III. AS TEMÁTICAS
3.1.1. Conceitos iniciais acerca do envelhecimento
O envelhecimento no contexto mundial não se orienta apenas por questões biológicas. É também uma construção sócio-psíquico-cultural. Cada sociedade possui em relação a esta fase da vida um imaginário coletivo em que emergem ritos de passagem, hábitos corporais, sexualidade, condutas, crenças e dependência.
Em relação aos marcadores do envelhecimento, a idade cronológica é um dos mais importantes, pois a ela se impõe as questões legais. A terceira idade reconhecidamente como o tempo da velhice é prescritivo entre 60 e 65, pois a partir daí o papel de protecção do Estado se configura como um direito legal.
A investigação sobre o processo de envelhecimento trouxe o aparecimento de novos campos do saber como a geriatria e a gerontologia. A geriatria, como já foi descrito anteriormente, procura perceber como ocorrem as mudanças relacionadas aos aspectos anátomo-fisiológico do corpo que envelhece. É uma visão centrada no saber médico, que de uma forma geral procura discutir os aspectos biológicos e psicopatológicos da velhice, entre eles aparece a senescência. Já a gerontologia busca entender o envelhecimento por meio de uma perspectiva multidisciplinar.
A configuração específica da gerontologia, por estar em um campo autônomo e prestigiado do saber, é acompanhada da desconstrução, pelos próprios gerontologistas, de seu objeto do saber e intervenção. De maneira semelhante ao que ocorre na antropologia, a gerontologia é caracterizada como uma disciplina que soube combinar
um conhecimento científico rigoroso com a defesa das populações estudadas. O rigor acadêmico que as disciplinas requerem esteve sempre na antropologia e na gerontologia, acompanhado da indignação com a forma pela qual as minorias desprivilegiadas, estudadas em cada caso, são tratadas (Debert, 2012a, p.34).
A geriatria e a gerontologia possuem terminologias próprias que são utilizadas pelos profissionais que nelas atuam. Os termos cunhados têm como objetivo a padronização de conceitos e definições que ajudam na avaliação do ser envelhecente, na pesquisa sobre as temáticas que são desenvolvidas nestas áreas, na produção de material educativo ou informativo, na promoção e cuidados relacionados à saúde.
Em relação aos termos mais utilizados temos: o termo “velho” e o termo “idoso”. O primeiro em geral é utilizado para indicar características próprias da idade, muitas vezes ligada ao declínio em especial no que se refere às Atividades da Vida Diária (AVD). O segundo termo se refere em muitas teorias como “novo ator social”, pois indica a pessoa que chegou aos 60 anos de idade, e possui uma vida produtiva. Vários estudos apontam que são considerados velhos jovens aqueles que possuem idade entre 60-69, os que estão entre 70 e 79 reconhecidos como velhos de meia-idade e os que estão entre 80 e 89 velhos velhos. Ainda temos aqueles com + de 90, que são chamados de velhos muito velhos.
O estatuto do idoso no Brasil surge com a proposição do Projeto de Lei nº 3.561 de 1997, seu autor foi o Deputado Federal Paulo Paim. A autorga deste projeto se deu pela LEI 10.741/2003, que traz em sua disposição: O ESTATUTO DO IDOSO E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS. A lei foi assinada na época pelo Presidente da República Luiz Inácio da Silva. A lei veio reforça a utilização do termo idoso no País. O reconhecimento do setor jurídico é que este termo é adequado do que o tremo “velho”, para se trabalhar a legislação em prol desta fase de vida.
O aumento demográfico da velhice fez surgir o movimento da terceira idade, que se pauta na busca da socialização do indivíduo, para poder reconfigurar seu papel social. Esse termo surgiu para criar um contraponto com o termo envelhecimento, palavra esta
que foi utilizada durante muito tempo para remeter a estereótipos, preconceitos e, até mesmo, para rotular a invalidez.
A terceira idade possui como princípio básico o envelhecimento saudável. Porém a homogeneização deve ser descartada, pois há que se levar em consideração a história de vida de cada ser que envelhce, lembrando que ela contínua nessa fase da vida.
O retrato da velhice na obra de Beauvoir discute vários aspectos considerados importantes para se entender esta fase da vida, entre eles: os ideológicos, os legais, os morais, os literários, os biológicos, o sexual, a relação de gênero, o etnológico, o mitológico, etc. O trecho a seguir deixa clara a descrição do tempo sobre o corpo.
