; l’orthographe suppose que l’on distingue des formes correctes et des formes incorrectes dans une langue écrite, contrairement à la graphie, qui n’implique pas la référence à une norme grammaticale. ” (Dubois, 1973: 349).

As diferenças encontradas nas ortografias anteriores à de Madureira Feijó são apenas variações na proporção do fonético e do etimologizante, sempre submetidas ao desejo de validação pela colagem ao uso dos doutos. Mas importa salientar que se verificou que os ortógrafos posteriores a Feijó não se afastaram do fundamental das ideias como o vulgo he o que mais erra a pronunciaçaõ das palavras, e pelo uso se communica este vicio aos mais, que naõ saõ do vulgo, naõ pode a pronunciaçaõ commüa ser regra certa da Orthografia. E dezejando eu satisfazer as repetidas supplicas dos que me pediraõ, que nesta Orthografia me acommodasse á capacidade de todos, porque ainda os que naõ estudaraõ, desejavaõ escrever com acerto, e naõ tinhaõ por onde aprender; entendi que naõ havia regras mais faceis para todos, que mostrar os erros, que vulgarmente andaõ introduzidos na pronunciaçaõ das palavras, ajuntando a cada huma a sua emenda, para que sem mais estudo, que a liçaõ, ou vista das palavras, possaõ todos aprender o que naõ cabe nas regras da Orthografia.” (Feijó, 1734: 19).

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Maria Filomena Gonçalves apresenta, neste livro, uma apurada pesquisa organizada em listagem de definições de ortografia, de ortógrafos e gramáticos oitocentistas.

que ele advogava, pois continuam a integrar aquilo que este autor apresentou de inovador em relação aos seus antecessores. Dito de outra forma, as definições de ortografia apresentadas por autores posteriores a Feijó integram as áreas da sintaxe e da prosódia, características que Feijó introduziu na sua definição. Além disso manter-se-á também, na justificação das opções, a variação na admissão de critérios fonéticos e etimologizantes56, invocando-os explicitamente.