3. Semiótica e representação social no fotojornalismo
3.1 Conceitos de representação e representação social
a algo terceiro, que é o signo ou a representação. Para Santaella e Nöth (2015), ambos os domínios das imagens não existem separadamente, pois estão ligados desde sua gênese. “Não há imagens como representações que não surgiram nas mentes daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo” (SANTAELLA; NÖTH, 2015, p. 15).
Jean-Paul Sartre, no ensaio A Imaginação (2017), chegou a conclusões semelhantes à Santaella e Nöth. O filósofo francês apontou que o processo de representação começa quando um signo se apresenta à percepção e ativa a consciência sobre uma determinada existência. A partir daí, a imaginação do indivíduo cria relações e constrói significados, os quais se convertem em representação na memória sob a forma de lembranças, transformando-se numa coisa terceira que mantém relações com o objeto, mas não se trata mais do objeto em si: isso seria aquilo que Peirce (2017) nomeou de interpretante dinâmico.
O filósofo francês explica ainda que a construção de significados não se dá exclusivamente a partir do signo que se apresenta à percepção, mas sim a partir de uma síntese de todos os elementos que estão no contexto desse signo (2017).
Aplicando esse conceito ao fotojornalismo, Sartre está dizendo que a construção de significado de uma fotografia publicada nos jornais se dá a partir da relação com outros signos intrínsecos à produção jornalística, como a legenda, a manchete, o texto da matéria e a disposição dos elementos na diagramação.
Sartre argumenta que nem mesmo as relações entre todos esses signos é capaz de garantir uma representação perfeita da realidade. Isso porque a imaginação, ou seja, o conhecimento por imagens, “pode forjar ideias falsas e só apresenta a verdade de forma truncada” (SARTRE, 2017, p.15). O historiador da arte Georges Didi-Huberman (2010) concorda com Sartre. Na obra O que vemos, o que nos olha, o autor explica que a imagem, enquanto recorte da realidade, apresenta “vazios” de significados e, para superar essas lacunas e realizar a interpretação, a imaginação preenche esses vazios com elementos da cultura, da ideologia, do repertório do intérprete. Nesse sentido, Arlindo Machado (2015) pontua que os sistemas de representação que deveriam explicar os fenômenos estão contaminados por lutas de classes e, por consequência, tornam-se sistemas necessariamente “deformadores”.
De maneira mais sintetizada, as observações de Jean-Paul Sartre parecem resumir o conceito de representações sociais de Serge Moscovici (2015), regido pelos processos de ancoragem e objetivação. É interessante notar, logo de saída, que os
processos de construção de significados e interpretações dos fenômenos que regem o conceito de representação social de Moscovici possuem relações estreitas com a semiótica de Peirce, principalmente no que diz respeito às construções simbólicas na sociedade (FÁVERO, 2005), e também no sentido de tornar familiar aquilo que é desconhecido, pois possibilita classificar, categorizar e nomear ideias e acontecimentos. A partir dessa dinâmica, se estabelece a compreensão, manipulação e interiorização do novo, juntamente com valores, ideias e teorias preexistentes e aceitas pela sociedade (MOSCOVICI, 1978).
As relações humanas e contatos com os fenômenos são em maior ou menor grau, mediatizadas por meio de representações. Para o psicólogo existem três fatores comuns que caracterizam as representações sociais e as construções simbólicas implícitas a elas (MOSCOVICI, 2015): 1) Nem sempre se está consciente de coisas óbvias, de modo que não conseguimos ver o que está diante dos nossos olhos. 2) Muitas vezes, aceita-se alguns fatos sem discussão, mesmo sendo básicos ao entendimento e, repentinamente, percebe-se que se tratava de ilusões. 3) As reações aos acontecimentos, quer dizer, as respostas aos estímulos externos, estão relacionadas a determinadas definições, comum a todos os membros de uma comunidade a qual se pertence. “Em cada um desses casos, notamos a intervenção de representações que tanto nos orienta em direção àquilo que é visível como àquilo que temos de responder” (MOSCOVICI, 2015, p. 31). O autor complementa essa questão afirmando que:
Isso significa que nós nunca conseguimos nenhuma informação que não tenha sido distorcida por representações ‘superimpostas’ aos objetivos e às pessoas que lhes dão certa vaguidade e as fazem parcialmente inacessíveis.
Quando contemplamos esses indivíduos e objetos, nossa predisposição genética herdada, as imagens e hábitos que nós aprendemos, as recordações que nós preservamos e nossas categorias culturais, tudo isso se junta para fazê-las [as representações] tais como as vemos (MOSCOVICI, 2015, p. 33).
Assim, as representações sociais, ou seja, tornar aquilo que é desconhecido em algo familiar, se desenvolve por meio de um processo duplo de pensamento, de natureza psicológica e social, baseado na memória e em conclusões passadas (MOSCOVICI, 2015). Os dois processos que são capazes de gerar as representações sociais são a ancoragem e a objetivação, cujas finalidades são “destacar uma figura
e, ao mesmo tempo, carregá-la de um sentido, inscrever o objeto no nosso universo (MAZZOTI, 1994, p. 63).