A aparência do indivíduo se transforma e permite que se possa atribuir-lhe uma idade, sem muita margem de erro. Os cabelos embranquecem e se torna rarefeito; não se sabe por quê: o mecanismo da despigmentação do bulbo capilar permanece desconhecido, os pelos embranqueceram também enquanto em certos lugares – no queixo das mulheres velhas, por exemplo, começa a proliferar. Por desidratação e em consequência da perda de elasticidades do tecido dérmico subjacente, a pele enruga. Os dentes caem [...], a proliferação senil da pele traz engrossamento das pálpebras superiores, enquanto se formam papos sob os olhos. O lábio superior míngua; o lóbulo da orelha aumenta. Também o esqueleto se modifica. Os discos da coluna vertebral empilham-se e os corpos vertebrais vergam: entre 45 e 85 anos o busto diminui dez centímetros nos homens e quinze nas mulheres. A atrofia muscular e a esclerose das articulações acarretam problemas de locomoção. O esqueleto sofre de osteoporose: a substância compacta do osso torna-se esponjosa e frágil; é por este motivo que a ruptura do colo do fêmur, que suporta o peso do corpo, é um acidente frequente (Beauvoir, 1990, p.34).
O livro A velhice, de Simone de Beauvoir, comenta sobre a velhice e tudo que dela faz parte como a finitude, os medos e inquietações. Sua obra traz uma rica descrição sobre o envelhecimento em várias culturas. Fica claro sua intenção de transpor os mitos, mostrar as relações transgeracionais, os ritos e os confrontos que àquele que envelhece tem que passar quando convive em sociedade.
O velho aparece durante toda a obra com características multifacetadas por apresentar culturas tão diversas. Assim temos acesso à máscara social, à polidez, aos momentos de
crueldade, seja quando se desenha o guerreiro, ou seja, quando se desenha o flagelado, pois aí uma fração simbólica do que somos ou daquilo que a vida nos tornará: velhos. Os filósofos foram chamados para dizer que são seus velhos, sábios talvez, tolos também, sombras de uma imagem que paira o invisível de ser alguém real. O trágico e o cômico, uma união de contrário para descrever sombra e luz de uma mesma realidade, seja para o Judaísmo ou para o Cristianismo.
O arquétipo da velhice busca sempre se ancorar no herói, no sábio, com o intuito de trazer credibilidade a sociedade que é possível envelhecer, que é possível ser velho, que a experiência pode preceder a força física, os músculos, o vigor (Beauvoir, 1990, p.34). O modelo patriarcal sempre esteve presente nos processos civilizatórios, na Grécia os arquétipos eram utilizados para indicar as relações de poder, que servia para os jovens como inspiração na busca de realizarem feitos que tivessem valor para a sociedade. Em contrapartida havia também a desconstrução deste arquétipo, pois a velhice ligada à fealdade e a decrepitude, manchava a visão que a comunidade possuía do homem imbatível. Porém já existia o desejo de uma longevidade e a velhice era combatida com porções e remédios que ajudassem de alguma maneira e preservar a beleza, a força e o poder.
Ser jovem era um estado de espírito que deveria se manter na velhice, com a negação desta etapa da vida. Hoje ainda temos em várias sociedades esta máxima, pois a busca pela longevidade e beleza eterna continua, por meio das cirurgias plásticas, dos fármacos, dos tratamentos de beleza, na forma de vestir e nas atitudes.
Toda esta tentativa de representação da velhice acontece ao longo da civilização, também está claramente descrito na obra intitulada História da Velhice no Ocidente de Georges Minois. O autor, que em determinados momentos faz referências a Beauvoir, leva o leitor a uma trajetória rica das relações sociais pautadas na velhice, passando pelo império, filosofia, Idade Média e algumas civilizações, apresentando vários tipos de velhos: ricos, políticos, sábios, dependentes, desprezados, pobres, infelizes, medrosos
sociedade, seja para demonstrar o lugar que este homem da “idade de oiro” ocupa, seja para revelar o desprezo e a violência sofrida por alguns, tendo que pagar com a própria vida por terem chegado à velhice.
Determinação de velhice não é tão simples, pois para além da idade cronológica e da condição física, existe também uma carga subjetiva, que está permeada representação simbólica. No Brasil esta realidade vem sendo estudada por vários pesquisadores e também pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).