3 APROXIMAÇÕES À LITERATURA APOCALÍPTICA
3.1 INTRODUÇÃO À LITERATURA APOCALÍPTICA
3.1.1 Conceitos, expressões e classificação da literatura apocalíptica
Collins (2010, p. 20) afirma que a maioria das literaturas apocalípticas não foi reconhecida como pertencente a esse gênero antes do cristianismo. Segundo ele, “a primeira obra introduzida como um apokalypsis é o Apocalipse de João, do Novo Testamento, e mesmo assim não está claro se a palavra denota uma classe especial de literatura ou se é utilizada, em sentido mais geral, como revelação”. Por ser considerado um produto do judaísmo tardio, marginal e contra cultural, o gênero apocalíptico teve seu valor minimizado em relação a outros escritos bíblicos por alguns teólogos do século XIX, como Julius Wellhausen e Emil Schürer (COLLINS, 2010, p. 18).
O gênero apocalipse aparece em momentos de crise e como resposta para superação de situações limite. Possui características peculiares que, conforme citado anteriormente, tem dificultado o entendimento de seu conteúdo e sua mensagem. Por isso, a necessidade de conhecer alguns conceitos desta literatura e da identificação de termos que causam certa confusão nos estudantes desse tipo de literatura. Existem três termos que precisam ser clarificados, são eles: “os apocalipses”, “o apocalipticismo” e “o pensamento apocalíptico”, também conhecido como “apocalíptica” ou “escatologia apocalíptica”.
Segundo Hanson (1976, p. 27-34), esta tríade deve ser utilizada, levando em consideração que se trata de um fenômeno judaico antigo, ou seja, que no contexto
original, os autores não distinguiam rigidamente entre gênero, ideologia e perspectiva. Por isso, o cuidado que se deve ter com a integridade e complexidade dessa composição. Para melhor entendimento esses termos ou expressões merecem um detalhamento maior.
1) Apocalipse (gênero)
O termo utilizado para definir a literatura apocalíptica é “apocalipse”. O termo grego “Apokalypsis”, de forma simplificada, significa “revelação”. Como afirmado na introdução, não existe um consenso com relação ao período que vai da origem ao desaparecimento desse gênero literário. A concordância é que inicialmente se tratavam de escritos judaicos que também foram apropriados pelos cristãos. Mesters e Orofino (2008, p. 52) esclarecem que além das demais formas de expressão literárias utilizadas pela igreja primitiva (história em Atos dos Apóstolos, cartas e epístolas como nos escritos paulinos, cânticos, evangelhos escritos, entre outros) cada uma na sua função, o apocalipse tem como propósito “anunciar a Boa-Nova de Deus aos pobres em época de perseguição e de perplexidade”.
O modelo de estrutura típica para definição do gênero literário apocalipse é definido a partir dos primeiros versículos do “Apocalipse de João”: a) revelação dada por Deus; b) utilização de um mediador; c) mensagem a um visionário; d) previsão de eventos futuros. Collins traz a seguinte definição para o gênero literário:
Um gênero de literatura revelatória com estrutura narrativa, no qual a revelação a um receptor humano é mediada por um ser sobrenatural, desvendando uma realidade transcendente que tanto é temporal, na medida em que deslumbra salvação escatológica, quanto espacial, na medida em que envolve outro mundo, sobrenatural (COLLINS, 2008, p. 22).
Apocalipse, portanto, se refere a um gênero literário caracterizado por uma revelação de Deus, mediada por um ser sobrenatural, que envolve também o cosmos. Enfatiza o interesse pelo mundo celestial e a influência deste na história judaica e no destino do mundo cósmico, principalmente no relacionamento do povo judeu e seus opressores, numa relação de resistência à atuação destes.
