Capítulo II Geografia e Paisagem
2.4 Conceitos de Paisagem
Seguindo os passos de Humbolt (século XVIII) quando fez referências à paisagem e demonstrou grande interesse pela fisionomia e aspecto da vegetação, pelo clima e sua influência, permitiu que os Geógrafos pudessem criar uma reflexão conceitual própria. Prioritariamente, o conceito de paisagem está ligado ao positivismo, de uma forma mais estática, na escola alemã, e de forma mais dinâmica, na escola francesa. Ambas estudaram a paisagem como um receptáculo
no qual se imprimiam as atividades humanas. Para tanto, Salgueiro (2001, p. 40) aponta que “na herança da estética romântica naturalista, bem evidenciada por Humbolt, a paisagem ocupa lugar proeminente na Geografia quando esta se constitui como disciplina científica na Alemanha, no século XIX, embora o conceito não tenha sido preciso”.
De forma geral, identificam-se duas maneiras distintas de estudo das paisagens. Primeiramente, a paisagem apreendida como uma fisionomia caracterizada por suas formas, o que pertence ao estudo morfológico da mesma. Uma segunda linha de estudo, atenta para as características e atributos físico- naturais e humanos, concomitantemente a leitura da interface entre os fenômenos. Inicialmente os estudos relacionados com a paisagem na Geografia foram focalizados na descrição das formas físicas da superfície terrestre e somente com o passar dos anos é que foram incorporadas as observações que abarcam as transformações humanas no ambiente.
A importância da paisagem na história do pensamento geográfico tem variado. Este conceito foi mesmo relegado a uma posição secundária, suplantada pela ênfase nos conceitos de região, espaço, território e lugar. [...] A retomada do conceito de paisagem, que se verificou após 1970, trouxe novas acepções fundadas em outras matrizes epistemológicas. Na realidade, a paisagem geográfica apresenta simultaneamente várias dimensões que cada matriz epistemológica privilegia. Ela tem uma dimensão morfológica, ou seja, é um conjunto de formas criadas pela natureza e pela ação humana, e uma dimensão funcional, isto é, apresenta relações entre as diversas partes. Produto da ação humana ao longo do tempo, a paisagem apresenta uma dimensão histórica. Na medida em que uma mesma paisagem ocorre em certa área da superfície terrestre, apresenta uma dimensão espacial. Mas a paisagem é portadora de significados, expressando valores, crenças, mitos e utopias: tem assim uma dimensão simbólica. (CORRÊA; ROSENDAHL 2004, p. 7-8)
De maneira tradicional, os Geógrafos diferenciam a paisagem natural e a paisagem cultural. A primeira refere-se à vegetação, clima, solo, lagos e rios, enquanto que na paisagem cultural relacionam-se às transformações, modificações realizadas pelo homem, tanto em espaços urbanos quanto rurais. Nessa perspectiva, é consenso que a paisagem resulte da relação dinâmica dos elementos físicos, biológicos e antrópicos. Não é considerada apenas como fato natural, mas inclui essencialmente a existência humana. “Essa separação entre paisagem natural e paisagem cultural explicita que o homem ao atuar como sujeito da ação sobre a natureza, tem capacidade de transformar e, portanto, de projetar uma outra forma
possível de ambiente que se estabelece depois da apropriação humana” (EMÍDIO, 2006, p. 66).
Para Cavalcanti (1996), a paisagem foi muito evidenciada na Geografia Tradicional, chegando a ser considerada por alguns estudiosos o próprio objeto de análise da Geografia. Ao estudar a paisagem havia a possibilidade da visualização dos fatos, dos fenômenos e dos acontecimentos geográficos, sendo atribuído o título de melhor expressão da relação homem – meio, evidenciando as diferenças entre as áreas.
