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DIMENSAO UNIVERSAL E CRITÉRIOS

5. EVANGELIZAÇÃO, IDEOLOGIAS E POLÍTICA 1 Introdução

5.3. Conceitos de política e de compromisso político

521. Devemos distinguir dois conceitos de política e de compromisso político: primeiro, a política em seu sentido mais amplo que visa o bem comum, no âmbito nacional e no âmbito internacional. Corresponde-lhe precisar os valo- res fundamentais de toda a comunidade - a concórdia interna e a segurança ex- terna - conciliando a igualdade com a liberdade, a autoridade pública com a legítima autonomia e participação das pessoas e grupos, a soberania nacional com a convivência e solidariedade internacional. Define também os meios e a ética das relações sociais. Neste sentido amplo, a política interessa à Igreja e, portanto, a seus pastores, ministros da unidade. É uma forma de dar culto ao único Deus, dessacralizando e ao mesmo tempo consagrando o mundo a Ele (LG 34) .

522. A Igreja contribui assim para promover os valores que devem inspirar a política, interpretando em cada nação as aspirações de seus povos especial- mente os anseios daqueles que uma sociedade tenda a marginalizar. E o faz mediante seu testemunho, sua doutrina e sua multiforme ação pastoral.

523. Segundo: a realização concreta dessa tarefa política fundamental se faz normalmente através de grupos de cidadãos que se propõem conseguir e exer- cer o poder político para resolver as questões econômicas, políticas e sociais segundo seus próprios critérios ou ideologias. Neste sentido se pode falar de “política de partido”. As ideologias elaboradas por esses grupos, embora se

inspirem na doutrina cristã, podem chegar a diferentes conclusões. Por isso, nenhum partido político, por mais inspirado que esteja na doutrina da I- greja, pode arrogar-se a representação de todos os fiéis, já que seu programa concreto nunca poderá ter valor absoluto para todos184 (João Paulo II, Discur- so Inaugural, I, 4-AAS, LXXI, p. 190).

524. A política partidarista é o campo próprio dos leigos (GS 43). Corresponde à sua condição leiga constituir e organizar partidos políticos, com ideologia e estratégia adequada. para alcançar seus legítimos fins.

525. O leigo encontra na doutrina social da Igreja os critérios adequados, à luz da visão cristã do homem. Por seu lado, a hierarquia lhe garantirá sua solidari- edade, favorecendo sua formação e sua vida espiritual e estimulando-o em sua criatividade para que procure opções cada vez mais conformes com o bem comum e as necessidades dos mais fracos.

526. Os pastores, pelo contrario, uma vez que devem preocupar-se com a uni- dade, se despojarão de toda ideologia político-partidária que possa condicionar seus critérios e atitudes. Terão, assim, liberdade para evangelizar o político como Cristo, a partir de um Evangelho sem partidarismos nem ideologizações. O Evangelho de Cristo não teria tido tanto impacto na história, se ele não o houvesse proclamado como uma mensagem religiosa. “Os evangelhos mos- tram claramente como para Jesus era mais tentação o que alterasse sua missão de Servo de Javé.185 Não aceita a posição daqueles que misturavam as coisas de Deus com as atitudes meramente políticas186 (João Paulo II, Discurso I- naugural, I, 4-AAS, LXXI, p. 190).

527. Os sacerdotes, também ministros da unidade e os diáconos, deverão sub- meter-se a idêntica renúncia pessoal. Se militassem em política partidarista, correriam o risco de absolutiza-la e radicalizá-la, dada sua vocação a ser “os homens do absoluto”. “Mas na ordem econômica e social e principalmente na ordem política, em que se apresentam diversas opções concretas, ao sacerdote como tal não lhe cabe diretamente a decisão, nem a liderança, nem tampouco a estruturação de soluções” (Med., Sac. 19) . “Ao assumir uma função diretiva (leadership), “militar” ativamente em um partido político, é algo que deve ex- cluir qualquer presbítero, a não ser que, em circunstâncias concretas e excep-

184

Cf. Pio XI, A Ação Católica e a Política, 1937. 185

Cf. Mt 4,8; Lc 4,5.

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cionais, o exija realmente o bem comum, obtendo o consentimento do bispo, consultado o conselho presbiteral e - se o caso o requer - também a Conferência Episcopal” (Sínodo 1971, Parte II, 2b). Certamente, a tendência atual da Igreja não está neste sentido.

528. Os religiosos, por sua forma de seguir a Cristo, segundo a função peculiar que lhes compete dentro da missão da Igreja, de acordo com seu carisma espe- cífico, também cooperam na evangelização do político. Numa sociedade pouco fraterna, dada ao consumismo e que se propõe como fim último desenvolvi- mento de suas forças produtivas mate riais, os religiosos têm que ser testemu- nhas de uma real austeridade de vida, de comunhão com os homens e de inten- sa relação com Deus. Deverão, pois, resistir, igualmente, à, tentação de com- prometer-se em política partidarista, para não provocar a confusão dos valores evangélicos com uma ideologia determinada.

529. Uma atenta reflexão dos bispos, sacerdotes e religiosos sobre as palavras do Santo Padre, será preciosa orientação para seu serviço neste campo: “A al- ma que vive em contacto habitual com Deus e se move dentro do ardente raio de seu amor, sabe defender-se com facilidade da tentação de particularismos e antíteses, que criam o risco de dolorosas divisões; sabe interpretar, à justa luz do Evangelho, as opções pelos mais pobres e por cada uma das vítimas do ego- ísmo humano, sem ceder a radicalismos sócio-políticos, que com o tempo se revelam inoportunos, contraproducentes e geradores eles próprios de novas vi- olações. Sabe aproximar-se das pessoas e inserir-se no meio do povo, sem questionar a própria identidade religiosa, nem obscurecer a “originalidade es- pecífica” da própria vocação que deriva do peculiar “seguimento de Cristo”, pobre, casto e obediente. Um momento de verdadeira adoração tem mais valor e fruto espiritual do que a mais intensa atividade, ainda que se tratasse da pró- pria atividade apostólica. Essa é a “contestação” mais urgente que os religiosos devem opor a uma sociedade onde a eficácia veio a ser um ídolo, sobre cujo altar não poucas vezes se sacrifica até a própria dignidade humana” (João Pau- lo II aos Superiores Maiores Religiosos, 24-11-1978) .

530. Os leigos dirigentes da ação pastoral não devem empregar sua autoridade em função de partidos ou ideologias.