• Nenhum resultado encontrado

2.3. Teoria Ator-Rede

2.3.3. Conceitos e premissas norteadoras

Uma vez apresentado os princípios basilares da ANT, é possível explicar os termos ator e rede, que estão ligados na expressão hifenizada ator-rede. Esse hífen possui a função de mostrar que as duas partes são fundamentais, sem a possibilidade de existirem separados, e assim representam uma entidade (LATOUR, 2005; TONELLI, 2011; 2012). O ator nessa expressão não é fonte de uma ação ou ato e sim o alvo móvel de uma ampla gama de entidades que reúnem em sua direção (LATOUR, 2005; 2012).

Um ator-rede é rastreado sempre que, no curso de um estudo, se toma a decisão de substituir atores de qualquer tamanho por sítios e locais e conectados, em vez de inseri- los no micro e no macro. As duas partes são essenciais, daí o hífen. A primeira parte (o ator) revela o minguado espaço em que todos os grandiosos ingredientes do mundo começam a ser incubados; a segunda (a rede) explica por quais veículos, traços, trilhas e tipos de informação o mundo é colocado dentro desses lugares e depois, uma vez transformado ali, expelido de dentro de suas paredes. Eis por que a “rede” com hífen não está aí como presença sub-reptícia do contexto, e sim como aquilo que conecta os atores (LATOUR, 2012, p. 260).

Utilizar a palavra “ator” representa que nunca é evidente quem ou o quê está atuando quando as pessoas agem, uma vez que o ator, no palco, sempre está acompanhado ao atuar (LATOUR, 2005; 2012). Ao afirmar que um ator é um ator-rede significa dizer que ele representa a principal fonte de incerteza em relação à procedência da ação (LATOUR, 2005; 2012).

O foco da ANT está na compreensão de como os principais atores interagem para criar

rede de atores, “formando alianças e mobilizando recursos, na medida em que se dedicam a transformar uma ideia em realidade” (SANTOS, 2006, p. 2). Destaca-se que os atores são

heterogêneos, e são formados por entidades humanas e não humanas que formam associações com outros atores para formarem redes (SISMONDO, 2010).

Rede é um dos conceitos fundamentais da ANT, que representa uma forma de sugerir que as entidades e os agentes são resultados das redes formadas por diversos materiais (LAW, 1992). Ainda, o referido autor relata que a heterogeneidade das redes sociais foi essencial para a existência da sociedade. Uma rede para Latour (2012, p. 194):

[…] não é feita de nylon, palavras ou substâncias duráveis; ela é o traço deixado por um

agente em movimento. Você poderá estender para secar suas redes de pesca, mas não um ator-rede: ele tem de ser traçado de novo pela passagem de outro veículo, outra entidade circulante.

Para esse autor, uma rede seria as evidências deixadas por esses atores, isto é, representa aquilo que é traçado pelas translações nos esclarecimentos dos pesquisadores (LATOUR, 2012). De forma complementar, a rede para Latour (2012, p. 189) é,

um indicador da qualidade de um texto sobre os tópicos à mão. [...] O bom texto tece redes de atores quando permite ao escritor estabelecer uma série de relações definidas como outras tantas translações.

Essa metáfora da rede heterogênea é considerada o núcleo central da ANT (LAW, 1992). Argumenta-se que o mundo para a ANT pode ser organizado de diferentes maneiras, por isso essa abordagem é ontologicamente relativista “ao permitir que o mundo seja organizado de forma

diferenciada”, mas também empiricamente realista, por não vislumbrar nenhum obstáculo

intransponível para elaborar descrições de processos organizacionais (LEE; HASSARD, 1999, p. 391, tradução nossa).

Um conceito fundamental e central da ANT é o de translação ou tradução, que possibilita a descrição das redes. A translação foi um termo originário do filósofo francês Michel Serres (CZARNIAWSKA, 2009), que pode ser definida como “uma operação generalizada, não meramente linguística, e leva muitas formas diferentes. Pode envolver o deslocamento de algo, ou o ato de substituição; sempre envolve transformação”13 (SERRES apud CZARNIAWSKA, 2009, p. 424, tradução nossa). Esse conceito funciona porque é polissêmico, e frequentemente associado à linguagem, ele também denota transformação e transferência (CZARNIAWSKA, 2009). Ainda para essa autora, a translação atrai o interesse pelo fato de uma coisa ser movida de um lugar para outro e não ocorre sem que ela seja alterada ou transformada. Desse modo, a translação evoca simultaneamente associações materiais e simbólicas (CZARNIAWSKA, 2009). Ideias devem ser materializadas e os símbolos devem ser inscritos ao menos na mente de alguém (CZARNIAWSKA, 2009).

