• Nenhum resultado encontrado

HUMANIDADE NO MEIO AMBIENTE, NA ECOLOGIA E NA CRIAÇÃO

2.1 Conceitos e concepções do meio ambiente e ecologia

Abordar a práxis liturgíca como serviço para a humanidade, na perspectiva de uma ecoliturgia, e, de poder ver como as concepções teóricas, podem nos favorecer no que diz respeito à ecologia, ao meio ambiente e sua inter-relação com uma práxis pastoral liturgíca.

A palavra ―Ecologia‖ é derivada da língua grega, e se forma a partir da junção de duas palavras. ―Eco‖, Oikos e tem o sentido de casa; e ―Logia‖, que é a tradução de ―Logos‖ e tem o sentido de, ―palavra, conhecimento, estudo sobre algum tema específico‖. A partir dessas duas expressões gregas pode-se, compreender que a palavra Ecologia tem o sentido de conhecimento da casa, palavras sobre o funcionamento da casa, ou até mesmo, estudo sobre as interações da casa ou lugar onde se vive. (cf. CASTRO, 2003, p.36) Este termo foi usado pela primeira vez pelo biólogo alemão Ernst Haeckel, em 1866. Em sua concepção, ―Ecologia é o estudo das interações ou relações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente‖.

O destaque desta conceituação de Haeckel é a ênfase nas interações. (cf. DAJOZ, 1983, p. 75). A interação entre os seres vivos o seu ambiente passa a ser o objeto de análise, na perspectiva de Haeckel. Pode-se entender que esse destaque nas interações, faz da Ecologia uma ciência mais independente da biologia, não sendo apenas uma disciplina da mesma. Preocupar-se com o estudo dos seres e do meio ambiente já era a função da biologia e suas ramificações. Como meio ambiente entende-se com base na Constituição Federal de 1988:

É o conjunto de condições, leis, influências, alterações e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas (art. 3º, I, da Lei 6.938, de 31.8.81). Com base na Constituição Federal de 1988, passou-se a entender também que o meio ambiente divide-se em físico ou natural, cultural, artificial e do trabalho. (Constituição Federal)

Apesar de consagrada pelo uso e pela legislação brasileira, alguns autores consideram impróprio, em termos linguísticos, a expressão meio ambiente, por terem ambas as palavras, meio e ambiente, o mesmo significado. (IBAMA). A constituição Federal também define direitos e deveres a todos os seres humanos: A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, dispõe: Artigo 228: "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público o dever de defendê-lo e à coletividade o de preservá-lo para as presentes e futuras gerações". (Constituição Federal, 1988)

Ferreira define Ambiente: ―Aquilo que cerca ou envolve os seres vivos e/ou as coisas e os influência.‖ (2008, p.38), Boff, cita sobre Haeckel e sua ―ênfase nas interações‖ dizendo, que essas interações entre os seres vivos e seu habitat, ―é o que forma o meio ambiente.‖ Expressão cunhada em 1800 pelo dinamarquês Jens Baggesen e introduzida no discurso biológico por Jakob Von Uexkûll (1864-1944). Neste sentido o que se visa não é o meio ambiente, mas o ambiente inteiro. Assim o ser vivo não vive isolado, não é simples representante da sua espécie, Boff diz que o ser humano, ―deve ser visto e analisado sempre em relação ao conjunto das condições vitais que o constituem e no equilíbrio com todos os demais representantes da comunidade dos viventes.‖ (BOFF, 2004. P. 16-20)

Essa concepção fez com que a ciência deixasse os laboratórios e se inserisse organicamente na natureza, e dentro dela, as espécies e seus representantes individuais.

O destaque nas interações entre os mesmos traz a especificidade da classificação da Ecologia como ciência autônoma. Leonardo Boff apresenta uma consideração importante neste sentido: Não se trata de estudar o meio ambiente ou seres bióticos (vivos) ou abióticos (inertes) em si mesmos. A singularidade do discurso ecológico não está no estudo de um ou de outro pólo, tomados em si mesmos. Mas na interação e na inter-relação entre eles. (cf. BOFF, 2004, p.16)

Assim a conceituação da ecologia em Boff, é ainda mais abrangente, apresentando aspectos importantes, como a diferenciação de segmentos da ecologia, como a ecologia natural e a ecologia humana e define:

