3. EMBASAMENTO TEÓRICO
3.4. CONCEITOS DE QUALIDADE DE VIDA
De acordo com Neri (1997, p. 7) a expressão qualidade de vida, originária dos estudos de medicina sobre as chances de sobrevivência de recém- nascidos, apareceu nos “Psychological Abstracts” em 1985, com 38 referências e no contexto da psicologia no Brasil, somente em 1991, introduzido por Anita Liberalesso Neri. A autora conceitua qualidade de vida na velhice como:
Um constructo multidimensional referenciado a critérios sociais normativos e intrapessoais, a respeito das relações atuais, passadas e prospectivas que o indivíduo maduro ou idoso faz de suas relações com o seu ambiente (NERI, 1997, p. 7).
Pesquisadores da área do planejamento urbano (CARMO, 1993; BASSANI, 2001; JANUZZI, 2002, 2003; NAHAS, 2002), concordam que no final dos anos 1970, o conceito de qualidade de vida era visto como referencial às avaliações de desenvolvimento, incorporando aspectos concernentes à análise individual sobre condições de vida, tais como grau de satisfação, senso de realização e nível de felicidade.
“[...] a caracterização de uma boa qualidade de vida não se faz pela ausência de doença, mas pelo bem-estar profissional, físico, emocional e social das pessoas.” (LIPP, 1997, apud, BASSANI, 2001, p.50).
O conceito de qualidade de vida incorpora percepções da pessoa perante um conjunto de sistemas do seu ambiente, aquele que tem uma imagem sobre valores e crenças, possui uma história de vida e se defronta cotidianamente com o desconhecido.
Bassani (2001, op cit, p. 50) exemplifica dizendo: “Um migrante que chega a São Paulo, que vai viver em alguma favela, mas sente-se acolhido ali, passa a trabalhar junto a algum ambulante e consegue comprar um aparelho de som e CD de suas músicas prediletas, pode, por exemplo, não eleger como prioridade de qualidade de vida na cidade as condições de moradia, mas, sim, a segurança para trabalhar como ambulante ou o transporte mais eficiente para passar com os amigos ou a namorada. ” Por outro lado, “[...] o profissional liberal, que foi obrigado a mudar de sua casa ampla para um apartamento por ter sido assaltado e ter visto a vida de sua família ameaçada, pode eleger a segurança, as condições de privacidade e moradia como prioridades na avaliação de qualidade de vida em São Paulo.”
Salienta-se que, conforme comentado na Introdução deste trabalho (p.1), mais uma vez, os aspectos sobre Percepção, abordados anteriormente, voltam a ser utilizados como parâmetro de Qualidade de Vida ou do bem-estar do homem.
Santos (1996, p.12) analisando os aspectos do bem-estar do cidadão brasileiro, comenta: “Em nenhum outro país foram assim contemporâneos e concomitantes processos como a desruralização, as migrações brutais desenraizadoras, a urbanização galopante e concentradora, a expansão do consumo de massa, o crescimento econômico delirante, a concentração da mídia escrita, falada, televisionada, a degradação das escolas...” e completa seu raciocínio: “Em lugar de um cidadão formou-se um consumidor, que aceita ser chamado de
usuário”.
Na década de 1990, foram lançadas diversas iniciativas de cunho internacional com o intuito de desenvolver sistemas para medição de parâmetros de monitoramento da qualidade do ambiente urbano, cabendo ressaltar que entende-se como qualidade do ambiente urbano como a agregação de domínios objetivos (aspectos da vida tangíveis) e subjetivos (sentimentos sobre a vida) habitualmente quantificados pelas questões de satisfação e felicidade.
A seguir foram ressaltadas aquelas que se julgam ser as mais relevantes: • Projeto Cidades Sustentáveis (1993) pelo Grupo de Especialistas de
Ambiente Urbano da Comissão Européia, que culminou num relatório formulando recomendações para integrar as considerações sobre ambiente urbano na Europa com as políticas nacionais e locais;
• Programa Cidades Sustentáveis (1990) pelo UNCHS (United Nations Centre for Human Settlements – Habitat), destinado essencialmente a países em desenvolvimento e reúne o know-how de diferentes regiões do mundo, no sentido de fortalecer a capacidade de definir as questões ambientais mais críticas e identificar instrumentos e mecanismos adequados para as tratar; • Projeto Cidade Ecológica (1993), pelo Grupo Ambiental em Questões
Urbanas da OCDE, visando identificar estratégias para o desenvolvimento de políticas integradas e coordenadas que permitam a resolução eficiente de problemas ambientais. O projeto visa equacionar questões urbanas como transportes e infra-estruturas, produção e consumo de energia,
padrões de uso do solo e potencial para a renovação e desenvolvimento de áreas urbanas e suburbanas;
• Projeto Cidades Saudáveis (1991) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pretende envolver os municípios em várias regiões do mundo, incluindo América do Norte, Europa, América Latina e África, num programa de avaliação de um conjunto de variáveis ambientais relacionados à saúde nas cidades, visando a melhoria da qualidade do ambiente urbano;
• Programa Gestão Ambiental Urbana mantido pelo United Nations Development Programme (UNDP) em conjunto com a UNCHS-Habitat e pelo Banco Mundial, com a intenção de definir estratégias ambientais para preparar e implementar planos locais em cidades selecionadas;
• Agenda 21 Local é um projeto internacional do International Council of Local Environmental Iniciative (ICLEI) que pretende desenvolver um quadro de planejamento para o desenvolvimento local sustentável, colocando especial atenção na aplicação e concepção de mecanismos de planejamento ambiental, como consultas, auditorias, fixação de metas, monitoração para a indentificação de opções e avaliação de interesses conflituosos e valores implícitos no conceito da sustentabilidade.
Todos os sistemas de medição apontados geram uma lista de questões, geralmente interpretadas como variáveis ou indicadores.
Segundo Kayano e Caldas (2001, p.12), a análise dessas variáveis permite, por exemplo, construir um Índice de Qualidade de Vida do Bairro. No entanto, em relação àquelas variáveis que realmente traduzem os anseios da população, o autor faz as seguintes perguntas: Quais variáveis devem ser analisadas? A população pode ou deve opinar sobre aquelas que realmente podem ser utilizadas para “medir” sua “Qualidade de Vida?”.
Assim como na literatura médica está se formando consenso crescente23 de que a “qualidade de vida deve ser analisada pelo paciente e não pelo médico”, no aspecto urbano, talvez, a participação mais efetiva da população na definição das
23 Qualidade de Vida de Idosos com Câncer de Próstata em Radioterapia, Patrícia Peres de Oliveira.
Artigo publicado na Revista Sociedades Brasileiras de Câncer (RSBC), Ano1 • Nº 1 1.º Trimestre de 2004. ISSN 1679-9801 http://www.rsbcancer.com.br/rsbc_v_02/edicoes/01.pdf. Cons. 15 Ago. 2004.
variáveis que realmente devem ser analisados pelo poder público, pode manifestar o grau de satisfação da população.