Na visão de John Law (1997), a translação representa o processo que possibilita transformar duas coisas diferentes em equivalentes, ou seja, é o processo que combina dois objetivos diferentes em um objetivo combinado (LATOUR, 2001). Esse conceito, de acordo com Latour (2001, p. 356),

refere-se a todos os deslocamentos por entre outros atores cuja a mediação é indispensável à ocorrência de qualquer ação. Em lugar de uma rígida oposição entre contexto e conteúdo, as cadeias de translação referem-se ao trabalho graças ao qual os atores modificam, deslocam e transladam seus vários e contraditórios interesses.

A expressão latina “inter-esse” (interesse) representa o que está entre os atores e seus

objetivos, criando uma tensão que faz os atores selecionarem apenas o que, em sua visão, os auxilie ou ajude a atingir esses objetivos entre as várias possibilidades existentes (LATOUR, 2011).

O processo de translação inicia quando os atores definem papéis, distribuem e redistribuem funções e poder para que possa ser criado um quadro, que permita que aliança de atores seja formada e consolidada (KASIMIN; IBRAHIM, 2011). Para Callon (1986), a translação possui momentos que constituem as suas diferentes fases (Figura 5).

13Tradução do autor para: “translation is a generalized operation, not merely linguistic, and it takes many different forms. It may involve displacing something, or the act of substitution; it always involves transformation”.

Figura 5 – Quatro Momentos da Translação.

Fonte: Callon (1986).

A problematização é o primeiro momento da translação, em que os pesquisadores envolvidos com a pesquisa levantam perguntas/questões a outros atores, também escrevem reportagens e artigos após esse levantamento. Mas os pesquisadores não se limitam à formulação de perguntas, eles estabelecem atores e definem as suas identidades e papéis de forma a estabelecer um Ponto Obrigatório de Passagem (obligatory point of passage – OPP) na rede de relacionamentos que construíram (CALLON, 1986). O interesse ou os dispositivos de interesse é um segundo momento, que representa os processos pelos quais uma entidade tenta impor e firmar a identidade dos outros atores que foram definidas no momento da problematização (CALLON, 1986). Assim, o interesse confirma a validade da problematização.

A inscrição é o terceiro momento, que possibilita que seja criada uma invenção ou um dispositivo que possibilita definir e atribuir um conjunto de papéis e inter-relacionar aos atores, que os aceitam (CALLON, 1986). Destaca-se que somente se o momento do interesse for bem sucedido, ele irá atingir o momento da inscrição.

O quarto momento é a mobilização ou mobilização de aliados, que possibilita mover as entidades que não eram móveis (CALLON, 1986). A mobilização acontece por meio da escolha de porta-vozes (representantes oficiais) para representarem a massa de atores de rede, ou seja, os porta-vozes representam uma cadeia de intermediários. Com a mobilização, as entidades humanas e não humanas poderão realizar os deslocamentos necessários (CALLON, 1986).

Destaca-se que o processo de inscrição pode ser visto desassociado desses momentos de Callon (1986). Ele é outro importante termo pertencente ao repertório da ANT, que representa um processo de inscrição (alistamento) de acordos, alianças ou interesses entre os atores, que atribuem papéis aos atores que os aceitam (CALLON, 1986; UDEN; FRANCIS, 2011). Para Latour (2001), a inscrição representa o processo que materializa uma entidade (artefato) num texto, num arquivo e num documento, e por este ser um processo móvel, é possível transportar de um lugar para outro (LATOUR, 2001). Assim, as inscrições deixam pistas, caminhos ou rastros que possibilitam que seja traçada a rede-de-atores (BLOOMFIELD, 1995 apud TURETA, 2011). Salienta-se que as redes que possuem processo de inscrição tendem a ser mais estáveis e duradouras, além desse processo auxiliar na materialização das redes (TELES, 2010).

O estudo de Whittle e Mueller (2008) tenta desenvolver uma perspectiva da ANT sobre o empreendedorismo organizacional e argumenta que as ideias não surgem por serem mais empreendedora ou inovador do que as demais, mas em razão do sucesso ou fracasso do processo de inscrição. Desse modo, a inscrição para Latour (2001, p. 350) refere-se

[...] a todos os tipos de transformação que materializam uma entidade num signo, num arquivo, num documento, num pedaço de papel, num traço. Usualmente, mas nem sempre, as inscrições são bidimensionais, sujeitas a superposição e combinação. São sempre móveis, isto é, permitem novas translações e articulações ao mesmo tempo que mantêm intactas algumas formas de relação. Por isso são também chamadas ‘móveis imutáveis’, termo que enfatiza o movimento de deslocamento e as exigências contraditórias da tarefa. Quando os móveis imutáveis estão claramente alinhados, produzem a referência circulante.

Nesse contexto, Kasimin e Ibrahim (2011) apresentam uma diferenciação entre a translação e a inscrição. Para esses autores, a translação é o processo pelo qual se cria uma rede de atores. Enquanto a inscrição representa um processo de inscrição ou alistamento de acordos, interesses entre os atores (KASIMIN; IBRAHIM, 2011).

