Segunda Dimensão
3.1 Contando a história nacional: Tecendo os primeiros nós dos desejos e Promessas da Terra no Território Brasileiro.
3.1.6 Conceitos e sentidos de assentamentos rurais
No limiar do século XXI, a vitalidade da luta pela terra é uma das facetas do padrão de desenvolvimento que caracterizou a formação da sociedade brasileira. O termo assentamento surgiu na América Latina, mais especificamente no vocabulário de sociólogos e jurídicos da Venezuela, na década de 1960, para caracterizar, segundo Bergamasco (1995), a política governamental de fixação das famílias no campo, em unidades de produção agrícola para fins da reforma agrária.
Hoje, esse conceito carrega em si não apenas o significado, mas também o sentido. Ele continua presente no debate político brasileiro, impulsionado pelas lutas que caracterizam as formas de ocupação de terras e de sua formação.
Assim, na medida em que já apresentamos a uma visão histórica, embora fragmentada e limitada dos trabalhadores rurais, podemos inferir que o assentamento é o resultado da luta pela posse da terra em diversas regiões brasileiras. Uma luta nada homogênea que resultou de processos de organizações sociais distintos.
A proximidade entre os termos assentamentos e reforma agrária tem dificultado a percepção das diferenças entre essas terminologias. Do ponto de vista do senso comum, são expressões usualmente aplicadas com o mesmo sentido e significado. Por isso, optamos por uma tentativa de demarcar essas diferenças.
As diversidades nesses conceitos nos permitiram identificar as mentalidades e atitudes dos sujeitos que convivem nesse território da “nova ruralidade” . Nesse sentido, recorremos a alguns teóricos e/ou documentos e percebemos que as diferenças são marcadas tanto no aspecto prático, quanto no aspecto ideológico de constituição dos sentidos impressos nos dois termos.
Brancolina Ferreira (1994) elaborou uma diferenciação de ordem prática, quando considerou a reforma agrária em relação à estrutura fundiária, no sentido de torná-la mais equânime. Já o conceito de assentamento compreenderia basicamente as ações de natureza política que se iniciam com a seleção dos beneficiários da reforma agrária e, se encerram no momento em que eles tomam posse do lote de terra que lhes tenha sido destinado.
Já para Stédile (1999), reforma agrária seria como um mecanismo para frear a concentração de terra, enquanto o segundo termo, o Assentamento, seria o resultado da ação mais imediata da distribuição de terras, utilizada pelos governos como mecanismo de acalmar as pressões sociais e, não, uma política de reforma mais ampla.
A idéia de resgatar conceitualmente, esse autor, se justifica porque seus artigos e livros fruto de uma experiência não apenas acadêmica, mas também prática, acompanharam toda essa modificação conceitual dos referidos termos, de maneira crítica. Anos depois, Stédile (2005), considera a reforma agrária brasileira um fracasso, uma vez que os Projetos de Assentamentos fazem parte de um processo de colonização brasileira e não de uma política de reforma agrária.
A análise política desse autor demonstra que o Brasil precisa de uma nova organização da agricultura, com prioridade à produção de alimentos para o mercado interno, com o uso de técnicas agrícolas que respeitem o ambiente e preservem a saúde dos consumidores. Isso significa mudança de objetivo no projeto de democratização das terras brasileiras, ou seja, há a necessidade de sair do eixo guiado pelo interesses econômicos no projeto de desenvolvimento do território rural e redirecionar de ações e políticas públicas para esse setor, baseadas no interesse social.
Seguindo a lógica da plasticidade do significado da reforma agráriados movimentos sociais do campo, Stédile (2005), analisa que a vitória do agronegócio no campo obriga o MST a se politizar e buscar novas bandeiras de luta. Isso implica demarcar um novo perfil não apenas para o território rural, mas para a recuperação da indústria nacional. É necessário
pensar uma nova alternativa de desenvolvimento, ainda não incorporada pelos movimentos sociais.
Desta forma, podemos dizer que a variação do significado, do conceito de Assentamento se expandiu ao longo da história brasileira, à proporção que foi incluindo todas as medidas necessárias à fixação e transformação dos novos proprietários e suas diversidades geopolítica, cultural e social. Isso conduziu à emergência do alguns termos que só representam algo quando inseridos no contexto dessa história.
No que se refere aos aspectos jurídicos que nos possibilitam visualizar a disciplina legal dos assentamentos brasileiros, destacamos tanto a Constituição Federal em seu Art. 189, que trata dos beneficiários dos imóveis rurais em decorrência da reforma agrária, estabelecendo que o título e a concessão de uso são inegociáveis por dez anos, quanto o Estatuto da Terra, que trata da destinação de terras para a reforma agrárianos Arts. 24 e 26, impondo a obrigatoriedade de venda aos beneficiários, no Art.25.
Assim, podemos inferir que o sentido do conceito do termo assentamento, ao longo da história brasileira, ganhou uma plasticidade capaz de abrigar novos e antigos termos (colonos da colonização, os posseiros, os quilombolas, ribeirinhos e seringueiros). No que se refere à especificidade do Estado do Pará, essa diversidade se amplia quando levamos em consideração os recursos naturais, a infra-estrutura, o perfil produtivo, o nível de organização e a qualidade de vida dos assentados.
Se usarmos a terminologia do próprio INCRA44, vamos encontrar no Estado do Pará 06 caracterizações diferenciadas de assentamentos: Assentamento Federal, Assentamento Estadual, Assentamento Agroextrativista Federal, Assentamento Extrativista, Assentamento Casulo e Assentamento Quilombola.
Essa diversidade ainda precisa ser compreendida pelas políticas públicas brasileiras, para que, de fato, consiga organizar e planejar uma proposta de desenvolvimento para esses diferentes territórios. Segundo a avaliação do INCRA45 no Plano Plurianual/2000-2003, a maioria dos projetos de assentamento nesse Estado não conseguiu alcançar positivamente os indicadores das quatro últimas variáveis. Isso significa que a maioria dos projetos de assentamentos ainda não atingiu a autonomia e o desenvolvimento sustentável.
44 INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Relatório de 12/07/2007. 45 INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Plano Plurianual 2000-2003.
TABELA 4 : SÍNTESE DAS CARACTERÍSTICAS DOS GRUPOS DOS PROJETOS