CAPÍTULO III IDEOLOGIA E PENSAMENTO EMPRESARIAIS A
3.4 Conceitos e interpretações de Responsabilidade Social Empresarial
Observa-se que existem diversos conceitos e interpretações em torno da definição de Responsabilidade Social. O termo RSE apresenta-se como polissêmico, dotado de grande elasticidade semântica, como outras palavras contemporâneas a flexibilização, como competência, participação e a própria flexibilidade. Para fim de sinônimos, consideram-se equivalentes as expressões: Responsabilidade Social Corporativa, Responsabilidade Social da Empresa, Responsabilidade Social Empresarial e Responsabilidade Social nos Negócios. O conceito destas é tomado ora como obrigação
social, responsabilidade legal, ação filantrópica, caridade, medidas assistencialistas etc. Apresentar-se-á algumas dessas concepções a partir dos principais autores da área.
Segundo Cattani e Salmon (2006), a RSE remete a uma instrumentalização da ética na gestão interna e nas relações externas com o conjunto da sociedade, restrita as suas ações de interesse. Embora possa se afirmar que há um forte movimento de RSE, “não existe um entendimento consensual, e menos ainda um padrão homogêneo na materialização das ações” (p. 246). O que existe neste cenário são as interpretações e conceitos de RSE diferentes, de acordo com diferentes marcos teóricos e ações empresariais de cada organização, e a grande atribuição dada à divulgação das ações de RSE.
Para Bowen (apud Rampinelli, 2006), um dos precursores do estudo sobre o tema, a definição do conceito de RSE é dada como as obrigações dos empresários, em optar por decisões, orientações e ações, que sejam coerentes com os fins e valores da sociedade atual. No entanto, não explicita quais seriam os fins e valores de nossa sociedade, acabando por definir um conceito subjetivo.
Para o Instituto Ethos, uma das referências no tema, a responsabilidade social da empresa envolve a capacidade de ouvir os interesses dos diferentes atores envolvidos107 (acionistas, funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade, governo), e conseguir incorporá-los no planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários. Assim, a idéia iria além da obrigação legal.
Considerando-se a visão de Karkotli (2006) temos a RSE como toda e qualquer ação que possa contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade, possibilitando que as organizações demonstrem toda sua preocupação por meio de significativos projetos sociais. Estas concepções apontam para uma responsabilidade social “customizada”, ou seja, só será considerada responsável aquela empresa que atender aos pedidos de inúmeras demandas sociais, no entanto, sabe-se que isto é impossível e que não pode ser considerada uma atitude responsável pois a empresa deve seguir padrões éticos mínimos.
Friedman (1985), representante do neoliberalismo, possui uma visão “mais
107 Abordagem do Planejamento Estratégico que enfatiza as relações com os stakeholders, expressão inglesa que é utilizada para designar todas as pessoas ou empresas que, de alguma maneira, são influenciadas pelas
objetiva” sobre esse conceito. Para ele, a empresa socialmente responsável é aquela que é lucrativa. Na sua visão, a obrigação social da empresa é gerar empregos, pagar salários justos e impostos em dia e colaborar para a melhoria da vida de seus funcionários (MONTANA e CHARNOV, 1998). Estas seriam as contribuições para o bem-estar público. Se, a empresa não tem esta obrigação como alicerce, e sim, como contribuição, deve-se questionar qual seria a função básica de uma empresa na opinião de Friedman.
Ashley (2003, p. 6), muito citada por diversos autores que tratam do assunto, conceitua a RSE como:
O compromisso que uma organização deve ter para com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que afetem positivamente de modo amplo e alguma comunidade de modo especifico, atingindo proativamente e coerentemente no que tange a seu papel específico na sociedade e a sua prestação de contas com ela. Novamente, aqui, tem-se uma definição imprecisa e subjetiva, pois afinal o quê pode ser considerado como uma atitude positiva? Qual o papel específico da empresa? Desta forma, Azambuja (2005) contribui apontando que a fragilidade, e a confusão do conceito de RSE, que, segundo ele, não têm nada de científico:
A paradoxalidade entre os diversos raciocínios conceituais desenvolvidos sobre a "responsabilidade social" indica, além da fragilidade do conceito em si, uma esquizofrenia própria de campos do conhecimento que não se acanham em utilizar um "vale-tudo teórico" para demonstrar a "excelência" das suas formulações. Diante da inconsistência de conceitos em favor de uma generalização e apropriação subjetiva do termo, alguns autores propõem definições, que sejam mais elaboradas e coerentes. Para Oliveira (1984) é preciso ter claro a diferença entre responsabilidade social e obrigação social. A obrigação social corresponde àquilo que a empresa faz pelo social e está previsto em lei, desde o pagamento de impostos até a adoção de medidas de preservação ambiental. Já, a responsabilidade social da empresa seria a sua capacidade em cooperar com a sociedade, levando em consideração seus valores, normas e expectativas na gestão administrativa. A conceituação aparece mais completa, mas, ainda, não pode ser considerada objetiva por indicar valores intrínsecos.
