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Capítulo 2: A velhice: breve olhar na história. Conceitos atuais. As

2.2 Conceitos e representações sobre velhice e

classes mais baixas. No entanto, as circunstancias não se tornaram mais favoráveis para os idosos pobres, pois ao longo do século a evolução econômica cobrou suas vítimas:

Três fenômenos estreitamente ligados acompanharam por toda parte a progressão demográfica: a revolução industrial, um êxodo rural que acarretou um desenvolvimento urbano, e o florescimento de uma nova classe: o proletariado. [...] As transformações foram nefastas para os velhos. Nunca, na França e na Inglaterra, a condição deles foi tão cruel quanto na segunda metade do século XIX. O trabalho não era protegido;

homens, mulheres e crianças eram impiedosamente explorados. Ao envelhecerem, os operários ficavam incapazes de suportar o ritmo de trabalho (pp. 235-236).

A urbanização da sociedade continuou no século XX, e como conseqüência foi desaparecendo gradualmente a família patriarcal, sendo que o progresso da industrialização deu um impulso cada vez maior à dissolução da família. O envelhecimento da população ocorrido nos países industrializados fez com que a sociedade assumisse o lugar da família.

Beauvoir revela que o prestígio outorgado à velhice em determinados momentos da história e por algumas culturas diminuiu em virtude do descrédito dado à noção de experiência, novamente mostrando com essa afirmação a atualidade de sua obra, publicada em 1970:

Um fato contundente [...] é que o prestígio da velhice diminuiu muito, pelo descrédito da noção de experiência. A sociedade tecnocrática de hoje não crê que, com o passar dos anos, o saber se acumula, mas sim que acaba perecendo. A idade acarreta uma desqualificação. São os valores associados à juventude que são apreciados (p. 257).

2.2. CONCEITOS E REPRESENTAÇÕES SOBRE VELHICE E

ordem que resulta impossível ficar indiferente a este tema. Porém, não existe uma visão única, como assevera Beauvoir: A velhice é o que acontece às pessoas que ficam velhas; impossível encerrar esta pluralidade de experiências num conceito, ou mesmo numa noção (BEAUVOIR, 1970, p. 345).

Boa parte dos estudos realizados para tentar decifrar este enigma que é o envelhecimento humano se baseou no pressuposto de que a vida é dividida em ciclos ou fases “universais”, a saber: infância, adolescência, maturidade e velhice, cabendo a cada uma um conjunto de características que lhe seriam próprias. Com o avanço das investigações chegou-se a uma conclusão que permeia todos os estudos: o envelhecimento é um fenômeno essencialmente heterogêneo, e as pessoas vivenciam o seu envelhecimento nas mais variadas formas:

... envelhecer é uma experiência única para cada indivíduo, diversificada entre pessoas de um mesmo grupo social e heterogênea tanto entre indivíduos como em diferentes grupos sociais. Em outras palavras, o processo de envelhecimento, em função de sua múltipla determinação, implica diversidade, individualidade e variabilidade entre os indivíduos (BASSIT, 2004, p. 142).

Atualmente, cada vez mais autores e áreas do conhecimento aderem à idéia - mais adequada - de que o envelhecimento é um “processo”, adotando uma perspectiva de curso de vida, que considera que as diversas idades não podem ser entendidas fora das significações sociais e do contexto histórico em que se desenvolvem. Prado (2002), citando Bassit (2000) diz que o estudo deste tema:

... vem se movimentando de uma tendência que divide o estudo do desenvolvimento humano em estágios descontínuos para um firme reconhecimento de que qualquer ponto do curso da vida precisa ser analisado dinamicamente, como conseqüência das experiências passadas e das expectativas futuras, e de uma integração entre os limites do contexto social e cultural correspondente (p. 218).

Os modos de representação e as categorias de classificação do idoso passaram, ao longo do tempo, por diversas modificações. Até os anos 60, o termo

mais utilizado para designar a pessoa idosa no Brasil era “velho”. Peixoto (1998) afirma que

Empregado de maneira geral, esse termo não possuía um caráter especificamente pejorativo [...] embora apresentasse uma enorme ambigüidade, por ser um modo de expressão afetivo ou pejorativo, cujo emprego se distinguia pela entonação ou pelo contexto em que era utilizado (p. 77).

No final da década de 60 chegaram ao Brasil reflexos vindos da Europa relacionados às mudanças de imagem da velhice. Nas análises feitas sobre a velhice e em documentos oficiais começou a reaparecer “idoso”, palavra que não tinha sido muito utilizada até então, mas que marcou um tratamento mais respeitoso.

Assim a categoria “idoso” passa a predominar, ficando o termo velho associado à decadência e sendo eliminado dos textos oficiais.

A expressão “terceira idade” foi copiada do vocabulário adotado na França após a implantação das políticas sociais para a velhice, e é largamente utilizada na atualidade, no Brasil, quando se fala do já muito ativo mercado de consumidores e das propostas relativas à criação de atividades e ações destinadas aos idosos:

Idoso simboliza sobre tudo as pessoas mais velhas, os velhos respeitados, enquanto terceira idade designa principalmente os jovens velhos, os aposentados dinâmicos [...]. E não é por acaso que surge um novo mercado para a terceira idade:

turismo, produtos de beleza e alimentares, bem como novas especialidades profissionais, gerontólogos, geriatras, etc. A terceira idade passa assim a ser a expressão classificatória de uma categoria social bastante heterogênea. De fato, essa noção mascara uma realidade social em que a heterogeneidade econômica e etária é muito grande (PEIXOTO, 1998, p. 81, grifos da autora).

A invenção dessa expressão, embora se referisse à etapa da vida que se localiza entre a idade adulta e a velhice, na prática implicou na criação de uma nova forma de designação dos idosos e foi acompanhada de práticas, instituições e agentes incumbidos de atender as necessidades deste segmento da população.

Debert (1999) se refere às representações sobre a velhice que predominaram no Brasil a partir dos anos 80. Segundo esta autora o debate em relação ao envelhecimento se desenvolveu em torno de dois modelos antagônicos.

O primeiro estimulava a visão estereotipada da velhice como um tempo de doenças, pobreza, dependência e passividade, que legitimou a imagem da velhice como

“problema” social e político, considerando que era a família que devia arcar com tal situação. O segundo modelo apresentava o idoso como ser ativo e capaz de enfrentar os desafios do seu dia-a-dia, alimentando o discurso daqueles que transformaram o envelhecimento em um mercado de consumo em constante crescimento, e que promete que ... a velhice pode ser eternamente adiada através da adoção de estilos de vida e formas de consumo adequadas (op. cit.). Não é difícil perceber que este debate continua a ter grande atualidade, pois esses modelos retratam duas realidades que coexistem até hoje, sem que se possam vislumbrar mudanças significativas num futuro próximo.

2.3. ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL, ATIVO. ENVELHECIMENTO COMO