Moscovici define a ancoragem como um processo de tornar algo estranho, que não se encaixa nos nossos modelos particulares de classificação, aos nossos paradigmas e criar relações de modo que esse algo se torne acessível à nossa compreensão, portanto, ancorar seria exatamente classificar e dar nome a alguma coisa. Nesse sentido, classificar e titular coisas estranhas é um processo fundamental e inevitável do ser humano, porque aquilo que não é classificado e que não possui nome é estranho, não existente e pode até mesmo ser ameaçador. “Nós experimentamos uma resistência, um distanciamento, quando não somos capazes de avaliar algo, de descrevê-lo a nós mesmos e outras pessoas” (MOSCOVICI, 2015, p.
62).
A classificação das coisas exerce forte influência no processo cognitivo. Criar classes facilita o processo de sintetização de características comuns a determinados grupos. Nessa linha de raciocínio, Moscovici argumenta que o conjunto da ancoragem é, de um lado, uma síntese idealizada de características aparentes e, de outro, “uma matriz icônica de pontos facilmente identificáveis” (MOSCOVICI, 2015, p. 62). O autor utiliza o exemplo da representação visual de um cidadão francês, cujo estereótipo é uma pessoa de baixa estatura, usando um boné e carregando uma peça de pão. No campo das crises humanitárias, um exemplo pode ser a representação visual da população etíope, exaustivamente relacionada à desnutrição em razão da cobertura midiática da fome no país ao longo dos anos. O psicólogo social define que classificar e categorizar alguém ou alguma coisa significa escolher um dos paradigmas estocados em nossa memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com ele.
O psicólogo social aponta que o processo de ancoragem na representação social é um momento interno de percepção e construção de significado, o qual se dá por meio da cultura de uma determinada sociedade, de seu repertório social, e é influenciado pelas imagens e demais signos aos quais as pessoas são expostas, incluindo aí a representação midiática. Nesse sentido, o autor faz duas considerações sobre a ancoragem: 1) a teoria das representações exclui ideia de pensamento ou percepção que não possua ancoragem, de modo que todo sistema de classificação e representação parte em ponto de vista do senso comum, por ser impossível ter um sistema sem vieses, ficando evidente que existe um sistema primeiro para qualquer
objeto específico. 2) os sistemas de classificação e nomeação não são só meios de graduar e rotular pessoas ou objetos. O objetivo principal é facilitar a interpretação de características, a compreensão de intenções, motivação e “formar opiniões”
(MOSCOVICI, 2015).
A objetivação, segundo elemento que constitui o processo de representação social, é o momento em que a ideia abstrata que começou a se formar com a ancoragem se torna concreta, fixando e objetivando as ideias, num processo que Moscovici chama de núcleo figurativo, ou seja, o abstrato se materializa e se solidifica em um conceito que passa a ser aceito como elemento da própria realidade em forma de paradigma. Outra característica basilar da objetivação é que as ideias ancoradas na memória passam a ganhar o mundo e serem expostas socialmente nas conversas entre os membros de uma sociedade. É neste ponto que a representação social assume o caráter de um paradigma e se torna um símbolo. O autor argumenta ainda que é por meio da objetivação que as imagens passam a representar visivelmente um complexo de ideias, de modo que a imagem se torna um conceito de representação social (MOSCOVICI, 1978).
A natureza das representações sociais quando ganham poder simbólico, ou seja, uma convenção social, pode ser positiva ou negativa, conforme dito acima. De acordo com essa lógica, é possível exemplificar a questão a partir da representação social que foi construída dos muçulmanos. Ao longo de anos, eles têm sido relacionados com grupos extremistas que utilizam bombas para ataques terroristas.
Na medida em que esse conceito é exposto constantemente na sociedade, tais informações funcionam como repertório para a ancoragem de um conceito por meio da generalização. A generalização no processo de ancoragem, explica Moscovici (2015), se dá quando selecionamos uma categoria aleatória e usamos para fazer a classificação geral de um grupo.
No caso desse exemplo, uma das características aleatórias que serviu como elemento generalizador, classificando os muçulmanos em um único grupo, foi a roupa tradicional da religião. A partir do momento que essa ancoragem se fixou e assumiu caráter simbólico, o senso comum passa a aceitar o paradigma de que todo muçulmano é terrorista. Uma vez que uma sociedade tenha aceito tal paradigma, ou núcleo figurativo, as palavras-conceitos que se referem ao paradigma são usadas mais frequentemente para determinar uma imagem. Surge daí, segundo o psicólogo, fórmulas e clichês que sintetizam imagens poderiam possuir outro significado:
Ancoragem e objetivação são, pois, maneiras de lidar com a memória. A primeira mantém a memória em movimento e a memória é dirigida para dentro; está sempre colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A segunda, sendo mais ou menos direcionada para fora (para os outros), tira daí conceitos e imagens para juntá-los no mundo exterior, para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido (MOSCOVICI, 2015, p. 68).
A teoria de Moscovici oferece um ferramental importante para entender os processos psicológicos desencadeados pelos signos na memória individual e, por consequência, na construção da representação social enquanto corpo coletivo. Como se pode perceber, o autor utiliza em sua teoria conceitos muito semelhantes as classes de signos presentes na semiótica de Charles Sanders Peirce (FÁVERO, 2005). Diante disso, é fundamental compreender mais profundamente a formação dos signos e os processos de semiose.