Autores como Melo Neto e Froes (1999) complementam a conceituação ao diferenciar filantropia de RSE, na medida em que a filantropia é individualizada. De acordo com o Dicionário Aurélio (1988), filantropia significa amor à humanidade; caridade. Ou seja, dependeria da boa vontade do empresário. No entanto, entende-se que a responsabilidade social seja uma ação coletiva resultante de vontades consensualizadas.
A responsabilidade social empresarial realizada, de acordo com os casos apontados no item anterior deste capítulo, pode ser entendida como uma caridade ou filantropia, na medida em que privilegia os seus interesses em detrimento dos interesses da sociedade, na promoção de ações sociais, e como uma responsabilidade legal, quando cumpre a legislação trabalhista ou ambiental, por exemplo. Estas medidas proporcionam à empresa diferencial competitivo, aumento da produtividade incentivado pela motivação dos funcionários, longevidade da marca influenciada pela melhora da sua imagem, maior lealdade dos funcionários e consumidores, diminuição de conflitos, menor gasto com causas trabalhistas e com problemas de saúde do trabalhador etc.
O que se vê na literatura são práticas que se resumem em adoção de padrões éticos, cumprimento de deveres e obrigações sociais, ou de assistencialismo disfarçadas de RSE, que possuem um foco claro, são utilizados para aumentar o lucro, potencializar o seu marketing social e o estabelecimento de parcerias a longo prazo. Segundo Guimarães e Rampinelli (2006), essa concepção limitada e equivocada demonstra, que a área de Administração é uma área de conhecimento, em que predomina a ideologia e não a ciência. A RSE trata-se mais de um
meio para a reprodução do capital, pela ampliação e renovação da manipulação, e pelo reforço e justificativa dos demais métodos empresariais distante de toda a sociedade. E esta parece ser a justificativa que mais prevalece para o movimento crescente da Responsabilidade Social Empresarial (p. 214).
Assim, o conceito de RSE predominante hoje é o da empresa, que utiliza os preceitos administrativos do capitalismo para vender seus produtos, serviços e a si mesma, obtendo lucro e aumentando a sua produtividade. Não há uma ação benemérita com o fim em si mesma, nem qualquer intenção de transformação social apenas utiliza a RSE como instrumento de dominação e manutenção do sistema capitalista em busca de melhores resultados. Além disso, destrói o conceito de cidadania108 e torna os indivíduos dependentes de políticas sociais pontuais e aleatórias, cidadãos voluntários de uma falsa cidadania.
A RSE impele a cidadania e conforma os sujeitos. Como coloca Paoli (2002), a cidadania só pode ser construída pela participação. É no sentido e escopo dos direitos, que
108 Para Marx (1984), a cidadania é parte integrante da emancipação política. Ser cidadão é ser participante desta dimensão pública, no entanto, por mais direitos que o cidadão tenha e os renove, a desigualdade jamais será eliminada. Conforme Rampinelli (2006), a cidadania é uma categoria abstrata, desligada da práxis real e
podem ser configuradas novas formas de resistência e de sociabilidade que, em si mesmas, são opostas às vazias idéias de futuro, sem crítica e sem projetos. Na mesma medida, transformam-se cidadãos designados como sujeitos de direitos em receptores de favores e generosidades. A pessoa recebe um favor e não desfruta de um direito.
Na opinião de Paoli (2002) as instituições que pregam a responsabilidade social falham, pois evitam incorporar-se ao debate sobre as decisões governamentais, e sua presença diante do Estado aparece, apenas, pelo lado tradicional de pressão por seus interesses econômicos e financeiros, não escondidos em sua demanda de ser intermediária de recursos públicos.
Analisando-se as práticas de RSE, elas poderiam ser uma experiência social e humanitária relevante à população brasileira. Nada poderia-se dizer se funcionassem dentro de uma sociedade, apoiada em garantias reais de direitos universalizados. Mas, para ser relevante “como experiência de formação de cidadão responsável, seria necessário que o movimento reconhecesse na sua constituição a projeção da disputa pelo poder de enunciar o espaço público, e a cidadania sob o cenário da desregulamentação estatal” (PAOLI, 2002, p. 414). No entanto, essas práticas acabam por aprofundar as desigualdades sociais, à medida que as mantêm e as encobrem, sem permitir a possibilidade de reversão do quadro social.
Nesse sentido, de desenvolvimento da cidadania, a RSE é uma utopia, pois preserva ao mesmo tempo as hierarquias desiguais que produzem a descapacitação dos cidadãos, ao recriá-los como dependentes da caridade. Em acordo com Paoli (2002), dependem das intenções, dos interesses e das flutuações dos acertos e enganos próprios ao mundo mercantil e inerentes à liberdade da iniciativa privada.
Independente do tipo de RSE desenvolvida em todas as empresas podem receber prêmios pela atitude benemérita em relação à sociedade. Os prêmios têm sido os principais resultados divulgados pelas empresas quanto a realização de ações sociais.