Podemos identificar nos estudos de Geografia quatro grandes tradições ou correntes de principais, a da ‘Diferenciação Espacial ou Areal Studies para qual a região é um conceito chave, a dos ‘Estudos de Paisagem’ iniciada na Alemanha e continuada na Califórnia pela escola culturalista de Berkeley com C. Sauer, a da ‘Distribuição Espacial’ preocupada em explicar a localização dos fenômenos à superfície terrestre, e a das ‘Relações Homem-Ambiente’. Esta última, inicialmente marcada pelo determinismo naturalista, evoluiu depois para posições antropocêntricas mais ou menos fortes estudando o ajustamento dos grupos humanos ao meio, e adotando abordagens de tipo possibilista. (SALGUEIRO, 2001, p. 42)
Destarte, estudar a paisagem requer uma avaliação mais ampla, mais aprofundada dos elementos que a compõe, como por exemplo, a escala a ser considerada, a temporalidade na paisagem, bem como é extremamente necessário levar em conta o contexto histórico-geográfico e os processos naturais e humanos que a envolve. “Cada tipo de paisagem é a reprodução de níveis diferentes de forças produtivas, materiais e imateriais, pois o conhecimento também faz parte do rol das forças produtivas”. (SANTOS, 1997a, p.22)
Diante da construção do conceito, a paisagem foi um dos primeiros temas desenvolvidos pelos Geógrafos alemães utilizando a dimensão cultural incorporada na década de 1920, do século XX, pela então intitulada Geografia Cultural, por meio do Geógrafo americano Carl Sauer, membro da Escola de Berkeley que destaca a abordagem morfológica da paisagem. Quanto ao método morfológico Sauer (2004, p.32) explana: “É um sistema puramente evidencial, sem qualquer idéia preconcebida no que diz respeito ao significado da sua evidência, pressupondo o mínimo de suposição, ou seja, somente a realidade da organização estrutural”.
Nessa análise, a cultura é apreendida por meio das técnicas, dos utensílios e das transformações das paisagens, ou seja, dos aspectos naturais. Mas, para Paul Claval é relevante atentar para os dinamismos culturais, pois eles explicam a nova atenção dedicada à preservação das lembranças e a conservação da paisagem, [...]
“as paisagens da cidade, do campo e de áreas de homens podem ser objeto de análise em busca de seu significado, ultrapassando a tradição dos estudos morfológicos”. (CORRÊA; ROSENDAHL, 2003, p.13)
Para Corrêa (1997, p.20) “Carl Sauer desistiu do determinismo ambiental e, adotou o determinismo cultural, também uma versão do darwinismo cultural presente naquela concepção antropológica adotada pela Geografia Cultural”. Assim, a interação entre Geografia Física e Humana se torna um elemento essencial nos estudo de população e suas práticas culturais.
Toda Geografia é, com propriedade e segundo este ponto de vista, geografia física, não porque o trabalho humano esteja condicionado ao meio, mas porque o homem, por si mesmo, é objeto indireto da investigação geográfica, confere expressão física à área com suas moradias, seu lugar de trabalho, mercados, campos e vias de comunicação. [...] A área cultural do geógrafo consiste unicamente nas expressões do aproveitamento humano da superfície ou, seguindo Schlüter, as marcas visíveis, realmente extensivas e expressivas da ação do homem. O geógrafo mapeia a distribuição destas marcas, agrupa-as em associação e genéticas, descreve-as desde a sua origem e sintetiza-as em sistemas comparativos de áreas culturais. (SAUER, 2003, p.23)
Nesse ínterim, avalia-se que a leitura da paisagem deve abarcar a responsabilidade do ser humano em transformá-la ao criar laços mais arraigados com os sistemas culturais do que com os próprios elementos físicos da mesma. A análise de Sauer privilegiou um plano sistemático de amplitude mais geral, e que enfatizava as estruturas funcionais, claramente delineadas pelas bases do pensamento positivista na tentativa de definir o conceito de paisagem, o que sugere uma separação de paisagem natural e cultural ao identificar o homem como agente transformador da natureza, vislumbrando na sua ação suas naturezas: uma anterior e uma posterior a ação humana. Essa foi a grande contribuição de Sauer para o estudo da paisagem que se tornou um conceito-chave para a Geografia e redirecionou a maneira antropogênica demonstrando que ela é o distanciamento do espírito humano do seu meio natural, descrevendo uma dialética entre os elementos fixos da paisagem natural como solo, os rios, os elementos móveis, em geral os homens