Muitos estudos que adotaram a abordagem da ANT utilizavam a etnografia como um dos principais métodos (TONELLI, 2012). Mas, atualmente técnicas de análise como a de conteúdo e a do discurso têm sido utilizadas, e também outras técnicas como pesquisa documental, entrevistas e observações (Quadro 3). O Quadro 3 possibilita a comparação dos objetivos e das estratégias de coleta e análise de dados, além de contribuir para contextualizar o estado da arte da ANT no Brasil.

Quadro 3 – Trabalhos teórico-empíricos no Brasil que utilizaram a ANT (continua)

Autor Objetivos de Pesquisa Estratégias de Coleta de Dados Amantino

-de- Andrade (2005)

Este artigo propõe a teoria do Ator-Rede para analisar a formação de políticas públicas.

Foram coletados três tipos de textos: documentos escritos, falas proferidas em palestras, seminários, reuniões, e entrevistas abertas.

Santos (2005)

1. Explorar o processo pelo qual a utilização da tecnologia da Internet tornou-se uma realidade para um banco brasileiro e evoluiu até sua situação atual; examinando este processo à luz da perspectiva teórica da Teoria Ator-Rede;

2. Discutir sobre a adoção da perspectiva teórica da Teoria Ator- Rede no contexto do tema Alinhamento Estratégico entre Negócio e TI, com base na experiência desta dissertação.

Levantamento de textos no site e entrevistas semiestruturadas.

Figueiredo e Cavedon (2010)

Este trabalho toma como foco a interação de humanos e não humanos, num microcenário de relações entre um sujeito culturalmente situado e um objeto específico: o gaúcho e sua faca.

Entrevistas não estruturadas.

Teles (2010)

Descrever a evolução do programa Piraí Digital, dentro do contexto das iniciativas de desenvolvimento do município de Piraí, sob a ótica da ANT e do modelo heurístico de inclusão digital.

Entrevistas semiestrutura, Pesquisa de campo, pesquisa documental, pesquisa

bibliográfica e estudo de caso.

Teles e Joia (2010)

Desenvolver, a partir de uma modelo original de inclusão digital (ou infoinclusão) desenvolvido por Joia (2004), uma versão estendida e robustecida do mesmo, suportada pela Teoria Ator- Rede (ANT), de modo a que esse novo modelo pudesse ser aplicado empiricamente para descrever o corrente status de inclusão digital alcançado em Piraí via o programa Piraí Digital.

Entrevistas semiestruturadas, observações diretas.

Tonelli (2011)

Identificar e descrever ações que conduzam o pesquisador público e suas instituições em Minas Gerais a tomar parte ativa (ou não) em iniciativas de empreendedorismo de base

tecnológica.

Entrevistas, documentos e anotações.

Camillis (2011)

Descrever o processo de autogestão de uma cooperativa a partir da metodologia da Teoria Ator-Rede.

Trabalho de campo, diário de campo, observação.

Tureta (2011)

Investigar e analisar as práticas organizativas da produção do desfile de uma escola de samba do grupo especial da cidade de São Paulo, tomando como referência o trabalho do seu setor de harmonia.

Emprego de princípios etnográficos.

Observação não participante, fotografias, entrevistas em profundidade, documentos produzidos pelos atores e vídeos da internet.

Teles e Joia (2012)

Apresentar os resultados da investigação realizada acerca da inclusão digital em Piraí, propiciada pelo programa Piraí Digital.

Entrevistas semiestruturadas, observações diretas

Soares (2012)

Desenvolver um estudo para facilitar a compreensão da trajetória da implantação das Lan Houses no Brasil, sob a ótica da Teoria Ator-Rede, identificando os atores relevantes na formação de uma rede associada a esse tipo de negócio, por meio da metodologia de estudo de caso único.

Método de estudo de caso único.

Entrevista semiestruturada, observação direta e não participante e questionário. Fonte: Elaborado pelo autor.

Quadro 3 – Continuação.

Autor Objetivos de Pesquisa Estratégias de Coleta de Dados Oliveira

(2013)

Descrever a configuração da “Feira Livre do Produtor”

enquanto mercado de alimentação local abordando os principais enquadramentos, os consequentes transbordamentos e o cálculo de valor.

Observação não participante, entrevista, anotação, documentos e análise do conteúdo. Pinto e Domenico (2014)

Discutir mudança em organizações formais sob uma ontologia

de fluxo (versus substância), a partir da teoria ator-rede. Estudo de caso, observação participante e entrevista. Fonte: Elaborado pelo autor.

Ressalta-se que entender o processo de transferência de tecnologia pela ótica da Teoria Ator-Rede torna-se fundamental para compreender o arcabouço que possibilite que a ciência e a tecnologia, oriundas de uma ICT mineira, sejam transferidas.