A ecologia não abarca apenas a natureza (ecologia natural), mas também a cultura e a sociedade (ecologia humana e social etc). A partir daí surgiram subdeterminações da ecologia, como a ecologia das cidades da saúde, da mente, entre outras. Importa, entretanto, entender que a ecologia quer enfatizar o enlace existente entre todos os seres naturais e culturais e sublinhar a rede de interdependências vigente entre tudo e tudo, constituindo a totalidade ecológica. Esta não representa uma estandardização e homogeneização imutável ou a soma de muitas partes ou detalhes; antes, ela forma uma unidade dinâmica feita de uma riquíssima diversidade. (BOFF, 2005, p. 25-26)

Ainda dentro desta perspectiva, afirma Boff:

Ecologia é relação, inter-ação e diálogo de todas as coisas existentes (viventes ou não) entre si e com tudo o que existe, real ou potencial. [...] Numa visão ecológica, tudo o que existe coexiste. Tudo que coexiste preexiste. E tudo o que coexiste e preexiste subsiste por meio de uma teia infinita de relações onicompreensivas. Nada existe fora da relação. Tudo se relaciona com tudo em todos os pontos. (BOFF, 2005, p. 21)

Outra definição do termo foi concebida por Odum, ecólogo, pioneiro da disseminação da consciência ecológica. A ―Ecologia é a ciência que estuda a estrutura e funcionamento da natureza, considerando que a humanidade é parte dela.‖ (ODUM, 1975, p. 25)

Este conceito foi elaborado em 1972, e, propõe uma compreensão a partir da lógica que está presente na natureza e assim poder cooperar com as estruturas naturais para que se possa preservar e não destruir. A lógica é compreender para cooperar, e contrapõe-se à lógica vigente de descobrir recursos e explorar.

Lutzenberger, agrônomo e ecologista brasileiro, disse da ―Ecologia: que é a sinfonia da vida, é a ciência da sobrevivência!‖. (cf. 1979, p. 64) Dentro desta perspectiva, se não fizermos o esforço de entender o funcionamento, a lógica e a estrutura da mãe natureza, os prejuízos da exploração, da falta de sustentabilidade e de reposição ecológica não haverá, ―vivência sobre‖ a Terra. Como defensor de Gaia: Referência internacional na preservação da natureza, Lutzenberger (2004), confirma que: ―o ser humano ainda não consegue chegar ao poder sem destruir o jardim‖. Faz-se necessário respeitar a ―cadência‖ das leis naturais, e esforçar-se para voltar a viver no seu equilíbrio integral que se compõe do ser humano, da espiritualidade e da criação.

Pode-se apresentar ainda a opinião de Dajoz, que define que: Ecologia é a ―Ciência do Habitat‖. Para ampliar a compreensão, pode-se encontrar na mesma obra um conceito mais técnico da localização da ecologia dentro do estudo das ciências biológicas:

A ecologia pode ser definida como um dos diversos níveis das ciências biológicas. Entre outros níveis como biologia molecular, citologia, fisiologia, morfologia, anatomia, sistemática, a ecologia é o nível das populações, dos grupos de espécies, dos ecossistemas e da biosfera. [...] diremos, acompanhando a grande maioria dos ecologistas atuais, que a ecologia é a ciência que estuda as condições de existência dos seres vivos e as interações, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e seu meio. (DAJOZ, 1983, p. 75)

De acordo com Ernst Haeckel, tem-se a opinião do teólogo Boff que considera a Ecologia como estudo das interações. (BOFF, 2004) No entanto, o seu enfoque é ainda mais centrado nas relações, considerando que o cerne da crise ecológica é relacional, isto é: uma relação desigual do ser humano, consigo mesmo e com o meio ambiente. Relações e interações sociais equivocadas geram relações e interações ambientais equivocadas de igual modo. Muitas injustiças sociais se tornam por consequência injustiças ambientais.