Collins (2010, p. 23-25) classifica o gênero literário em dois tipos: a) apocalipses históricos; b) apocalipses de jornadas sobrenaturais ou de viagens a outro mundo.
a) Apocalipses históricos
Os apocalipses históricos são caracterizados pelo interesse no desdobramento da história em várias épocas (NOGUEIRA, 2016, p. 51). A visão de um sonho simbólico (Dn 2 e 7), a epifania, o discurso de um anjo, o diálogo de revelação, o midraxe, o pesher e o relato de revelação são os meios de revelação. As ênfases do conteúdo da revelação são: a profecia ex-eventu (periodização da história e da profecia relativa a reinado) e as predições escatológicas. Um contexto de crise, conflito e sofrimento, mas que apresenta uma esperança no fim. Uma mensagem que incentiva a resistência por um pouco mais, pois a salvação está próxima. Este tipo de apocalipse desvenda a resposta divina a uma crise iminente ou em andamento de perseguição e cataclismos, conduzindo ao final da ordem do mundo atual por meio do julgamento dos injustos e salvação dos justos. Neste tipo de apocalipse, a periodização da história se torna uma característica básica, tendo como ápice a revelação do que acontece próximo do último período histórico.
Gottwald (1998, p. 547) assevera que a armação do palco do tempo do fim parte da “‘revelação’ acerca da história passada na forma de profecia-após-o-evento (assim denominada vaticinia ex eventu) relatada a partir do ponto de vista do antigo destinatário”, como exemplo cita o livro de Daniel. Outros exemplos de apocalipses históricos: 2 Baruque, 4 Esdras, Jubileus, Apocalipse das Semanas, Apocalipse Animal.
b) Apocalipses de jornadas sobrenaturais ou de viagens a outro mundo. Este tipo de apocalipse tem sua ênfase nas especulações cosmológicas, como no exemplo clássico do Apocalipse de João. A transposição do visionário e a narrativa de revelação são os meios de revelação e o conteúdo da revelação está relacionado a coisas reveladas, visões das moradas dos mortos, listas de vícios e virtudes, cenários de juízo e visões de trono. As jornadas sobrenaturais são classificadas de acordo com sua escatologia: 1) uma revisão da história (aparece somente em Apocalipse de Abraão); 2) escatologia pública, cósmica ou política (ex.: 1 Enoque, 2 Enoque, Testamento de Levi 2-5, Livro dos Vigilantes, Livro Astronômico e Similitudes); 3) ênfase no julgamento individual dos mortos (ex.: 3 Baruque, Testamento de Abrãao e o Apocalipse de Sofonias).
Nogueira (2016, p. 51) afirma que os dois tipos de apocalipses (histórico e de jornada sobrenaturais) compartilham algumas características básicas como “revelações sobrenaturais mediadas por um anjo ou algum ser sobrenatural, o foco no fim dos tempos e história, que, de forma geral, envolve a transformação deste mundo”. Ela reforça que “comumente, os apocalipses são textos escritos que reivindicam ser tanto inspirados quanto antigos”.
Segundo Gottwald (1998, p. 541) um apocalipse pode ser exclusivamente histórico (revelação temporal), exclusivamente de jornadas sobrenaturais (revelação espacial), bem como pode ser constituído da mescla dos dois tipos (exemplo de Ap 4-11). Reforça, também, a independência do gênero na sua formulação literária, pois “um apocalipse funcional pode ser somente parte de composição mais extensa”, como exemplo do livro de Daniel, em que a parte apocalíptica do livro (Dn 7-11) complementa a parte “não apocalíptica” (Dn 1-6). No entanto, sua composição, o livro de Daniel é considerado como pertencente ao gênero literário apocalipse. Gottwald ressalta que para uma visão completa de livros do gênero apocalipse, “faz- se necessário olhar para a forma resultante da combinação de materiais de outros gêneros com apocalipses segundo definidos estritamente”.
