3 POLICIAMENTO COMUNITÁRIO
3.1 CONCEITOS E MODELOS NO CENÁRIO NACIONAL E GLOBAL
O desafio de viabilização de uma parceria entre a polícia e a sociedade constituiu o cerne de um amplo debate internacional que tem como denominador comum o conceito de policiamento comunitário, definido por Trojanowicz & Bucqueroux (1994, p. 4) como:
[...] uma filosofia e uma estratégia organizacional que proporciona nova parceria entre a população e a polícia. Baseia-se na premissa de que tanto a polícia quanto a comunidade devem trabalhar juntas para identificar, priorizar, e resolver problemas contemporâneos tais como crime, drogas, medo do crime, desordens físicas e morais, e em geral a decadência do bairro, com o objetivo de melhorar a qualidade geral da vida na área.
Para Stewart (1988 apud BAYLEY; SKOLNICK, 2006, p. 11), o papel da polícia ante a comunidade é uma questão central no policiamento moderno, pois:
Cada vez mais, tanto as forças policiais como as comunidades reconhecem quanto umas necessitam das outras. Quando as forças policiais e os cidadãos começam a ver a si mesmos como ─ coprodutores‘ da segurança pública, acumulam-se benefícios substantivos. Para o público, isso pode significar mais prevenção efetiva ao crime e menos medo, assim como uma maior responsabilização por parte da polícia. Para a polícia, um apoio e um respeito maiores por parte da comunidade fortalecem o moral e intensificam a motivação policial.
Para Bayley & Skolnick (2006, p. 17-18):
O policiamento torna-se significativo para a sociedade nas ações que levam em conta o mundo ao seu redor. O que o policiamento é, internamente, em termos de filosofia, estilo de gerenciamento e organização, são meios para tal fim. Quando se deseja fazer algum progresso em relação ao policiamento comunitário, ou em relação a qualquer outra forma de policiamento, deve-se atribuir um conteúdo programático a esse esforço. Ele deve refletir a filosofia no nível de táticas e estratégias de operação.
A premissa central do policiamento comunitário é que o público deve exercer um papel mais ativo e coordenado na obtenção da segurança. A polícia não consegue arcar sozinha com a responsabilidade, e, sozinho, nem mesmo o sistema de justiça criminal pode fazer isso. Numa expressão bastante adequada, o público deve ser visto como coprodutor da segurança e da ordem, juntamente com a polícia (grifo nosso).
Desse modo, o policiamento comunitário impõe uma responsabilidade nova para a polícia: criar maneiras apropriadas de associar o público ao policiamento e à manutenção da lei e da ordem. A consequência disso, entretanto, é que se o policiamento precisa significar algo diferente, então, deve se referir a programas que mudem as interações habituais entre a polícia e o público. Entende-se, portanto, que o policiamento comunitário merece ser celebrado apenas se estiver relacionado a um distanciamento das práticas operacionais passadas, e, prioritariamente, se somente ele refletir uma nova realidade tática e estratégica, conforme salientaram Araújo & Braga (2008, p. 98):
Inúmeros países têm se mostrado descontentes com a metodologia empregada pelas organizações vinculadas à Segurança Pública. Sendo necessária uma ampla discussão a fim de mudar as estruturas convencionais de funcionamento, que na maioria das vezes é fortemente burocrática. Por um lado, a ineficácia do combate à criminalidade e pelo outro, a perda de confiabilidade da sociedade e ausência de sua participação no processo (grifo nosso).
Constitucionalmente, o Brasil é uma República Federativa instituída na forma de Estado Democrático de Direito, ou seja, a União confere unidade política e econômica à pluralidade de centros de poder dos entes federados, que são regidos por um conjunto de regras que garantem à sociedade civil o exercício concreto da liberdade de participação nos negócios do Estado. Essas características, próprias da organização política e administrativa do Estado brasileiro, outorgam aos indivíduos os atributos necessários para o exercício da cidadania que são: liberdade, participação e igualdade (ibidem). Desse modo, o arcabouço jurídico contido na Constituição reflete o pluralismo político, econômico e social da sociedade brasileira contemporânea que exerce seus direitos, na maioria das vezes, sob a forma representativa, pois a complexidade de atribuições imputadas aos Estados modernos impossibilita o exercício direto do poder pelo povo.
A organização da sociedade moderna baseia-se especialmente no princípio constitucional da liberdade dos cidadãos. Outros paradigmas relacionados com a organização da sociedade encontram-se enunciados no Preâmbulo da Constituição brasileira que institui “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional”.
Sob essa questão, um modelo diferenciado de polícia que vise o atendimento e os anseios da sociedade encontra-se bem pontuado em Marcineiro (2009b, p.119): “A Polícia Comunitária não é a criação de uma nova polícia, mas sim a adequação do atual modelo de polícia aos novos anseios da sociedade, aos direitos e garantias individuais previstos na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e ao Estado Democrático de direito também previsto na Carta Magna”.
A Constituição Federal, ao atribuir ao Brasil a forma de Estado Democrático de Direito, condiciona que as decisões estatais sejam fundadas na vontade popular e subordinadas aos direitos e garantias fundamentais, em especial àqueles que dizem respeito à liberdade, igualdade e justiça. No Estado Democrático de Direito, visando a tutelar os interesses da sociedade, a atuação do Estado é regida pelo Direito Administrativo sob o pressuposto de que o cidadão é, em maior ou menor medida, atingido pelos atos praticados pela Administração Pública (AGRA, 2010; DALLARI, 1999; BARACHO, 1994).
Pode-se inferir que as organizações policiais promovem experiências e inovações com características diferentes, como a proposta do policiamento comunitário.