Nessa discussão nasce o termo sustentabilidade30 aplicado à causa ambiental que surgiu como um conceito tangível na década de 1980 por Lester Brown. (cf. CAPRA, 2002, p. 226-237). A definição que acabou se tornando um padrão seguido mundialmente com algumas pequenas variações representa o seguinte:

Uma comunidade é sustentável quando satisfaz plenamente suas necessidades de forma a preservar as condições para que as gerações futuras também o façam. Da mesma forma, as atividades processadas por agrupamentos humanos não podem interferir prejudicialmente nos ciclos de renovação da natureza e nem destruir esses recursos de forma a privar as gerações futuras de sua assistência. (cf. CAPRA, 2002, p. 226-237)

Capra relata que anos depois, o relatório da comissão mundial do meio ambiente e desenvolvimento, no ―Relatório Brundtland‖, usou, a mesma definição para apresentar a noção de desenvolvimento sustentável: ―A humanidade tem a capacidade de alcançar o desenvolvimento sustentável de atender as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem suas próprias necessidades.‖ (Relatório Brundtland,1987)

A chave para Capra quanto às crises do meio ambiente e da ecologia, é que as comunidades possam adquirir um equilíbrio sustentável quanto aos ecossistemas da natureza envolvendo a vida, a economia, estruturas tecnológicas e a globalização. Ressalta que:

A chave para definição operacional é a conscientização que não precisamos inventar comunidades humanas sustentáveis a partir do zero, mas que podemos modelá-las seguindo os ecossistemas da natureza, que são as comunidades sustentáveis de plantas, animais e micro-organismos. Já que característica da biosfera consiste em sua habilidade para sustentar a vida, uma comunidade humana sustentável deve ser planejada de forma que, suas formas de vida, negócios, economia, estruturas físicas e tecnologias não venham a interferir com a habilidade inerente à Natureza ou à sustentação da vida. (cf. CAPRA, 2002, p.226-237)

Capra, porém, vai além dizendo que: ―O que nós precisamos é de uma definição operacional de sustentabilidade ecológica.‖ Esclarecendo que o sistema:

Eco-alfabetização é o 1º passo na estrada da sustentabilidade, é entender os princípios de organização evolutiva dos ecossistemas na sustentação da teia da vida. O 2º passo é movimentar-se da eco- alfabetização para o 3º passo o eco-planejamento (ecodesign). É aplicar nosso conhecimento ecológico para o replanejamento fundamental de nossas tecnologias e instituições sociais, de modo a estabelecermos uma ponte entre o planejamento humano e os sistemas ecologicamente sustentáveis da Natureza. Planejamento, na acepção ampla da palavra, consiste em direcionar os fluxos de energia e da matéria, para a finalidade humana. O eco-planejamento (ecodesign) constitui um processo pelo qual nossos objetivos humanos são cuidadosamente entrelaçados com os padrões maiores e os fluxos do mundo natural. (cf. CAPRA, 2002, p. 226-237)

Capra, alerta que a expansão ilimitada, calcada na busca de um crescimento econômico contínuo e indiferenciado era claramente insustentável e que poderia levar a uma catástrofe:

Com efeito, nesta virada de século, já está mais do que evidente que nossas atividades econômicas estão prejudicando a biosfera e a vida humana de tal modo que, em pouco tempo, os danos poderão tornar- se irreversíveis. Nessa precária situação, é essencial que a humanidade reduza sistematicamente o impacto das suas atividades sobre o meio ambiente natural. (CAPRA, 2002, p.157)

Hoje a ecologia não tem apenas a dimensão de uma ciência. Ecologia é uma questão política e também de fé, não interessa apenas aos cientistas, mas a todas as pessoas que respeitam e se preocupam com a vida. (cf. DAJOZ, 1979, p. 21-23)

Numa leitura da realidade em relação à ecologia, Moltmann no salmo 104, diz que:

O mundo é o quadro das constituições constitutivas da existência para todos os seres viventes, tanto animais como pessoas e suas necessidades elementares de existência ―(...) O meio ambiente natural das pessoas não pode ser entendido isolado do meio ambiente social. ―Aqueles processos que interferem de forma destruidora no meio ambiente natural têm suas origens nos processos econômicos e sociais. (MOLTMANN, 1993, p.15)

A luta ecológica, nos últimos anos, pode ser distinguida nas suas várias tendências, ou distintos caminhos que vêm sendo percorridos pelos mais diferentes grupos. Destacamos alguns: ecologia ambiental, ecologia social, ecologia mental, ecofeminismo, ecologia integral, eco-tecnologia, eco-política, ética ecológica, mística cósmica, ecologia urbana e ecoliturgia. (cf. MINC, 1985, p. 96-100)

É preciso ter presente as várias tendências ou, de acordo com cada realidade, escolher o melhor caminho a seguir. E para isso é preciso ler os sinais escritos nas paredes e nos muros, ler os sinais dos tempos. (cf. BERZOSA, 1996, p. 59)

Documentos relacionados