2) Apocalipticismo (ideologia)
Ester termo ou expressão se refere a um movimento social e religioso influenciado pelo pensamento apocalíptico. A ênfase é para o estudo do contexto socioeconômico, político e ideológico das comunidades de onde surgiram os autores dos apocalipses, os chamados grupos apocalípticos. Ana Valdez (2002, p. 58) afirma que estamos “perante um universo simbólico que rege a sua atuação, ou seja, estamos frente a frente com um movimento histórico”. Esse movimento é uma visão de mundo que surgiu como resposta aos problemas gerados durante o período de opressão sob os impérios helênico e romano (COLLINS, 2000, p. 157). Não existe unanimidade entre os especialistas se o apocalipticismo é anterior ou posterior ao gênero apocalíptico. Segundo Ana Valdez (2002, p. 59), nas pesquisas atuais prevalece a posterioridade dessa visão (apocalipticismo) “visto ser entendida por analogia com o gênero”. Ela conclui que:
Sendo assim, o apocalipticismo não é apenas o universo, é o meio onde é possível conjugar a identidade apocalíptica e sua interpretação da realidade, ou seja, algo bem mais complexo. É exatamente por causa desta
última questão, que estes movimentos não precisam ser comunitários, podendo ser de caráter individual (ANA VALDEZ, 2002, p. 59).
Como visto essa definição não é tão simples, pois considerando que esses movimentos não precisam necessariamente ser comunitários, implica que obras apocalípticas de caráter individual podem surgir de universos não apocalípticos. Enquanto, existem comunidades consideradas apocalípticas, como os essênios, que segundo Ana Valdez (2002, p. 59), “não implica que toda a sua obra seja apocalíptica”. Portanto, segundo essa afirmação, existem comunidades apocalípticas que produzem escritos apocalípticos e não apocalípticos, bem como autores apocalípticos que possuem a visão de mundo apocalíptico, mesmo não pertencendo a uma comunidade apocalíptica.
3) Escatologia apocalíptica, apocalíptica ou pensamento apocalíptico (perspectiva)
O termo se refere à perspectiva religiosa específica do plano final de Deus com relação à história da humanidade, ou seja, sua intervenção no processo de opressão e oprimidos. A escatologia não é exclusiva do gênero apocalíptico, mas esteve presente na literatura da antiguidade. A escatologia foi ao longo do tempo um recurso do gênero profético, que com a evolução do pensamento profético para o apocalíptico, da visão histórica do fim dos tempos, que foi frustrada no período pós- exílio, para uma visão cósmica (HANSON, 1979, p. 8-12). A evolução da escatologia profética para a escatologia apocalíptica é um dos argumentos de alguns especialistas para demonstrar a origem da literatura apocalíptica. Para Gottwald (1998, p. 542), “numa descrição fenomenológica, o coração do pensamento apocalíptico é recapitulação e avaliação radicalmente novas da história como tendo percorrido o seu curso”. Neste pensamento, o pessimismo e otimismo em relação à história interagem, pois o “pessimismo radical a respeito do significado da história funde-se com o otimismo radical no sentido de que a história está prestes a extinguir-se antes do reino divino”.
Segundo Collins (2010, p. 18), em pesquisas acadêmicas mais recentes, o termo “apocalíptica” tem sido abandonado como um substantivo. Estas pesquisas fazem distinção entre “apocalipse como um gênero literário, apocalipticismo como uma ideologia social e escatologia apocalíptica como um conjunto de ideias e
motivos literários que também podem ser encontrados em outros gêneros literários e contextos sociais”. No entanto, não é uma tarefa fácil fazer esta distinção, como afirma Gottwald (1998, p. 540): “[...] Discussões deste fenômeno, complicadas desde início pela singularidade da forma e do conteúdo, frequentemente malograram em fazer distinção, adequadamente, entre os aspectos literários, ideológicos e sociológicos da pesquisa”.
Para entender melhor a literatura apocalíptica se faz necessário conhecer sua origem e quais as características que a identifica e diferencia dos demais gêneros literários.